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Jimmy Wales, fundador da Wikipedia | Foto: Divulgação

Quando Jimmy Wales fundou a Wikipedia há 25 anos, a ideia de ter uma enciclopédia colaborativa, com verbetes escritos por qualquer pessoa, parecia absurda. O conceito central por trás do negócio era justamente a confiança, tema do novo livro lançado pelo empreendedor. Em entrevista ao Startups, ele fala sobre as mudanças tecnológicas vividas desde o surgimento da Wikipedia, a influência da inteligência artificial nas relações humanas, e como resgatar a confiança nas pessoas e nas instituições.

As Sete Regras da Confiança foi escrito em parceria com o jornalista canadense Dan Gardner, coautor de best-sellers como Superforecasting e How Big Things Get Done.

Publicado em meio a um momento de profunda crise de credibilidade nas instituições e nas relações humanas, o livro analisa erros e acertos da Wikipedia e mostra como um projeto aberto, editado por voluntários anônimos, conseguiu se tornar uma das fontes de informação mais confiadas do mundo.

Para ele, uma crise de confiança tem impactos na forma como a sociedade se organiza: “Quando existe um declínio na confiança, surgem políticos demagogos, desconectados da realidade. Isso é gravíssimo. Se as pessoas não confiam no jornalismo, não sabem mais no que acreditar e ficam vulneráveis a esse tipo de coisa”, diz.

Perguntado sobre o papel da Wikipedia com a popularização da IA, Jimmy é direto: “A IA não consegue fazer o que a Wikipedia faz”. E faz uma comparação com o xadrez: “Computadores já jogam melhor que humanos há décadas. E ainda assim o xadrez nunca foi tão popular. As pessoas ainda jogam porque é divertido. O mesmo vale para a Wikipedia”.

Leia a entrevista completa abaixo.

Startups: O senhor criou a Wikipedia há 25 anos. Em algum momento o senhor imaginaria que a tecnologia e a internet chegariam onde estão hoje? Como o senhor vê a popularização da IA?

Jimmy Wales: Muita coisa está acontecendo muito rapidamente com a IA. A tecnologia é empolgante, mas também é problemática porque não é muito boa com fatos. Ainda assim, é um momento muito empolgante para a inovação. Na comunidade da Wikipedia, estamos explorando experimentos. A IA ainda não é boa o suficiente para escrever artigos, mas pode ser útil em outras coisas — como sugerir edições sem desperdiçar o tempo das pessoas.

Por que o senhor diz que a IA não é boa para escrever artigos da Wikipedia?

O problema das alucinações é grave. Para tópicos famosos ela se sai razoavelmente bem, com alguns erros. Para assuntos mais obscuros, alucina muito, produz nonsense que parece plausível. Simplesmente não é boa o suficiente.

O senhor já viu humanos “alucinarem” como a IA faz ao escreverem verbetes para a Wikipedia?

É diferente. As pessoas erram, confundem coisas, isso acontece. Mas a IA alucina de maneiras distintas: inventa algo muito plausível mesmo sem saber do que está falando, e quando confrontada se desculpa. Se você conhecesse uma pessoa assim, não confiaria nela.

O senhor escreveu um livro inteiro sobre confiança. Por que ela importa tanto?

Quando a confiança entra em declínio, surgem políticos demagogos desconectados da realidade. Isso é gravíssimo. Se as pessoas não confiam no jornalismo, ficam vulneráveis. Dentro das empresas, um ambiente de alta confiança é essencial. Vi uma notícia sobre o Facebook rastreando movimentos de mouse dos funcionários — isso é simplesmente tóxico e de baixíssima confiança.

A Wikipedia ainda faz sentido hoje, num contexto de tanta polarização e desinformação, e justamente de falta de confiança?

Faz mais sentido do que nunca. Há uma demanda enorme por informação clara, de qualidade e neutra. Quando você enfrenta uma questão de saúde, por exemplo, não quer ideologia, quer fatos. O público está cada vez mais insatisfeito com o ecossistema atual de informação.

As pessoas estão confiando menos umas nas outras do que antes?

Houve algum declínio, mas não tão grande quanto na política e no jornalismo. Uma preocupação é que as pessoas estão formando sua visão a partir das redes sociais, que promovem aqueles que não são pessoas comuns, que muitas vezes ganham com a discórdia. Na vida real, quase todo mundo que você encontra é perfeitamente agradável.

O senhor é um otimista.

Sou patologicamente otimista, como costumo dizer.

Como o senhor navega pela tensão entre engajamento e precisão nas redes sociais? O senhor usa? Seus filhos usam?

Uso com cuidado. Não deletei minha conta no X porque muitos jornalistas me seguem, mas uso muito menos, virou completamente inútil. Limito os Shorts do YouTube a 15 minutos por dia. Com os filhos, usamos controles parentais. E sempre digo aos pais: antes de se preocupar com o tempo de tela dos filhos, olhe para você mesmo. Você lidera pelo exemplo. Não adianta querer que seus filhos reduzam o tempo de tela, quando você está mexendo no celular na mesa de jantar.

Onde o senhor geralmente se informa?

Principalmente no Google News. Às vezes deleto meus cookies e navego deslogado. Gosto da aleatoriedade. Lembro dos jornais impressos: enquanto você folheava, via de tudo, sem nenhum algoritmo escolhendo por você.

Os maiores nomes da tecnologia estão alinhados com Donald Trump. Como o senhor vê a relação entre tecnologia e política hoje em dia?

Acredito que muitas empresas estão simplesmente ficando quietas para evitar ameaças aos seus negócios. Alguns apoiam de fato, como Peter Thiel. Mas acho importante que empresas mantenham seus princípios — mesmo que às vezes seja preciso escolher as batalhas com sabedoria.

O senhor já se viu numa situação em que precisou tomar uma posição política?

Sim, quando o assunto impacta a Wikipedia. Somos fortes defensores da liberdade de imprensa e do acesso ao conhecimento. Quando fomos bloqueados na Turquia, fomos até o Supremo e ganhamos — me orgulho muito disso. Na China continuamos bloqueados, mas nunca vou violar nossos princípios para acessar um mercado.

Quais são os lados bons e ruins da IA para a humanidade?

No lado bom, a IA está revolucionando a biologia. Carros autônomos vão reduzir drasticamente mortes no trânsito. No lado ruim: a proliferação de conteúdo de baixa qualidade — agora qualquer um pode criar toneladas de fake news sem custo. E o vibe coding é animador, mas código gerado por IA costuma ter muitas brechas de segurança.

Como o senhor vê o uso de IA pelos mais jovens, por exemplo, para fazer trabalhos escolares? É algo que te preocupa?

De forma geral, acho uma coisa boa, desde que ensinemos como usar a IA corretamente. Não importa o que pensamos: os jovens vão usar de qualquer jeito. Precisamos ensinar nas escolas os limites e os usos corretos. Usar a IA para fortalecer o pensamento é extremamente valioso. Usá-la para evitar pensar é extremamente ruim.

A Wikipedia tem futuro na era da IA?

A IA não consegue fazer o que a Wikipedia faz: o julgamento, a discussão, o processo de refinar o conhecimento. E olha o xadrez: computadores já jogam melhor que humanos há décadas, mas o xadrez nunca foi tão popular. O mesmo vale para a Wikipedia. Mesmo que a IA escreva bem, humanos vão continuar fazendo porque somos nerds que fazem isso por diversão.

O post “IA não faz o que a Wikipedia faz”, diz Jimmy Wales apareceu primeiro em Startups.