
Por milhares de anos, os humanos ouviram o canto das baleias, o chamado das aves ou o som do vento nas florestas sem realmente compreender o que estava sendo dito. Agora, a inteligência artificial (IA) começa a abrir uma possibilidade inédita: decifrar essas linguagens.
No SXSW 2026, em Austin, nos Estados Unidos, o futurista e pesquisador Aza Raskin propôs justamente usar a tecnologia não apenas para ampliar a inteligência humana, mas também para compreender outras inteligências que coexistem no planeta.
“Mais de 8 milhões de espécies compartilham a Terra conosco. Até hoje, entendemos apenas a linguagem de uma delas”, disse Raskin, cofundador do Earth Species Project, organização que reúne cientistas e engenheiros com o objetivo de usar inteligência artificial para decifrar sistemas de comunicação animal.
A proposta pode soar ficção científica, mas, segundo o pesquisador, avanços recentes em aprendizado de máquina tornaram possível explorar um campo que, até poucos anos atrás, parecia inalcançável: traduzir linguagens sem a necessidade de uma “Pedra de Roseta”, ou seja, sem uma referência conhecida que permita comparar dois idiomas.
“Estamos desenvolvendo ferramentas que permitem identificar padrões de significado diretamente nos dados. Isso abre a possibilidade de compreender formas de comunicação que nunca estudamos antes”, afirmou.
Parte da apresentação de Raskin foi dedicada a mostrar como a ciência já começa a revelar a complexidade da comunicação animal, muitas vezes subestimada. Golfinhos, por exemplo, utilizam o que os pesquisadores chamam de “signature whistles”, sons únicos que funcionam como nomes próprios.
Elefantes também parecem empregar chamadas individuais para se identificar. Em algumas espécies de pinguins, pais sussurram sinais sonoros específicos para os filhotes, que passam a reconhecê-los por toda a vida. “Quando começamos a observar com mais cuidado, percebemos que muitos animais possuem algo muito próximo de linguagem”, afirmou.
Estudos recentes também indicam que plantas podem reagir a estímulos sonoros. Experimentos realizados na Universidade de Tel Aviv mostraram que flores produzem mais néctar quando expostas ao som de abelhas, enquanto plantas sob estresse emitem vibrações ultrassônicas.
Para Raskin, esses exemplos reforçam a ideia de que a Terra pode estar “repleta de comunicação e significado”, mas que os humanos captam apenas uma pequena fração desses sinais. “O mundo é muito mais vasto e mais vivo do que conseguimos perceber com nossos sentidos”, assinalou.
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Contribuição da IA
O salto tecnológico que viabiliza essa nova área de pesquisa está ligado ao avanço dos modelos de deep learning, segundo ele. Esses sistemas conseguem representar palavras, imagens, sons e outros dados em espaços matemáticos multidimensionais, estruturas que permitem mapear relações de significado entre diferentes elementos. Foi esse princípio que possibilitou, por exemplo, o surgimento de tradutores automáticos capazes de converter idiomas sem depender de dicionários previamente estruturados.
Segundo Raskin, a mesma lógica pode ser aplicada a sistemas de comunicação animal. “Se conseguirmos construir a representação matemática da linguagem de uma espécie, podemos compará-la com outras linguagens e encontrar correspondências”, explicou.
O Earth Species Project conduz experimentos com diversas espécies, incluindo baleias, pássaros e corvos. Em um dos projetos citados, pesquisadores usaram inteligência artificial para manter interações prolongadas com aves da espécie zebra finch, analisando como elas adaptam seus sons ao longo de uma conversa.
Em outro estudo, a equipe tenta correlacionar gravações de sons de orcas com padrões de comportamento observados em décadas de pesquisa de campo.
A expectativa é de que, ao cruzar grandes volumes de dados acústicos e comportamentais, seja possível identificar estruturas de significado nessas vocalizações.
Para o pesquisador, compreender a comunicação de outras espécies não seria apenas um avanço tecnológico, mas uma transformação cultural. Ao longo da história, afirmou, a ciência frequentemente revelou que aquilo que parecia vazio ou silencioso era, na verdade, extremamente rico. Raskin comparou esse momento ao início da astronomia moderna, quando telescópios permitiram descobrir que o universo era muito mais vasto do que se imaginava.
“Estamos construindo ferramentas que apontam para lugares onde antes pensávamos que não havia nada. E estamos descobrindo que há tudo”, disse.
Essa descoberta pode alterar a forma como a sociedade se relaciona com o mundo natural. Se outras espécies demonstram possuir cultura, memória ou formas complexas de comunicação, argumentou, conceitos jurídicos e éticos podem precisar ser revisitados.
Questões como direitos da natureza, proteção de ecossistemas e até o reconhecimento legal de espécies poderiam ganhar nova dimensão.
Os riscos da tradução
Apesar do entusiasmo com o potencial da tecnologia, Raskin ressaltou que o avanço exige cautela. Um dos riscos é tentar interagir diretamente com outras espécies antes de compreender plenamente o significado de suas comunicações. Ele citou experimentos realizados no passado com elefantes, em que gravações de chamadas foram reproduzidas para grupos selvagens, provocando reações inesperadas.
“Imagine ouvir a voz da sua mãe chamando por você e descobrir que é apenas uma gravação. Podemos causar sofrimento sem perceber”, alertou. Outro risco seria interferir em culturas animais complexas, como as das baleias, que parecem transmitir padrões de canto entre populações ao longo de gerações.
Por isso, Raskin defende que o desenvolvimento dessa tecnologia seja acompanhado por princípios éticos, normas internacionais e até tratados que regulem o uso dessas ferramentas. “Antes que exista um incentivo econômico para explorar essa capacidade, precisamos construir as proteções necessárias”, contou.
Aprender com a natureza
Até agora, disse ele, grande parte dos sistemas de IA foi treinada para reproduzir padrões de comportamento humano. No entanto, a humanidade ainda enfrenta dificuldades para resolver alguns dos problemas mais fundamentais de sua própria sobrevivência, como preservar um planeta finito diante de tecnologias exponenciais.
Ecossistemas naturais, por outro lado, conseguiram manter equilíbrio e diversidade por bilhões de anos. “Talvez a verdadeira oportunidade da IA não seja apenas ampliar a inteligência humana, mas nos ajudar a aprender com as formas de inteligência que já existem na natureza”, disse. “Da última vez que apontamos um telescópio para o céu, descobrimos o universo. Agora estamos apontando um novo telescópio para a Terra. E talvez descubramos algo igualmente transformador.”
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