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Imagem ilustra o conceito de gestão de riscos, com profissional utilizando tablet diante de uma interface digital com alertas, gráficos e ícones relacionados a inteligência artificial, dados, finanças e tecnologia

Nunca foi tão fácil criar um painel. E nunca houve tantos painéis que ninguém abre. Mais da metade das empresas brasileiras colocou para rodar, no máximo, um em cada cinco projetos envolvendo inteligência artificial. Quem mostra isso é a Deloitte, no State of AI in the Enterprise 2026. A PwC complementa trazendo um dado aque aponta que 56% dos CEOs do país dizem que não viram um centavo de benefício financeiro com a tecnologia no último ano.

Incentivar o uso da IA é importante, mas é o direcionamento que faz esse uso valer a pena. Existe até um nome para isso: workslop. Pesquisadores do BetterUp Labs e do Stanford Social Media Lab criaram o termo para falar daquele conteúdo feito com IA que tem cara de trabalho, mas não serve para nada. Quase sempre se fala disso como um deslize individual, o relatório que ninguém revisou, a apresentação bonita e oca. Acredito que o tema seja mais sensível e mereça mais atenção.

Somos incentivados o tempo todo a usar IA, e isso é ótimo, de verdade. O problema é o que vem junto: uma enxurrada de coisas criadas que ninguém usa. Painel que mede tudo e não ajuda ninguém a decidir nada. Relatório cheio de informação que não interessa. Automação que ficou pronta e foi esquecida. Ferramenta de microgerenciamento que rouba mais tempo do que devolve.

Criar ficou barato. Fazer alguém usar continua caro.

Uma pesquisa da Zappts com 167 executivos de grandes empresas brasileiras, publicada em setembro, mostra que 55,1% delas não conseguem medir o retorno do que fazem com IA. No ano passado eram 30,6%. Só 19,8% medem isso direito, com regularidade. Todos sabem que a IA pode mudar o patamar das entregas, mas pouquíssimos direcionam o uso e menos ainda o mensuram. Traduzindo, estamos criando muito mais rápido do que conseguimos descobrir se aquilo serve para alguma coisa.

Leia mais: Código escrito por IA exige segurança feita por IA, defendem executivos de cibersegurança

Tem também o jeito como a IA entra na empresa. Segundo a PwC, só 9% das companhias brasileiras param para redesenhar o trabalho em torno dela, enquanto entre as líderes globais esse número chega a 56%. O resto faz o mais fácil, que é pendurar a IA em cima do processo que já existia. Aí não tem mágica. Você ganha mais uma camada de informação, não um jeito melhor de trabalhar.

Some a isso a velocidade. O Brasil está adotando IA mais rápido que a média do mundo, com 19,1% da população em idade ativa já usando, contra 17,8% no planeta, segundo a Microsoft. Muita adoção sem rumo dá nisso: volume sem uso.

Ao longo de quase uma década, tenho aprendido que quantidade nem sempre é sinal de avanço. E falo isso como alguém que também já se empolgou e criou coisa que ninguém usou. Hoje, antes de começar algo novo, tento parar e fazer algumas perguntas simples. Quem vai usar isso, e com que frequência? Vai ajudar a decidir o quê? Que dados entram aqui, e eles estão protegidos? Isso substitui alguma coisa ou só vai se somar ao que já existe? Quando a gente não consegue responder, costuma ser um bom sinal de que vale repensar antes de seguir.

Não se trata de frear a IA. Talvez o caminho seja olhar menos para quantas coisas foram criadas e mais para quantas estão de fato sendo usadas. Soluções mais úteis, mais seguras e, muitas vezes, menores. Às vezes o que resolve é um único número que alguém confere toda manhã, e não um painel com quarenta gráficos. Marco Castro, CEO da PwC no Brasil, disse que o diferencial está na capacidade de direcionar a IA para objetivos estratégicos claros. Eu não diria melhor.

Não precisamos de menos IA. Precisamos de IA com direção. Incentivar é o começo, e é o direcionamento

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