
A Índia anunciou um plano ambicioso para se posicionar como protagonista no setor de semicondutores, com investimentos de 1,6 trilhão de rúpias (cerca de US$ 18,2 bilhões) em dez projetos distribuídos por seis estados. A estratégia, parte da chamada “Missão Semicondutor”, busca reduzir a dependência de importações, garantir fornecimento para setores estratégicos e conquistar espaço no mercado global de eletrônicos, que aos poucos se afasta da China. A reportagem é da CNBC.
Apesar de ser um dos maiores consumidores mundiais de eletrônicos, a Índia não tem indústria local de chips e ocupa papel mínimo na cadeia global. O governo pretende mudar esse cenário com uma cadeia completa, do design à fabricação, testes e empacotamento, instalada no país. Até agora, os projetos aprovados incluem duas fábricas de semicondutores e diversas plantas de testes e embalagem.
Especialistas alertam, no entanto, que os esforços ainda são insuficientes. Stephen Ezell, vice-presidente da Information Technology and Innovation Foundation, lembrou que grandes fabricantes analisam centenas de fatores antes de decidir por um investimento de bilhões de dólares, como políticas fiscais, infraestrutura, leis trabalhistas e segurança jurídica.
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Incentivos e novas políticas
O governo indiano tem oferecido incentivos generosos, cobrindo 50% dos custos de projetos de fabricação e empacotamento, independentemente do tamanho do chip. A mudança ocorreu após a percepção de que focar apenas em chips menores que 28 nanômetros, mais avançados e eficientes, não ajudava a criar uma base inicial de produção.
Outro movimento recente foi o lançamento de um programa para estimular a fabricação de componentes eletrônicos, como câmeras para celulares. Até então, a ausência de fornecedores locais limitava a demanda interna por chips produzidos no país.
Empresas de Taiwan, Reino Unido, EUA e Coreia do Sul já demonstraram interesse em participar da empreitada indiana. Ainda assim, analistas destacam que esses investimentos não podem depender apenas de subsídios governamentais no longo prazo.
Projetos emblemáticos
O maior projeto em andamento é a fábrica de US$ 11 bilhões da Tata Electronics, em Gujarat, desenvolvida em parceria com a taiwanesa Powerchip Semiconductor Manufacturing. A planta deve produzir chips usados em inteligência artificial, automotivo, computação e armazenamento de dados.
Outro destaque é a parceria entre a britânica Clas-SiC Wafer Fab e a indiana SiCSem, que instalará a primeira fábrica de semicondutores compostos do país, no estado de Odisha. Esses chips têm aplicações em veículos elétricos, eletrodomésticos, defesa e energia solar.
Desafios logísticos e de ecossistema
Para viabilizar a produção, os locais escolhidos precisam atender a exigências rigorosas, como ausência de vibrações e enchentes, além de acesso a estradas e fornecimento confiável de energia e água. Também será necessário desenvolver fornecedores de produtos químicos de altíssima pureza, fundamentais na fabricação avançada de semicondutores.
Por conta do alto custo e complexidade das fábricas, muitas companhias locais têm preferido investir em unidades de testes e embalagem, que demandam menos capital e oferecem margens mais atraentes. Esse segmento, conhecido como OSAT (Outsourced Semiconductor Assembly and Testing), é visto como porta de entrada para a Índia na cadeia global de chips.
Papel do design e da propriedade intelectual
Na área de design, a Índia já tem tradição desde os anos 1990, com milhares de engenheiros atuando em centros globais de empresas como ARM. No entanto, a maioria dos trabalhos envolve apenas validação de blocos de design, enquanto a propriedade intelectual central segue em países como EUA e Cingapura.
Especialistas apontam que o país precisa modernizar suas leis de propriedade intelectual para proteger criações digitais e de software, além de reforçar os mecanismos de aplicação das regras. Essa será uma condição essencial para competir com mercados mais maduros como EUA, Europa e Taiwan.
Segundo Sujay Shetty, diretor de semicondutores da PwC Índia, os próximos três a quatro anos serão decisivos para que o país consiga colocar suas primeiras fábricas em operação e superar entraves técnicos e de infraestrutura.
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