Skip to main content
Cobrança por resultados nas áreas de tecnologia e produto nunca foi tão alta | Foto: Canva
Tecnologia | Foto: Canva

*Por Pedro Elkind e Henrique Borges, fundadores do Projeto Social Ponte para os Números

A inflação costuma ser tratada como um índice agregado, mas não afeta todos os grupos sociais igualmente. O impacto da inflação em uma família depende fortemente da composição da sua cesta de consumo. Recentemente, o IPEA divulgou dados mostrando que a inflação, em diversos casos nos últimos anos, vem tendo um maior impacto sobre famílias de renda superior em relação a famílias de renda mais baixa. Esse fato desafia a percepção tradicional de que o cidadão de baixa renda é mais impactado pelo aumento nos preços de produtos e serviços. No plano institucional, vale lembrar que o Brasil opera sob o regime de metas para inflação desde 1999, o que torna a trajetória do IPCA e seus componentes um objeto central de monitoramento e política econômica.

O objetivo desse relatório é identificar as características dessa mudança estrutural e reconhecer a conexão entre os avanços tecnológicos e de inteligência artificial e a inflação em diferentes faixas de renda.

Estudos recentes do IPEA mostram que a inflação acumulada em 12 meses (2024) sofre um aumento conforme há um avanço na faixa de renda, refletindo as diferenças estruturais nos padrões de consumo que estão ocorrendo em anos recentes e redistribuindo a inflação. Famílias de renda elevada concentram maior parte de sua renda em serviços, especialmente aqueles presenciais e pouco automatizáveis, enquanto famílias de renda inferior tendem a ter um maior gasto com bens básicos e itens mais sensíveis a choques de curto prazo. Famílias de até R$ 1.908 destinam 61,2% do orçamento a alimentação (22,0%) e habitação (39,2%), contra 30,2% entre as famílias acima de R$23.850; já transporte e educação tem maior participação relativa no estrato de renda mais alta.

Devido a isso, dados do IPEA mostram que a inflação vem afetando famílias de renda menor mais no curto prazo, enquanto no longo prazo a distribuição se redefine, atingindo majoritariamente os privilegiados financeiramente.

Tecnologia está mudando o consumo

Uma possível explicação estaria na mudança estrutural na economia brasileira, que vem configurando um rápido avanço tecnológico, englobando inteligência artificial (IA) cada vez mais sofisticada e digitalização de serviços. A adesão acelerada de IA e serviços digitais está mudando as tendências de mercados, produtividade e padrões de consumo. Serviços e produtos com alto conteúdo tecnológico tendem a apresentar altos ganhos em produtividade. Em segmentos mais expostos à concorrência e estabilidade, esses ganhos podem conter pressões de custos e preços, em contraste com serviços intensivos em mão de obra, cuja inflação tem sido mais resistente.

Em contrapartida do ganho em produtividade originado pelo avanço tecnológico, serviços menos automatizáveis e pesados em trabalho humano – como lazer, turismo, educação presencial e cuidados pessoais – permanecem em trajetória tradicional e rígida de inflação. Como famílias de classe alta possuem a maior parte de suas cestas de consumo destinadas a serviços presenciais, o impacto da inflação de serviços é distribuído de forma desigual para diferentes faixas de renda.

Papel da digitalização

Entre os anos de 2005 e 2025, houve um crescimento vasto na utilização de internet e tecnologia no país, assim como um crescimento de por volta de 10% em compradores de serviços e produtos digitais de 2021 até 2025. Esse crescimento indica uma mudança nos padrões de consumo de serviços e produtos, onde a maior parte das pessoas migra para os serviços digitais em oposição aos serviços presenciais com maior requisito de intervenção humana e pressão sobre os preços. Todas as classes se beneficiam com os ganhos de produtividade e menor inflação da digitalização. Porém, como a maior parte da cesta de consumo das classes mais altas ainda permanece em serviços físicos, os grupos sociais de menor porte financeiro obtêm um maior ganho com essa reformulação da estrutura econômica.

A expansão acelerada do consumo digital no Brasil sugere um canal estrutural relevante para a dinâmica de preços: quanto maior a penetração de internet e adoção de serviços online, maior tende a ser a capacidade de substituição de consumo para bens e serviços mais escaláveis, com ganhos rápidos de produtividade, maior concorrência e menor custo de busca. Em contraste, serviços intensivos em trabalho humano e pouco automatizáveis – como educação presencial e cuidados pessoais – carregam maior inércia e rigidez, tornando-se um vetor persistente de pressão inflacionária.

Esse padrão aparece com clareza na decomposição do IPCA, em especial entre os preços livres: em 2023, serviços subiram 6,22% enquanto bens industriais avançaram 1,10%; e em 2024, ainda que serviços tenham desacelerado para 4,77% seguiram acima dos bens industriais (2,89%), indicando que a inflação dos serviços permanece relativamente mais resistente do que a de bens, mesmo em um ambiente de difusão tecnológica. Como a composição da cesta de consumo varia por faixa de renda, essa diferença tende a produzir efeitos distributivos.

Conclusão

Os dados sugerem que a inflação no Brasil está se tornando cada vez mais dependente do consumo, e não apenas de choques agregados. A digitalização e avanço tecnológico no país mudam preços relativos, alterando a pressão sobre preços de diversos serviços, mas não alteram a inflação de serviços como um todo. Isso se deve ao fato de que, especialmente na classe alta, os serviços presenciais são mais dominantes na composição do consumo das famílias. O padrão observado sugere que a inflação em classes altas é estrutural, se originando em considerável parte devido às características dos serviços consumidos.

A tecnologia age como um fator moderador, mas não como força dominante da inflação sofrida por tais grupos sociais. Assim, é possível identificar como o índice agregado da inflação pode mascarar experiências inflacionárias diversas em diferentes faixas de renda. No médio prazo, é preciso entender padrões de consumo e tecnologia para decompor o índice agregado. No geral, o avanço da tecnologia tem sido positivo para as margens de inflação e age como um moderador, porém seu efeito não é homogêneo em todas classes sociais, o que reforça a necessidade de analisar além dos índices agregados.

O post Inflação na era digital – Tecnologia, serviços e renda no Brasil apareceu primeiro em Startups.