
A Integration, consultoria global de estratégia e gestão fundada em São Paulo em 1995, colocou em operação a Int.AI, plataforma de inteligência artificial que dá acesso a 4,5 petabytes de conhecimento acumulado pela empresa e aciona até 200 agentes simultaneamente. O acervo cobre cerca de 4 mil projetos executados em mais de 85 países. O desenvolvimento, em parceria com a Microsoft, durou cinco meses; em três, já havia uma versão funcional em uso por um grupo restrito de consultores.
O projeto nasceu de um problema de acesso. Ao longo de 30 anos, a consultoria reuniu estudos, pesquisas de mercado, metodologias e dados de projetos em formatos que iam de planilhas do Excel a vídeos, imagens e PDFs. Segundo a Integration, buscas que antes consumiam dias hoje terminam em até 30 segundos.
“Sempre fomos organizados no armazenamento, mas a dificuldade estava no acesso”, afirma a sócia da Integration, Carolina Flores. “Toda vez que alguém precisava de uma informação, uma pessoa tinha de ir até a base, entender onde o dado estava e traduzir a necessidade de quem pedia. Eram horas de trabalho para extrair um número, não uma análise.”
Trabalho de arqueologia
A primeira etapa consistiu em consolidar arquivos guardados em camadas distintas, do material consultado com frequência ao que a equipe quase nunca abria. Carolina Flores descreve a fase como “quase um trabalho de arqueologia” e reconhece que a qualidade dos registros oscilava conforme o ano de origem.
“Na época em que ainda não salvávamos os arquivos online, criávamos V1, V2, V3, V final, V final mesmo”, diz a sócia. A limpeza rendeu um efeito colateral útil: a consultoria revisou os próprios critérios de arquivamento e taxonomia para não precisar repetir a curadoria ao fim de cada entrega.
Antes de definir a tecnologia, a Integration fixou três exigências: escalabilidade, custo e governança de dados. A última funcionou como eliminatória.
“Parte da informação é da Integration, mas grande parte é do cliente que atendemos, e não podemos colocar isso em risco”, afirma Carolina Flores. “Governança é o fator número um de qualquer solução. Ela precisa nascer junto com a tecnologia.”
A empresa avaliou opções de mercado, mas considerou o investimento alto demais para um resultado incerto, já que tentativas anteriores de resolver o problema não tinham funcionado. A Microsoft já fornecia os aplicativos de produtividade usados no dia a dia, e a demanda foi levada ao parceiro. A escolha recaiu sobre o Foundry, plataforma de desenvolvimento de agentes lançada como Azure AI Foundry e hoje rebatizada de Microsoft Foundry.
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O orquestrador de agentes
Na prática, o consultor formula a pergunta em linguagem natural e um orquestrador distribui a tarefa entre agentes especializados em análise, validação e geração de entregas. “Há o agente que pesquisa, o que extrai a informação, o que responde ao usuário, o que compara e o que sumariza”, explica Carolina Flores. “É como falar com um grupo de analistas: encontre essa informação na pasta do projeto, me diga qual é o número e compare com o mercado.”
A diretora de Vendas da Microsoft Brasil, Andrea Cerqueira, afirma que a orquestração é invisível para o usuário. “São até 200 agentes operando nos bastidores, e tudo depende da pergunta do interlocutor”, diz.
A arquitetura é multimodelo. O catálogo do Foundry passa de 11 mil modelos, de fornecedores como OpenAI, Anthropic, Meta e Moonshot AI, e o roteamento define qual deles atende cada solicitação. “Dependendo da pergunta, a plataforma pode usar um modelo de fronteira ou um modelo muito mais barato, capaz de entregar a mesma qualidade de resposta sem um custo alto”, diz a diretora. Como exemplo da rapidez com que o catálogo incorpora lançamentos, ela cita o Kimi K2.7 Code, da chinesa Moonshot AI, disponível desde o início de julho.
Os consultores usam a Int.AI pelos canais em que já trabalham: Teams, WhatsApp e e-mail. O sistema aceita texto, imagem e áudio.
Permissões herdadas da estrutura interna
Todos os funcionários da Integration têm acesso à Int.AI, mas o conteúdo visível varia conforme o nível hierárquico: a ferramenta replica as políticas de confidencialidade que já valiam para os arquivos.
“Como sócia, se eu quiser acessar um projeto em que não estive envolvida, não consigo”, afirma Carolina Flores. “Preciso seguir a confidencialidade da Integration.”
Andrea Cerqueira atribui o ritmo da implantação a esse reconhecimento de contexto embutido na plataforma. “Da mesma maneira que eu não deixaria a Carol abrir um documento do Word sem permissão na companhia, não vou deixá-la acessar uma informação a que ela não tem direito”, compara. O mecanismo também reduz o consumo de *tokens*, acrescenta a executiva, porque o sistema não precisa receber as regras de permissão a cada consulta.
A Microsoft classifica como frontier firms as empresas que adotam IA em escala, conceito que apresentou no Work Trend Index de 2025. “Por adotarem com governança, elas conseguem um retorno pelo menos três vezes maior sobre o investimento”, afirma Andrea Cerqueira.
Rotina e planos
Carolina Flores recorre à Int.AI para preparar propostas, revisar aprendizados de trabalhos anteriores e montar equipes, quando precisa verificar o histórico de entregas de cada consultor.
“Estou dirigindo para o cliente e preciso saber que projetos já fizemos ali e com quem já falei. Resolvo isso com um áudio no WhatsApp e chego com a informação na mão”, relata. “Antes, eu teria de me preparar com semanas de antecedência.” Ela resume o resultado como “mais um colaborador, e muito eficiente”.
O passo seguinte da parceria é pôr múltiplos agentes em paralelo, com autonomia para executar atividades que hoje ainda dependem de uma pessoa. A consultoria já faz testes nessa direção.
“Não acreditamos em IA substituindo o humano por completo”, afirma a sócia. “Queremos que os dois trabalhem em conjunto, unindo supervisão humana a ganhos de produtividade e escala.”
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