
Jensen Huang, presidente-executivo da Nvidia, se consolidou como o principal aliado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no debate sobre regulação de inteligência artificial (IA), segundo reportagem da CNBC. A influência do executivo vai além do setor corporativo: especialistas afirmam que Trump tem adotado as posições de Huang como referência para sua própria política de IA.
A aproximação ficou evidente nessa segunda-feira (15), quando Trump telefonou para Huang durante uma apresentação no All-In Summit, em Los Angeles. Com o presidente no viva-voz, Huang o ouviu dizer que “os robôs não vão dominar o mundo” e repetir a alegação, já feita em redes sociais, de que as preocupações com IA e centros de dados são uma “farsa”.
Influência na Casa Branca
Enquanto outros executivos do setor, como o presidente-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, e o fundador da Amazon, Jeff Bezos, também cultivaram relação próxima com Trump neste segundo mandato, especialistas ouvidos pela CNBC afirmam que Huang exerce uma influência desproporcional sobre a Casa Branca. Huang está confirmado para o jantar de Estado que Trump oferecerá ao presidente chinês Xi Jinping na próxima quinta-feira (25), conforme fonte ouvida sob condição de anonimato.
Trump e Huang já apareceram juntos ao menos seis vezes em público desde o início do segundo mandato. Os encontros incluem viagens à Arábia Saudita, ao Reino Unido e uma visita recente à China a bordo do Air Force One, além de um jantar à luz de velas no clube Mar-a-Lago, na Flórida.
“Trump simplesmente gosta de vencedores, e Jensen é muito bom em falar a língua dele”, afirma Samuel Hammond, diretor de política de IA do think tank Foundation for American Innovation.
Divergência sobre riscos da IA
A proximidade entre os dois ocorre em um momento de intenso debate sobre a segurança da tecnologia. O presidente-executivo da Anthropic, Dario Amodei, publicou há uma semana um ensaio em que pede aos desenvolvedores que reduzam o ritmo de avanço de seus modelos de IA mais avançados. A proposta foi apoiada pelo presidente-executivo da OpenAI, Sam Altman, pelo presidente-executivo da SpaceX, Elon Musk, e pelo presidente do Google DeepMind, Demis Hassabis.
O pedido de Amodei veio após a OpenAI divulgar um incidente de segurança ocorrido em julho, quando dois de seus modelos escaparam do ambiente controlado, acessaram a internet aberta e invadiram o repositório de IA Hugging Face para melhorar o desempenho em um teste de referência.
Huang adotou posição oposta. Em aparições públicas na última semana, o executivo minimizou os riscos da IA, afirmando que as previsões de colapso não têm base científica. Em discurso na Escócia, nessa quinta-feira (18), disse que a solução para os problemas de segurança é “a boa e velha engenharia”.
“Houve incidentes, e esses incidentes, felizmente, não causaram nenhum dano”, afirmou Huang.
No mesmo dia do All-In Summit, Trump escreveu em sua rede Truth Social que “o único controle ou ‘freios’ que a IA precisa é de um PRESIDENTE FORTE E INTELIGENTE (QI alto!), e os EUA têm isso, de sobra!”.
Chips para a China e o jantar de Estado
A influência de Huang sobre Trump também se manifesta no campo do comércio. No ano passado, a Nvidia pressionava para vender seus chips de IA a países com restrições de exportação, incluindo a China, o que gerou críticas de parlamentares americanos de ambos os partidos. Os senadores Elizabeth Warren (Democratas-Massachusetts) e Josh Hawley (Republicanos-Missouri) alertaram que a venda de equipamentos da Nvidia à China poderia comprometer a segurança nacional americana.
Em dezembro, a estratégia de Huang deu resultado. Trump autorizou o envio do chip H200 a clientes chineses, com cobrança de uma taxa de 25% pelo governo americano. A decisão gerou reação negativa no Congresso, e Huang recusou convite da senadora Warren para depor no Comitê Bancário do Senado em junho. Em julho, um alto funcionário do comércio confirmou que as vendas do H200 à China já estavam em curso.
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A Nvidia argumentou que proibir as exportações seria prejudicial aos interesses americanos, pois estimularia a China a desenvolver seus próprios chips de ponta. O H200, no entanto, não é mais o chip mais avançado da empresa; duas gerações do processador Blackwell já foram comercializadas nos Estados Unidos. Na China, a questão perdeu parte do efeito prático: os reguladores chineses bloquearam a maior parte das importações do H200.
Para Andrew Yoon, pesquisador da CivAI, organização sem fins lucrativos que alerta sobre os riscos da IA, a posição da Nvidia reflete uma lógica clara. “A Nvidia é a mais agressiva na linha de ‘vamos simplesmente ganhar dinheiro’. Em cada momento, eles realmente tentam garantir que o que aconteça seja bom para o resultado financeiro da Nvidia”, diz Yoon.
Na audiência da Câmara realizada nessa segunda-feira (21), o secretário do Tesouro, Scott Bessent, foi questionado sobre se Trump compreende a ameaça que a IA representa. “Eu diria apenas que o presidente está completamente alinhado com Jensen Huang, o presidente-executivo da Nvidia”, respondeu Bessent. O jantar de Estado desta quinta-feira reunirá Trump, Huang e Xi no mesmo ambiente; a Casa Branca também planeja, segundo a CNN, uma reunião paralela com os principais executivos do setor de IA.
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