
No início dos 2010s, o mercado de streaming ainda era incipiente. O YouTube era jovem, o Spotify ainda levaria anos para dominar o mercado. Nesse cenário, a gaúcha Superplayer tentou conquistar o seu espaço, e chegou inclusive a ser investida pela Movile. Contudo, as coisas mudam, e Gustavo Goldschmidt, um dos fundadores da Superplayer, mira um novo desafio: disruptar o mercado de softwares de departamento pessoal, com a HRTech Kiip.
Criada dentro da própria Superplayer a partir de R$ 3,5 milhões de investimento da empresa-mãe, a Kiip já opera de forma completamente independente, com time próprio, base de clientes crescendo em ritmo acelerado e uma tese bem definida: fazer o departamento pessoal de pequenas e médias empresas parar de depender de planilha.
Pular de um ramo de mídia e vídeo para o setor de recursos humanos das empresas pode parecer uma virada brusca, mas segundo o empreendedor, se trata de um movimento muito bem pensado, mesmo dentro da sua empresa anterior.
“Tinha esse gostinho de querer mais. A gente foi B2C, foi B2B corporate, foi B2B small business. Foi tanto aprendizado que eu falei: isso tem que virar mais do que a gente atingiu até hoje”, disparou Gustavo, em conversa com o Startups. Segundo ele, a Superplayer tinha time de produto e tecnologia rodando, conhecimento de usabilidade forjado na competição com big techs, e estava, nas palavras dele, “subutilizado”.
A escolha da Kiip foi mirar em uma parte do RH em que muitas startups do setor não entram “a fundo”: o departamento pessoal. “Várias HRTechs focam muito no lado de gestão de performance, ou de recrutamento. Nós focamos na parte menos ‘glamourosa’, em que muitas empresas ainda recorrem às planilhas para fazer isso”, explica.
Em 2023, o projeto começou a tomar forma dentro da própria Superplayer, em modo beta fechado com oito empresas — chamadas internamente de design partners, clientes pagantes para garantir exigência real, sem ainda ir ao mercado aberto. Ano passado, o CEO alocou parte do time de marketing e comercial da Superplayer para acelerar a Kiip.
Atalmente a Kiip tem seus próprios 12 profissionais, todos sênior, distribuídos em mais de 15 estados, num modelo 100% remoto herdado da pandemia. No total, entre as duas empresas, são cerca de 30 pessoas.
Clientes e crescimento
No meu modelo de negócio, a Kiip mira empresas entre 50 e 350 colaboradores que ainda terceirizam o processamento da folha para contabilidades externas, e que têm dificuldade justamente em conciliar as variáveis do dia a dia (férias, ponto, descontos de benefícios, múltiplos vínculos empregatícios). De acordo com o fundador, a ferramenta faz essa ponte, automatizando cada módulo e integrando com sistemas contábeis, por API ou planilha.
A Kiip fechou 2025 com mais de 100 clientes e cerca de 8 mil colaboradores geridos na sua plataforma, com um ticket médio mensal de R$ 800 por empresa. A meta para este ano é chegar a 300 clientes – o que levaria o MRR para perto de R$ 300 mil e, segundo o CEO, já permitiria atingir o breakeven. Para o longo prazo, a visão é uma ARR acima de R$ 20 milhões com margem líquida entre 30% e 40%.
De acordo com Gustavo, a meta é conservadora, mas o pitch de vendas está afiado, fugindo do discurso tradicional dos SaaS, especialmente em um setor ainda “quadrado” como o departamento pessoal.
“A gente quis trazer a pegada B2C do streaming para nossa aplicação, de um SaaS moderno, SaaS que dá prazer de usar”, explica. Segundo o CEO, a abordagem tem surtido efeito: taxa de conversão de 50% nas reuniões de venda, e um churn que o fundador define como “baixíssimo”.
O paralelo que o próprio Gustavo usa é o da Bling, ERP focado em PMEs que democratizou o acesso a sistemas de gestão e foi vendido para a Locaweb em 2021. A comparação não é coincidental: o executivo foi conselheiro da Bling enquanto ainda estava na Superplayer.
“A Kiip quer fazer com departamento pessoal o que a Bling fez com o ERP, com a diferença de que o ticket já é maior e atuamos de forma mais consultiva com os clientes”, afirma.
Horizontes
A Kiip nasceu no bootstrapping, e deve manter esse direcionamento por enquanto. Segundo Gustavo, os R$ 3,5 milhões investidos pela Superplayer financiaram o desenvolvimento do produto e os primeiros passos comerciais, sem a pressão de crescer ou embarcar em hypes como o da IA.
“O meu roadmap é guiado pelo cliente. Não tenho conflito de interesse. Não preciso botar IA em algum lugar só para dizer que tenho IA e recaptar”, dispara.
Para o CEO, a estratégia é crescer na “zona de máxima eficiência”, mantendo o CAC controlável e ROI saudável, sem precisar queimar capital para acelerar. Uma captação futura não está descartada, mas seria para antecipar roadmap, não para cobrir prejuízo.
“Eu já errei de todas as formas de acelerar demais. Agora a gente está fazendo produto bom que gera valor. Crescendo de uma forma super eficiente e sendo uma empresa rentável”, conclui o fundador.
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