
Em um momento em que a tecnologia assume protagonismo na discussão política internacional, o mundo comemorou, na última sexta-feira, dia 15 de agosto, mais um Dia da Informática. A data faz referência à construção do primeiro computador eletrônico em larga escala, o ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Computer), desenvolvido em 1946 por John Presper Eckert e John Mauchly, na Universidade da Pensilvânia. O modelo foi utilizado de forma estratégica na Segunda Guerra Mundial para auxiliar em cálculos balísticos.
Anos depois, Estados Unidos e a antiga URSS colocaram os computadores no centro da corrida tecnológica da Guerra Fria, desenvolvendo dispositivos capazes tanto de levar o homem à Lua quanto de destruir o planeta.
O Brasil, embora não estivesse diretamente envolvido na disputa, também colocou o desenvolvimento de tecnologias nacionais em pauta. Em outubro de 1984, ainda no período da ditadura militar, foi instituída a Lei Federal nº 7.232, que estabeleceu a Reserva de Mercado de Informática, via Política Nacional de Informática (PNI), destinando o mercado interno às empresas de capital nacional em diversos segmentos, inclusive o de softwares.
A ideia dos militares era fortalecer a indústria nacional de microcomputadores, tornando o Brasil autossuficiente e, quem sabe, líder no setor. Se bem-sucedido, o plano traria maior soberania digital e governança da informação ao país. A lei permaneceu em vigor até outubro de 1991, quando foi revogada pelo então presidente Fernando Collor.
Décadas depois, não apenas o Brasil, mas o mundo todo volta a debate o tema da soberania digital. Sem alcançar os resultados esperados com a Reserva de Mercado, o País busca hoje mais autonomia no cenário digital global, incluindo a regulamentação da atuação das big techs.
Recentemente, por exemplo, a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) informou ao Congresso Nacional que está desenvolvendo, em parceria com a Universidade Federal do Ceará e o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados), um aplicativo de mensagens instantâneas para uso do governo federal, com o objetivo de proteger informações confidenciais que atualmente são compartilhadas via WhatsApp. O desafio, além de estatal, também atinge empresas privadas, que voltam a se preocupar com a questão diante dos atuais atritos entre Brasil e Estados Unidos.
Para o chairman da Positivo Tecnologia, Raymundo Peixoto, a proteção de dados hoje é ainda mais complexa do que na época do regime militar. O executivo, que iniciou sua carreira em 1988, na IBM, viu essa complexidade se intensificar ao longo dos anos. “Naquele tempo, as empresas mantinham os sistemas dentro de casa. Era muito mais simples pensar em soberania, pois bastava proteger para que não houvesse invasões ao seu data center”, conta.
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Em conversa com o IT Forum, Peixoto recordou os chamados “terminais burros”, usados apenas para armazenar dados, sem capacidade de processamento ou acesso remoto. Esse cenário começou a se transformar com o advento da internet e se intensificou ainda mais com a chegada da nuvem, embora, na época, não houvesse essa expectativa.
“Pensávamos que, com a nuvem, seria a mesma coisa: tudo estaria no mesmo lugar. Em teoria, os dados ficariam com o mesmo provedor ou em uma única nuvem. Só que o mundo não seguiu por esse caminho, ele se voltou para o modelo distribuído.”
Se antes era mais simples proteger informações, hoje a descentralização em nuvens privadas, públicas e híbridas traz novos desafios. E o tempo mostra o tamanho dessa mudança: apenas 37 anos separam uma realidade da outra. Agora, um novo elemento também entra na pauta – a inteligência artificial (IA).
“Precisamos pensar em como vamos tratar e usar a inteligência artificial, tanto nas empresas quanto em nível federal”, afirma Raymundo. Para ele, independentemente do cenário global, o ideal é que as companhias mantenham ao menos uma cópia de suas informações dentro do país, em local seguro e isolado. Nesse sentido, a crise política atual pode ser vista como uma oportunidade para o fortalecimento da indústria brasileira.
“Esses espaços e a própria IA vão demandar maior capacidade de processamento, e acredito que veremos muitos data centers no Brasil. É um momento favorável não só para o desenvolvimento de equipamentos e infraestrutura, mas também de software, que será essencial para gerenciar tudo isso”, completa.
Diferente do que ocorreu nos anos 1980, o executivo acredita que agora o país esteja mais preparado e maduro para criar novas regulamentações e absorver tecnologias produzidas localmente. Além disso, destaca a influência do Brasil sobre outros países da América Latina e a capacidade de resiliência e adaptação como diferenciais no mercado. “As empresas brasileiras que lideram a área de tecnologia estão no mercado há muito tempo. Já se provaram como organizações sólidas, bem geridas e competentes”, diz.
Quanto ao apoio político para esse crescimento, Peixoto reconhece um movimento governamental em favor da inovação, mas avalia que ainda há espaço para avançar. “É como na cibersegurança: só percebemos a real necessidade depois de um ataque. Existe, sim, colaboração acontecendo, mas eu sempre digo que é possível fazer mais. Quanto mais incentivo for destinado à indústria de tecnologia, mais rápido as coisas acontecem. A história mostra isso, não é?”, questiona.
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