
Todas as empresárias à frente de startups entrevistadas para esta reportagem relataram ter sua competência questionada em algum momento da trajetória. Os dados indicam que o depoimento delas não é um caso isolado. Um estudo realizado pela Boston Consulting Group, em parceria com o MassChallenge, revelou que a média de investimentos em startups fundadas ou cofundadas por mulheres é de US$ 935 mil, menos da metade da média de US$ 2,1 milhões destinada a empresas criadas por homens.
A disparidade evidenciada pela pesquisa torna-se ainda maior diante de outro dado apresentado: companhias fundadas por mulheres registram 10% a mais de receita acumulada. Para a mentora de startups e cofundadora da Start Growth, Marilucia Silva Pertile, esse resultado decorre do uso de habilidades que as mulheres já possuem há muito tempo, agora aplicadas aos negócios.
“Coisas como ser multitarefa, cuidadosa, ter uma visão mais ampla e holística do negócio são imprescindíveis no empreendedorismo, especialmente em startups, onde tudo acontece muito rápido”, explica. “Essas características proporcionam muito mais controle sobre a operação e, consequentemente, geram respostas mais eficazes.”
Diante do descompasso destes dados, a cofundadora das edtechs Quark e Happen, Ana Uriarte, afirma que é cada vez mais necessário trabalhar os vieses presentes no ecossistema de tecnologia. Formada em engenharia civil e com experiência em ambientes ainda mais hostis ao sexo feminino, a empresária ressalta que o machismo na inovação se manifesta de forma mais sutil.
“Se eu estiver em uma rodada de investimentos, os investidores provavelmente serão homens. E, se tiverem que escolher entre mim e outro homem, eu não serei a escolhida, porque é da natureza humana se identificar com o semelhante”, conta.
A análise revela um cenário ainda mais preocupante: quanto mais alto o nível de decisão, menor a presença feminina. Atuando com diversidade há 12 anos, Laura Salles, CEO da PlurieBR, afirma que, além de o acesso ao capital continuar majoritariamente concentrado em um perfil específico, as organizações enfrentam dificuldade para compreender os impactos positivos da diversidade.
“Todo mundo acha que falamos de inclusão apenas por justiça social, mas é mais do que isso. Há um aspecto da diversidade que impacta diretamente os negócios e os torna mais rentáveis”, destaca. Um estudo realizado pela McKinsey em 2020 apontou que empresas no quartil superior em diversidade em suas equipes executivas eram 36% mais propensas a apresentar retornos financeiros acima da média do setor. Esse lucro adicional ocorre porque a pluralidade permite que as organizações compreendam melhor seus mercados e respondam de forma mais eficaz às mudanças.
Foi justamente essa percepção que levou Laura a criar a PlurieBR, startup de diversidade que possibilita às companhias mensurar os ganhos obtidos com programas de inclusão. Tanto ela quanto Ana afirmam que a dificuldade das empresas em abraçar o diferente evidencia a importância de iniciativas criadas exclusivamente para mulheres, como o Mais One Code e o PrograMaria.
Diversificando a hora do pitch
Depois de estruturar e gerenciar dois negócios, Marilucia também percebeu que o ecossistema precisava estar mais aberto às mulheres. Além de fundar a Start Growth, a empresária integra o WIM Angels, grupo de investidoras-anjo focado no empreendedorismo feminino de alto impacto.
Atualmente, o projeto reúne cerca de 70 investidoras em Curitiba. “Nós entendemos que as mulheres que vêm fazer os pitches para nós já romperam a primeira barreira, que é a da coragem. Agora estão em uma fase em que precisam de orientação sobre os próximos passos.”
Assim como no Sul, o Nordeste também conta com diversas iniciativas de incentivo às mulheres. Ana Uriarte cita o Hub, em Salvador, o Ninna, em Fortaleza, e iniciativas do próprio Porto Digital, em Recife — local onde iniciou sua carreira no setor de tecnologia e prova do que investimentos bem direcionados podem gerar. “Em um mercado em que a economia atua de forma tão intensa como o de startups, descentralizar a origem desse capital é um passo fundamental.”
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Para ela, o investimento não deve apenas garantir a existência de startups fundadas por mulheres, mas possibilitar seu amadurecimento. Mesmo sendo fundadora de duas empresas e tendo liderado por oito anos a Manguezal — comunidade de startups recifense —, a empresária afirma ter dificuldade em lembrar de organizações maduras criadas por mulheres. “Queremos que essas empreendedoras furem a bolha de vendas e ultrapassem a própria rede de networking.”
Laura relata que também sentiu essa falta de referências no início. “A gente conhecia a Cris Junqueira, a Mariana, da Gupy, mas era raro encontrar fundadoras que já tivessem conseguido captar recursos.” No entanto, para a CEO da PlurieBR, o problema vai além do gênero. Embora o ecossistema tenha crescido em número de mulheres, não avançou em interseccionalidade.
Este ano, 31% das empresas cadastradas na base do Sebrae Startups são fundadas por mulheres. A organização reúne 18 mil startups em 1.413 cidades do país. Em 2023, quando o total de companhias era 11 mil, apenas 8% tinham fundadoras. O Sebrae, entretanto, não dispõe de recorte para identificar raça ou sexualidade dessas empreendedoras.
“Geralmente são mulheres brancas, jovens, que tiveram acesso a faculdades de renome. Mas onde estão as mulheres negras? As mulheres 50+ com toda a sua experiência? As mulheres PcDs?”, questiona Laura.
Antes mesmo do investimento
Segundo a head de startups do Sebrae, Cristina Mieko, a cada camada de opressão é necessário ainda mais incentivo para auxiliar na insegurança dessas empresárias. “Abrir uma startup já é difícil, independentemente do gênero. Mas, no caso da mulher, existe um componente de risco que ela precisa assumir, e pode surgir a síndrome da impostora.”
Para enfrentar essa questão comportamental, além dos grupos de trocas entre mulheres, o Sebrae também busca trazer exemplos de cases de sucesso para dentro de seus eventos, como o Startup Summit. A proposta é justamente suprir a falta de referências e mostrar que é possível alcançar novos patamares. “Temos esse cuidado na curadoria porque acredito que os eventos constroem essa rede. E é ela que encoraja essas empresárias.”
Para Marilucia, esse tipo de iniciativa é um dos maiores fatores de sucesso entre empreendedoras, já que ativa outra forte característica feminina: a criação de comunidade. “Nós somos muito boas em nos unirmos e nos apoiarmos. Criamos relações que vão muito além de ‘só negócios’”, afirmou a investidora.
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