
O tamanho do mercado brasileiro ainda sustenta o ritmo de crescimento das startups e reduz a urgência da internacionalização. Segundo estudo da Endeavor Brasil, apenas 17% das scale-ups expandem por saturação do mercado doméstico, enquanto só 6% relatam pressão de concorrentes internacionais.
Com mais de 200 milhões de habitantes e uma das maiores economias do mundo, o Brasil oferece escala o suficiente para viabilizar estratégias robustas no mercado interno. A pesquisa “Do Brasil para o Mundo: Internacionalização de Scale-Ups Brasileiras”, realizada com apoio de Oracle e Nomad, mostra como esse contexto molda o comportamento dos fundadores.
Diferentemente de países com mercados menores, onde a expansão internacional tende a acontecer mais cedo, o empreendedor brasileiro pode escolher quando – e se – vai dar esse passo.
Essa “opcionalidade” aparece de forma clara. Além da baixa pressão competitiva externa, poucos founders apontam limitações no mercado local como gatilho para expandir. Na prática, isso permite trajetórias mais longas focadas no Brasil, com movimentos internacionais mais planejados.
O cenário ajuda a explicar a formação recente do ecossistema. Segundo o levantamento, 60% dos unicórnios brasileiros foram construídos a partir de uma tese predominantemente doméstica – um indicativo de que, historicamente, o mercado local foi suficiente para sustentar empresas até estágios avançados.
Ambição global cresce, mas com cautela
A menor urgência não significa falta de ambição. O estudo mostra que a expansão internacional está avançando, especialmente entre startups mais recentes.
Das empresas fundadas entre 2020 e 2024, 33% já iniciaram sua expansão internacional, enquanto 29% afirmam ter planos de entrar em novos mercados. O movimento sugere que a ambição global está surgindo mais cedo no ciclo de vida das empresas.
Ainda assim, o timing é cauteloso. Apenas 14% dos empreendedores pretendem expandir nos próximos seis meses. A maioria projeta esse movimento em até dois anos, refletindo uma abordagem mais estruturada.
Principais destinos
Quando decidem expandir, as startups brasileiras continuam olhando principalmente para o mercado norte-americano. Entre as empresas já internacionalizadas, 63% escolheram os Estados Unidos como destino inicial.
O principal atrativo é o tamanho da oportunidade: 81% dos respondentes citam o potencial de mercado como motivação, enquanto 44% mencionam a demanda de clientes.
A América Latina também aparece como rota relevante. Cerca de 60% dos empreendedores incluem a região em seus planos, impulsionados pela proximidade geográfica e cultural.
Diferentes caminhos de entrada
O levantamento mostra que não existe um modelo único de expansão. Entre os empreendedores ouvidos, 51% abriram escritórios locais como estratégia inicial, enquanto 43% começaram com vendas internacionais.
Na prática, muitas empresas testam o mercado com estruturas mais enxutas antes de investir em operações mais robustas. A lógica é reduzir riscos e evitar custos elevados antes da validação fora do país.
Esse modelo, no entanto, tem limites – especialmente em mercados mais complexos ou em operações B2B, onde presença local e relacionamento costumam ser decisivos.
Necessidade de reconstrução
Se o Brasil oferece escala inicial, o cenário muda fora dele. A expansão internacional raramente é uma simples extensão do que funciona no mercado doméstico.
Produto, go-to-market e estratégia de talentos frequentemente precisam ser adaptados. Em novos mercados, startups passam a competir com empresas já estabelecidas, que têm maior familiaridade regulatória e cultural.
Entre os principais desafios estão acesso a talentos, adaptação comercial e exigências regulatórias – obstáculos recorrentes em diferentes regiões.
A internacionalização também exige envolvimento direto da liderança. Segundo o levantamento, 44% dos fundadores se mudaram ou pretendem se mudar para o mercado-alvo, enquanto 47% optaram por contratar executivos locais.
Além disso, a expansão raramente acontece de forma isolada. Para 68% dos empreendedores, o processo contou com apoio externo, principalmente de investidores, citados por 42% dos respondentes, além de mentores e outros founders.
O estudo indica que a internacionalização das startups brasileiras está menos associada a uma necessidade imediata e mais a uma decisão estratégica. Com um mercado doméstico ainda relevante e uma ambição global crescente, o desafio passa a ser definir quando e como expandir, equilibrando oportunidades locais com a construção de presença internacional.
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