
Em um momento em que se discute se os ganhos de eficiência gerados com a IA compensam os investimentos, a Motorola está do lado dos que defendem a tecnologia. A fabricante de smartphones de Chicago tem concentrado esforços para tentar disputar o mercado premium com players como Apple e Samsung. E, para isso, tem apostado na inteligência artificial para refinar seu produto, monitorando a experiência do usuário em tempo real e antecipando falhas e pontos de insatisfação antes mesmo que os problemas se tornem generalizados.
Segundo Sergio Buniac, presidente mundial da Motorola, os investimentos tiveram impacto direto na qualidade dos produtos. “A nossa qualidade é a mais alta que a gente teve desde a fundação da Motorola. Há cerca de oito anos, reduzimos o tempo de desenvolvimento de produto e havia a preocupação de que a qualidade piorasse, mas aconteceu o oposto”, afirmou o executivo durante um painel no Qualcomm Innovation Summit 2026, realizado nesta terça-feira (05), em São Paulo.
A Motorola vem direcionando investimentos relevantes que sustentam o avanço de soluções com inteligência artificial, especialmente dentro de sua estratégia de software e serviços. Em 2025, a empresa destinou US$ 970 milhões para pesquisa e desenvolvimento, valor equivalente a cerca de 8,3% da receita anual, segundo o balanço último financeiro da companhia.
Além disso, a companhia investiu na aquisição estratética da Blue Eye por US$ 79 milhões. A empresa é especializada em monitoramento remoto com tecnologia de IA.
Briga pelo segmento premium
Fundada em 1928, a Motorola foi líder no segmento de celulares por décadas, especialmente com a popularização de aparelhos icônicos nos anos 1990 e 2000 — como o Razr V3, lançado em 2004, que vendeu cerca de 130 milhões de unidades. Após perder espaço com a ascensão dos smartphones dominados por empresas como Nokia, Apple e Samsung, a companhia passou por uma reestruturação global — que incluiu a aquisição pela Lenovo em 2014 — e, nos últimos anos, tem buscado reposicionar sua marca.
Essa transformação está diretamente ligada à disputa pelo mercado premium, onde a percepção de qualidade de câmera e desempenho é decisiva na hora de comprar um celular. Ao apostar em inteligência artificial para antecipar falhas e refinar continuamente seus produtos, a Motorola tenta reduzir a distância para concorrentes já consolidados nesse segmento, usando dados e agilidade como diferenciais para competir em um nível mais alto.
“A gente colocou uma pesquisa dentro do próprio aparelho, o que chamamos de NPS — o cliente avalia a experiência ao longo do uso — e isso começou a trazer sinais muito mais claros do que estava acontecendo. Antes, o problema chegava pelo varejo, dono da loja ou pela assistência, quando já era tarde. Agora, o engenheiro já está lendo esse feedback direto e consegue corrigir antes mesmo de o problema ganhar escala”, explicou o executivo.
Para Sergio, a adoção de inteligência artificial dentro da Motorola não começou exatamente agora, mas vem sendo incorporada gradualmente em diferentes frentes do negócio, como otimização de bateria, desempenho e processos de desenvolvimento. Segundo ele, a tecnologia já está “em todos os lugares” dentro do ecossistema e tende a se tornar cada vez mais invisível para o usuário.
Olhando para o futuro, o presidente da Motorola destacou a evolução para modelos baseados em agentes inteligentes — cenário que deve redefinir não apenas a experiência com dispositivos, mas também a forma como empresas operam. “A gente não sabe exatamente como vai ser o amanhã, mas com certeza não vai ser o que a gente planejou”, afirmou, ressaltando que a velocidade de avanço da tecnologia exige adaptação constante mesmo de companhias com grande legado.
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