
A startup de inteligência artificial (IA) xAI, fundada por Elon Musk em 2023, retirou discretamente seu status de public benefit corporation (PBC) no estado de Nevada, movimento que só veio à tona em registros oficiais. Criada inicialmente com o compromisso de gerar impacto positivo para a sociedade além do lucro, a empresa deixou de se enquadrar nessa categoria em maio de 2024, meses antes de se fundir à X (ex-Twitter). A informação foi revelada por documentos analisados pela CNBC.
Quando nasceu, a xAI se apresentava como uma companhia dedicada a explorar a “verdadeira natureza do universo” e registrada como PBC, estrutura legal que combina objetivos de lucro com compromissos sociais e ambientais. Nesse formato, empresas precisam relatar avanços em metas não financeiras e manter alguma transparência pública.
O desligamento desse enquadramento aconteceu ao mesmo tempo em que Musk levava à Justiça sua disputa com a OpenAI. O bilionário acusa a rival e seu CEO, Sam Altman, de desvirtuarem a missão original da organização, que ele ajudou a fundar em 2015 como uma entidade sem fins lucrativos. Apesar de atacar a OpenAI por migrar para um modelo comercial, Musk alterou silenciosamente a estrutura de sua própria companhia, sem comunicar a mudança.
Leia também: Musk processa Apple e OpenAI, ampliando disputa entre gigantes da tecnologia
Polêmicas ambientais em Memphis
Um mês após perder o selo de PBC, a xAI passou a operar dezenas de turbinas a gás natural para alimentar seu data center em Memphis, Tennessee. O espaço treina e processa dados do Grok, chatbot da companhia integrado à rede social X e a veículos da Tesla. Pesquisadores da Universidade do Tennessee apontam que a operação elevou os níveis de poluição do ar na região, sem que os controles de emissões prometidos fossem implementados.
A situação levou a NAACP a processar a empresa por violações à Lei do Ar Limpo. Entidades como a Legal Advocates for Safe Science and Technology (LASST) criticaram a mudança silenciosa de status jurídico, afirmando que a xAI utilizou a imagem de PBC apenas enquanto era conveniente para publicidade e reputação.
Grok e as críticas ao conteúdo de IA
Além de questionamentos ambientais, a companhia enfrenta pressão pelo conteúdo gerado pelo Grok. O chatbot já espalhou postagens falsas e de ódio em X, incluindo mensagens antissemitas, elogios a Hitler e alegações de “genocídio branco” na África do Sul. Também houve disseminação de narrativas negacionistas sobre mudanças climáticas.
Mesmo após lançar a versão Grok 4 em julho de 2025, a empresa não divulgou detalhes sobre testes de segurança ou mecanismos de contenção, prática adotada por rivais como OpenAI, Google DeepMind e Anthropic. Só em agosto, após insistência da imprensa, a xAI atualizou sua “model card” com algumas informações, quase dois meses depois do lançamento.
Por que Nevada?
Especialistas em governança corporativa, como Michal Barzuza, professora da Universidade da Virgínia, destacam que Nevada oferece um ambiente jurídico favorável às empresas por dificultar ações de acionistas contra executivos. Isso reduz riscos de litígio, mas também limita a responsabilização das companhias.
Ao abandonar o status de PBC, a xAI deixou de apresentar relatórios anuais de impacto social e ambiental, exigidos pela legislação do estado. A mudança foi tão reservada que até mesmo o advogado de Musk, Marc Toberoff, mencionou a empresa como PBC em documentos judiciais de maio de 2025, meses depois da alteração.
Enquanto a OpenAI, pressionada por ex-funcionários e líderes cívicos, anunciou que manterá seu controle sob um modelo PBC, a xAI optou por caminhar em sentido oposto, ampliando o debate sobre transparência, governança e responsabilidade das empresas que lideram a corrida global da IA.
Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!


