
*Por Kassio Seefeld, CEO da TruckPag
Quando se fala em empreendedorismo, a narrativa costuma seguir um roteiro conhecido: o investidor que acreditou, o mentor que abriu portas, o sócio que dividiu o risco. Esses elementos são, sem dúvida, fundamentais para o crescimento de qualquer empresa. Mas existe um tipo de apoio que raramente entra nessa equação e que, na prática, sustenta muitas das decisões mais críticas de quem empreende: a família.
Antes de existir produto, cliente ou faturamento, existe risco. E, muitas vezes, esse risco não é assumido sozinho. Os dados mais recentes sobre o assunto ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo o relatório Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2024, mais de 50 milhões de brasileiros estão envolvidos em alguma atividade empreendedora. Ao mesmo tempo, o país segue com altas taxas de mortalidade de empresas nos primeiros anos, o que reforça o nível de incerteza envolvido em começar um negócio.
Por trás desses números, há histórias que não entram nos relatórios. Em 2018, enquanto atuava no setor de meios de pagamento e atendia clientes do segmento de transporte rodoviário, surgiu a oportunidade de criar uma solução voltada para um mercado ainda pouco explorado sob a ótica de tecnologia e eficiência. Naquele momento, porém, a empresa era apenas um CNPJ. Não havia produto estruturado, base de clientes ou qualquer previsibilidade de receita. Havia apenas uma hipótese de mercado e a decisão de apostar nela.
Como acontece com boa parte dos empreendedores brasileiros, a escolha não envolvia apenas uma mudança profissional, mas também pessoal. Isso incluía sair do Rio Grande do Sul e recomeçar em outra cidade, longe da rede de apoio familiar, com filhos pequenos e sem garantias. É nesse ponto que o empreendedorismo deixa de ser apenas uma decisão individual e passa a ser, inevitavelmente, uma construção coletiva.
Segundo uma pesquisa do Sebrae de 2023, mais de 60% dos empreendedores brasileiros contam com apoio direto da família no início da jornada, seja financeiro, emocional ou na divisão de responsabilidades do dia a dia. Ainda assim, esse fator raramente é tratado como parte estratégica da construção de um negócio, mesmo sendo, em muitos casos, o que viabiliza a continuidade nos momentos mais críticos.
Há decisões que não aparecem em relatórios, mas que definem trajetórias. Entre elas, o “sim” de quem está ao lado, muitas vezes abrindo mão de estabilidade, carreira e proximidade com familiares para sustentar um projeto que ainda não oferece garantias concretas de sucesso. Esse tipo de apoio tem um peso que não pode ser mensurado em indicadores tradicionais. Não entra em avaliação, não compõe apresentações para investidores e dificilmente é mencionado quando se fala em crescimento ou escala.
Ao longo do tempo, quando a empresa amadurece e os resultados começam a aparecer, a narrativa tende a destacar marcos mais tangíveis, como faturamento, expansão e inovação. Esses elementos são importantes e ajudam a contar parte da história, mas existe uma camada anterior, menos visível, que sustenta todas essas conquistas. Empreender no Brasil ainda é uma decisão de alto risco e, na prática, esse risco costuma ser compartilhado com quem está mais próximo, muitas vezes sem qualquer garantia de retorno.
Reconhecer esse fator não é apenas uma questão pessoal, mas uma forma de ampliar a compreensão sobre o que sustenta o empreendedorismo no país. Porque, no fim, antes de qualquer investimento, existe confiança. E, em muitos casos, é ela, silenciosa e fora dos holofotes, que permite que uma empresa exista, resista e cresça ao longo do tempo.
O post Nem todo “sim” que muda um negócio vem de investidores apareceu primeiro em Startups.


