
A Noh quer se tornar o principal ponto de gestão financeira dos casais brasileiros. Para isso, a fintech passou a usar o Open Finance para integrar ao aplicativo contas mantidas em outras instituições, permitindo que os usuários acompanhem saldos e movimentações de diferentes bancos, com visão consolidada do patrimônio do casal em um único ambiente. Com a estratégia, a empresa espera conectar 10 mil contas nos dois primeiros meses.
A aposta vai além do lançamento de uma nova funcionalidade. Segundo Ana Zucato, fundadora e CEO da Noh, mais da metade da renda compartilhada entre os casais clientes já passa pela plataforma, mas parte do patrimônio ainda permanece em outras instituições. O objetivo é aumentar a participação da empresa na vida financeira dos clientes, concentrando em um só lugar informações que hoje permanecem espalhadas entre diferentes bancos, corretoras e cartões de crédito.
“É a primeira vez que os casais poderão visualizar todo o patrimônio em um só lugar, sem precisar alternar entre diferentes aplicativos, administrar senhas ou recorrer a planilhas”, afirma Ana Zucato.
Visão de mercado
Embora disponível desde 2021, o Open Finance nunca encontrou, na avaliação de Ana, um caso de uso relevante em escala para o consumidor final no Brasil. “Esse compartilhamento de dados foi meio miado até o momento. Por enquanto ninguém encontrou um jeito de fazer isso funcionar”, analisa a fundadora.
O sistema soma 116 milhões de consentimentos para compartilhamento de dados desde o lançamento, segundo o Banco Central. Um estudo da EY de 2025 aponta que o Brasil já possui o maior ecossistema regulado de compartilhamento de dados financeiros do mundo, com mais de 55 milhões de usuários conectados em apenas quatro anos de operação. Esse avanço, porém, não se traduz automaticamente em uso recorrente.
A mesma pesquisa mostra que a adoção é desigual entre os diferentes segmentos: menos de 15% dos investidores brasileiros compartilham dados via Open Finance e apenas 3% das empresas aderiram ao ecossistema, ante 20% no Reino Unido. Na avaliação da EY, isso indica que, apesar da forte penetração no varejo bancário, o Open Finance ainda não conquistou segmentos com grande potencial de geração de valor.
Para Ana Zucato, o problema está no desenho dos incentivos, que não oferece uma razão clara para que o cliente conecte suas contas entre diferentes instituições. “Não tem estímulo nenhum para um usuário conectar dois bancos pelo Open Finance. Para um indivíduo, não faz muito sentido”, afirma.
A dinâmica muda, segundo a empreendedora, quando o foco passa a ser a vida financeira do casal. Mesmo que ambos tenham conta na Noh, cada um costuma manter recursos em outras instituições — seja por causa de cartões com programas de milhas, investimentos ou simplesmente contas abertas antes do relacionamento. Isso torna a consolidação das informações uma necessidade prática.
De acordo com Ana, cada brasileiro mantém, em média, 3,6 relacionamentos financeiros entre contas correntes, cartões de crédito e investimentos, o que representa cerca de sete por casal. Com a nova funcionalidade, a Noh passa a ocupar a posição de mais uma conta nesse ecossistema, mas com a proposta de funcionar como a camada que consolida e exibe, em um único lugar, todas as demais.
Por trás do lançamento
A integração ao Open Finance nasceu de pedidos dos próprios clientes da Noh. Cerca de um mês depois de a fintech lançar categorização e histórico de gastos, os usuários passaram a pedir para trazer também investimentos e cartões de crédito mantidos fora do app. Em vez de construir cada um desses produtos internamente, a empresa optou por conectar o que já existe em outras instituições.
O potencial de negócio cresce à medida que o Open Finance avança. “O Banco Central está lançando a Jornada Otimizada, que permite, com um único consentimento, visualizar dados e movimentar dinheiro entre contas. Aí a Noh começa a ficar mais interessante, porque a gente conseguirá orquestrar o dinheiro dos casais em vários lugares”, afirma Ana. Por isso, segundo ela, o lançamento foi planejado para acompanhar o calendário regulatório.
Depois de quinze anos de brasileiros abrindo contas em bancos, corretoras e fintechs diferentes, a fundadora aposta que o próximo movimento do setor não é mais captar volume, mas organizar o que já existe.
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