
por Charles Schweitzer e Denise Pereira Carvalho
Na natureza nada está parado, estamos sempre em constante impermanência. As organizações não são diferentes e passam por todos os ciclos naturais. Nesse artigo nos debruçamos com olhar crítico sobre o tema da Inovação e a possível temporada de inverno que atravessamos com o tema. Estaria a própria inovação precisando de reinvenção?
O inverno é uma estação de silêncio e recolhimento. As árvores se despem, os animais hibernam, os ventos sopram com mais força, como que limpando o terreno. O uso da metáfora do “inverno” não é novo. Ela surgiu pela primeira vez no campo da Inteligência Artificial, nos anos 1970, quando as promessas não entregues geraram desilusão, corte de verbas e descrédito acadêmico. Décadas depois, foi a vez do “Inverno das Criptomoedas”, quando o entusiasmo deu lugar à ressaca após o colapso de projetos, tokens e carteiras.
Agora, o frio parece ter atingido a inovação como um todo. Startups congelam planos de expansão, donos de propriedades estão sentindo a resistência de vizinhos para seguirem com seus aluguéis no Airbnb, corporações priorizam eficiência operacional em detrimento da disrupção, e o discurso da transformação começa a soar caro, perigoso ou simplesmente fora de moda. Mas será que estamos mesmo vivendo um Inverno da Inovação após décadas de euforia? Ou será que só trocamos de casaco e não percebemos que as estações mudaram?
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Fatores que podem ter contribuído para a retração da inovação
Nas organizações modernas, de forma simples podemos pensar em dois arquétipos complementares: o guardião da continuidade, que zela pela excelência operacional e pela repetição bem-sucedida; e o explorador, que questiona e busca o novo. Clayton Christensen trouxe em seu livro O Dilema da Inovação a tese de que empresas líderes de mercado muitas vezes falham não por incompetência, mas justamente por fazerem tudo certo: ouvir seus clientes, investir em tecnologias estabelecidas e melhorar continuamente seus produtos. Essas empresas perdem espaço porque ignoram ou subestimam as chamadas tecnologias disruptivas, inovações que, inicialmente, parecem inferiores, mas que acabam transformando completamente o setor.
O dilema surge porque ouvir os clientes e buscar retornos consistentes leva as empresas a investir em tecnologias sustentadoras. Mas isso as impede de investir nas tecnologias disruptivas que eventualmente dominarão o mercado, tal como o tão falado e clássico exemplo da Kodak em relação à tecnologia digital. ‘Grandes empresas fracassam justamente porque fazem tudo o que os manuais de boa gestão ensinam,’ comenta Christensen.
Ambos os perfis, os guardiões e os exploradores são necessários. Mas quando a balança pende demais para um lado e a busca constante por inovação vira pressão, um novo risco surge: o da exaustão criativa. Uma fadiga emocional disfarçada, que não se expressa nos relatórios, mas nos corredores silenciosos e na falta de brilho nos olhos. É o gatilho da insuficiência, carregado do sentimento de que, por mais que se faça, nunca é suficiente. Podemos nos perguntar se os modelos de gestão corporativos, que colocam uma pressão por inovar, tenha transformado a criatividade em uma obrigação, com direito a régua de performances que possa ter tirado o frescor criativo, tornando-o funcional e padronizado, portanto, menos inovador.
Que tipo de inovação pode emergir de uma mente fatigada, privada de tempo para contemplar, errar, vagar? John Hagel, John Bowrn e Lang Davison, em The Power of Pull (O Poder de atrair), desafiam a lógica tradicional de planejamento centralizado, controle e previsibilidade, um modelo pautado no “empurrar”, e propõem uma abordagem adaptativa, conectada a um mundo em rede, um formato de “puxar”, “atrair”. Os autores sugerem que indivíduos e organizações devem aprender a atrair conhecimento, recursos, pessoas e oportunidades no momento certo, conectando-se com redes relevantes. Essa abordagem está muito em linha com a linguagem de inovação, que busca o encontro de ideias, a emergência de um terceiro lugar que nasce da conexão entre diferentes linhas de pensamento. Essa visão expande o poder criativo do indivíduo, o que os autores chamaram de ‘o poder das paixões produtivas autênticas dos indivíduos’, convidando a um outro questionamento: estaria este lugar criativo disponível dentro das corporações? É real a tal segurança psicológica para errar e sugerir ideias disruptivas? É comum nos deparamos com mensagens ambíguas que confundem o colaborador, numa abordagem ‘pode inovar à vontade, contato que dê certo e gere resultados’, retornando para o modelo-pressão, que desemboca no medo. A inovação está, afinal, sempre no território do desconhecido, em um constante flerte entre o fracasso e o extraordinário.
Quem investe nela, por outro lado, tem o direito legítimo de buscar minimizar riscos, conduzindo a um movimento cardíaco natural, que ora contrai, ora expande. Fica a pergunta de milhões, como dar espaço de inovação e ao mesmo tempo mensurar o risco do investidor? Eric Ries no seu best seller The Lean Startup, sugere um modelo ágil de criação da inovação, a partir de um protótipo, o chamado “produto mínimo viável” (MVP), é possível coletar dados e feedbacks dos clientes, dando a oportunidade de se aprender e errar rapidamente, revertendo processos com riscos menores. O livro de Ries é de 2011 e podemos já imaginar que a Inteligência Artificial trará novos insights para este modelo. Para evitar o Dilema do inovador, Christensen recomenda a criação de estruturas separadas dentro das empresas. A tal “área da inovação”, habitada por figuras entusiasmadas para as quais os “mantenedores” olham com ceticismo. Esta dialética é saudável, tal como nos ensinou Aristóteles, porém coloca a inovação em um lugar apartado do todo, tornando-a algo legal para se ter, porém distante do necessário para a empresa existir hoje. Já amanhã, não sabemos.
O amanhã desconhecido traz um outro grande vilão da inovação: a ameaça, o famoso ‘se você não inovar, sua empresa morrerá, não existirá’. Essa abordagem distancia as pessoas do espírito expansivo proposto por Hagel, Brown e Davison e coloca o imaginário criativo em modo sobrevivência, minando a inovação. O estímulo a criatividade é um caminho alternativo, que mantém viva a Inovação.
A inovação é inimiga da tradição?
Outra pergunta válida é o nosso olhar para o tradicional. Será que o simples fato de ser igual por muito tempo sinaliza um problema? É preciso inovar o tempo todo? Um exemplo clássico que passa batido e segue um sucesso é a embalagem do bombom sonho de valsa da Lacta, criado em 1938. A embalagem passou por reformulações e melhorias, porém, mantém o rosa e dourado e o nome “sonho de valsa” em destaque por mais de 70 anos. A personagem camponesa na lata do leite moça Nestlé é outro exemplo. O estilo da ilustração foi alterado, mas a personagem segue a mesma desde 1921. Na indústria de alimentos, a memória afetiva parece ter um papel fundamental, além do fato de procurarmos aquele produto justamente por adorarmos o sabor tal como ele é.
Em plena era da Inteligência Artificial, quando ouvimos promessas de revoluções tecnológicas, vale lembrar que com a chegada da televisão entre as décadas de 1940 e 1950, dizia-se que o rádio iria morrer. Não só ele não morreu, como conteúdos em vídeos fazem muito sucesso no formato podcast. Outro exemplo tecnológico que para muitos já estava nas últimas é o e-mail. A promessa da sua extinção por conta de outros meios mais modernos não ocorreu.
Descartar o tradicional que funciona apenas porque sobrevive a muito tempo pode ser um olhar tão rígido quanto o daqueles que rechaçam totalmente a possibilidade de inovar.
O inverno nos trópicos
Se o “inverno da inovação” parece global, no Brasil ele ganhou contornos nítidos e duros. Não foram apenas as startups que congelaram contratações e frearam rodadas de investimento. Também vimos áreas de inovação inteiras sendo descontinuadas em grandes corporações, hubs esvaziados, programas encerrados e times de inovação sumindo discretamente dos organogramas.
O que parecia essencial tornou-se, de repente, um “luxo dispensável” sob o argumento de eficiência ou foco no core. O resultado? Um apagão silencioso de iniciativas que, em muitos casos, ainda estavam amadurecendo.
A lista de nomes seria longa, mas ela é silenciosa. Muitos desses encerramentos não ganharam comunicados oficiais nem notas na imprensa. Só os profissionais de dentro perceberam o frio chegando, com projetos minguando e times sendo redirecionados. Olhando para esse cenário, é inevitável perguntar: estamos realmente cortando o que não gera valor ou apenas não demos tempo suficiente para que brotasse algo novo?
O inverno antecede a primavera
Se o inverno chegou para muitos, alguns escolheram manter a chama acesa, conscientes de que a vida que parece ter ido embora, na verdade vive apenas uma pausa criativa, um jejum sutil que prepara o solo para o florescer da primavera. Algumas empresas mantiveram o casaco, mas continuam andando. No Brasil, há casos emblemáticos de empresas que, mesmo em meio à crise ou à retração do mercado, dobraram a aposta em inovação e foram recompensadas por isso. O ranking das 100+ Inovadoras em TI prova isso. Esses casos mostram que inovar em tempos difíceis não é imprudência, é estratégia. A diferença é que o discurso deu lugar à entrega, e a inovação passou a ser lida como instrumento de resiliência e adaptação, não apenas de crescimento. Em comum, essas empresas entenderam que a inovação deixou de ser um projeto paralelo, o tal lugar separado, e tornou-se parte da engrenagem central. Não é um laboratório com pufe colorido: é cultura, processo e compromisso com o futuro, mesmo quando ele parece incerto.
A inovação não é nova. O século 20 foi palco de uma das maiores acelerações tecnológicas da história humana. Inovações como a internet, os computadores pessoais e a telefonia móvel transformaram profundamente a forma como nos comunicamos e acessamos o conhecimento. Na medicina, avanços como os antibióticos, as vacinas e o mapeamento do DNA salvaram milhões de vidas e abriram novas fronteiras para a biotecnologia. No transporte, a popularização do automóvel, a aviação comercial e até a chegada do homem à Lua redesenharam a geografia da mobilidade e do imaginário coletivo. Ao mesmo tempo, a descoberta da energia nuclear, a invenção dos plásticos e o uso industrial de novos materiais revelaram tanto o potencial criativo quanto os riscos desse novo poder tecnológico. Essas inovações não apenas mudaram o mundo, elas mudaram o próprio ritmo da mudança.
Sim, a inovação também precisa se reinventar, como tudo na vida. Do contrário, ela teria se tornado arcaica e rígida. A chegada da Inteligência artificial está trazendo um novo paradigma nunca vivido antes. A habilidade de criarmos é o que nos torna humanos e nos diferencia de todas as outras espécies. O inverno que atravessamos talvez seja um sinal de que não há uma receita pronta para inovarmos e que a exploração, a humildade e a curiosidade sejam sempre bem-vindos. Talvez o inverno seja somente um lembrete de que precisamos limpar o solo para uma nova primavera.
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