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NRF Big Show 2025 - Jason Dixson Photography

Em janeiro de 2026, milhares de líderes do varejo digital desembarcam em Nova York, nos Estados Unidos, para a NRF Big Show em busca da próxima grande tendência. Mas pare e reflita: quantas “inovações revolucionárias” dos últimos anos realmente viraram lucro no caixa? Você já percebeu que o e-commerce vive de ciclos de euforia e ressaca? Lojas no metaverso que ninguém frequenta, algoritmos de recomendação que cansam o consumidor, estratégias omnichannel que deixaram a experiência mais confusa que conveniente. O resultado: consumidores saturados e diretores questionando onde ficou o ROI das promessas.

2026 provavelmente vai marcar o fim da inocência digital no varejo. Quem continuar correndo atrás de hype vazio vai ficar para trás. A próxima fase do e-commerce pertence a quem transformar tecnologia em resultados tangíveis. Isso significa unir canais, dados e inteligência de forma pragmática, derrubar silos construídos na última década e focar em iniciativas com impacto real em receita e margem.

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Contexto de mercado: do boom à maturidade pragmática

Depois de um boom impulsionado pela pandemia, o e-commerce global entrou em fase de maturidade. No Brasil, o faturamento online superou R$ 200 bilhões em 2024 e deve atingir R$ 234 bilhões em 2025. O crescimento segue em dois dígitos, mas bem mais moderado, sinal de um setor que sai da adolescência e encara as responsabilidades adultas do lucro e eficiência. O consumidor, por sua vez, mudou de perfil: mais exigente, menos impulsivo nas compras e sem paciência para experiências truncadas. Um estudo recente mostrou que 71% dos consumidores esperam interações personalizadas, mas 76% se frustram porque só um quarto das marcas entrega personalização de verdade. Ou seja, a maioria das empresas fala em customer centricity, mas poucas praticam de fato, e o público sente esse abismo.

No palco global, dois temas dominam as conversas de inovação: inteligência artificial e comércio unificado (a evolução do velho “omnichannel”). A NRF 2026 deve evidenciar essa mudança: “omnichannel” virou quase palavrão. Agora a pauta é unificar canais e dados para eliminar fricções na jornada. Simplificando, não basta estar presente em todos os canais (isso virou obrigação); é preciso orquestrá-los como um único ecossistema coeso, em que o cliente transita sem notar fronteiras entre o físico e o digital. E quem está tornando isso possível? Tecnologias maduras de integração de dados, analytics e IA aplicada em marketing, logística e atendimento.

A inteligência artificial, por sua vez, deixou de ser novidade exótica para se tornar infraestrutura básica do varejo moderno. Se há dois anos muito C-level torcia o nariz para o hype do ChatGPT, hoje 82% dos líderes já usam IA generativa ao menos semanalmente e 72% medem formalmente o ROI dessas iniciativas, com três em cada quatro reportando retornos positivos. Ou seja, a IA saiu do laboratório e foi para a operação: personalização de ofertas, recomendações de produto, precificação dinâmica, otimização de estoque, atendimento via assistentes virtuais. Tudo isso já é realidade nos players de ponta. A palavra de ordem agora é otimização e P&L (lucros e perdas): toda tecnologia deve justificar seu impacto no resultado.

Erros do passado e aprendizados (2010–2025)

Vale um rápido flashback dos últimos 15 anos para entendermos os erros recorrentes e os aprendizados duros que nos trouxeram até aqui.

  • Omnichannel de fachada: na década de 2010, muitos varejistas correram para estar “em todos os lugares” sem integrar lugar nenhum. Lojas físicas e e-commerce competiam internamente, sistemas não conversavam, e o cliente acabava sofrendo com preços diferentes e falta de visão única de estoque. A lição? Estar em vários canais não adianta se a experiência não for unificada. Omnichannel não é ter um app bonito; é fazer com que canais diferentes funcionem como um só, algo que pouca gente alcançou naquela época.
  • Foco em volume, não em valor: a busca obsessiva por crescimento a qualquer custo levou a estratégias insustentáveis. Muitas empresas venderam online com margens negativas, subsidiando fretes e descontos para “ganhar market share”. O resultado foi previsível: prejuízos acumulados e, em alguns casos, colapsos espetaculares. Hoje, com capital mais caro e investidores cobrando resultados, cresce o consenso de que crescer sem lucro não vale. A lição que fica é clara: top line sem bottom line é conversa fiada.
  • Dados acumulando poeira: outra febre dos anos 2010–20 foi o Big Data. Todos queriam capturar dados dos clientes, mas poucos sabiam o que fazer com eles. O clássico “data rich, insight poor”. Empresas investiram milhões em CRM, CDP, dashboards… para acabar olhando retrovisor em vez de direcionar a próxima ação. Aprendemos que dado não integrado ou não acionável é custo, não ativo. Os vencedores começaram a tratar analytics como ferramenta estratégica, não peça de marketing.
  • Hype atrás de hype: não faltaram modismos salvadores da pátria. Primeiro a mania de realidade virtual lá em 2014, depois o tal do social commerce em 2015, chatbots em 2018, metaverso em 2022… Muita fumaça, pouco fogo. Vimos empresas investindo em loja virtual 3D enquanto o básico (buscar um produto no site e achar em estoque na loja) seguia falhando. O aprendizado aqui é duro mas libertador: não existe bala de prata. Cada inovação exige estratégia clara, execução disciplinada e quase sempre leva mais tempo que o previsto para dar resultado (se der).
  • Cansaço do consumidor: Na guerra por atenção, o varejo bombardeou clientes com notificações, e-mails, ofertas “imperdíveis” a todo instante, e o tiro saiu pela culatra. O cliente de 2025 está mais seletivo e impaciente. Se a comunicação não for relevante e no timing certo, ele simplesmente te coloca no mute. Entramos na era do cansaço digital em que falar mais alto não adianta; é preciso falar melhor. Quem não aprendeu isso já viu taxas de abertura despencarem e clientes sumirem do radar.

Ponto de virada: por que 2026 é diferente?

Chegamos a um ponto de inflexão. Vários sinais indicam que 2026 não é “mais um ano” e sim o ano em que o jogo vira para muita gente. Por quê?

Primeiro, o consumidor subiu a barra de vez. O patamar de exigência atual é resultado de tudo que ele viveu nos últimos anos. Esse cliente já experimentou comprar supermercado pelo app na pandemia, já viu a mágica de receber recomendação certeira (“como a Netflix acerta meu gosto?”) e também já ficou frustrado com promessas vazias (“retire na loja” que não funciona, cupom que dá erro no checkout, cashback que nunca entra). Em 2026, oferecer uma experiência fluida, rápida e personalizada não é mais mimo… é mínimo. Marcas que não entregam conveniência e consistência vão perder espaço sem dó: o consumidor não perdoa mais.

Segundo, o capital secou e a conta chegou. A era dos juros zero acabou lá fora, e no Brasil o custo do dinheiro sempre foi alto. Isso significa menos margem para experimentos sem critério. Os CEOs e CFOs estão exigindo que cada real investido em tecnologia retorne algo palpável, seja em aumento de receita, seja em eficiência operacional. Lembra da ideia circulando por aí de que “IA que não impacta P&L é só TCC de luxo”? Pois é… virou mantra nos conselhos. Essa pressão pragmática está separando líderes de laggards.

Terceiro, as tecnologias-chave amadureceram. Se antes muita iniciativa esbarrava em limitações técnicas, agora temos nuvem acessível, APIs para integrar praticamente tudo, plataformas de IA as-a-service e um ecossistema martech robusto. Ou seja, a questão deixou de ser “não dá pra fazer” e passou a ser “por que você ainda não fez?”. Não por acaso, mais da metade das grandes redes já possui planos ativos de unificar dados de clientes e digitalizar de ponta a ponta a operação. Ficou mais difícil arrumar desculpa tecnológica para a falta de ação estratégica.

Finalmente, os cases de sucesso estão aí para quem quiser ver. Não estamos mais no campo teórico. As empresas que inovaram com pé no chão estão colhendo frutos e redefinindo a referência. Veja o exemplo da Starbucks nos EUA unindo app e loja física, permitindo que você peça no celular e retire em minutos, com cafezinho personalizado saindo fumegante eles transformaram omnichannel em algo invisível, simplesmente é a experiência. Ou o Magazine Luiza no Brasil, que integrou marketplace, fintech, logística e atendimento em um ecossistema único (enquanto concorrentes penam para juntar os caquinhos de aquisições). Esses pontos fora da curva viraram o novo baseline de expectativa.

Como habilitadora brasileira com representantes na NRF2026, temos também a empresa Semantix, focada em dados, analytics e inteligência artificial corporativa, com posicionamento explícito de “transformar dados em inteligência” e gerar valor mensurável para negócios (rentabilidade, otimização de processos e decisões mais assertivas). Em dezembro de 2025, ela anunciou acordo para comprar ativos/operações da Atos na América do Sul, ampliando capilaridade e presença regional (Brasil e outros países), num desenho que a própria imprensa descreveu como formação de um dos maiores players regionais de dados e IA corporativa.

Mudanças em números: fatos que dão o recado

Nada melhor que alguns indicadores para deixar claro o que está mudando no jogo do e-commerce:

  • E-commerce mais forte (mas menos explosivo): O faturamento do comércio eletrônico brasileiro saltou para R$ 204 bi em 2024 e cerca de R$ 230 bi em 2025 – bem distante dos picos de 40% ao ano vistos no auge pandêmico. Em resumo: o mercado continua crescendo, porém a competição por cada real ficou muito mais acirrada.
  • Marketplace é rei: Hoje, cerca de 67% de todo o faturamento digital no Brasil está concentrado em marketplaces e varejistas nativos digitais. Os grandes players abocanharam fatias enormes, impulsionados por sortimento vasto e superapps. Para as marcas e lojistas menores, isso é faca de dois gumes – ao mesmo tempo que dá alcance, impõe dependência e pressão por eficiência para manter margem nessas plataformas.
  • Personalização ainda em déficit: Como visto, 3 em cada 4 consumidores se frustram com a falta de personalização. A ironia é que tecnologia para personalizar não falta. O gap está na execução. Marcas que dominarem ciência de dados para entregar relevância em escala podem capturar uma oportunidade de ouro: os 76% de clientes sedentos por uma experiência que realmente fale a língua deles.
  • IA = eficiência (e lucro) na prática: Já é possível medir o impacto da IA nas operações. Empresas que adotaram inteligência artificial em processos-chave relatam ganhos mensuráveis de produtividade e lucro em torno de 74% em média. Casos práticos vão de chatbots resolvendo 80% das dúvidas de clientes sem intervenção humana, a algoritmos de precificação elevando margem em categorias de cauda longa. Não é mais hipótese, é dado real.
  • Novas fontes de receita no horizonte: Um estudo da Euromonitor projeta que até 35% da receita do varejo venha de serviços em 2030, e 50% do lucro de linhas de negócio que hoje nem existem. Isso explica o movimento de muitos varejistas criando serviços financeiros, plataformas de terceiros, clubes de assinatura investindo em Retail Media. Transformar tráfego em dinheiro virou ouro: a Amazon, por exemplo, já fatura dezenas de bilhões de dólares por ano em receita publicitária. E na NRF ficou claro que gigantes como Walmart e Target também estão apostando pesado em media networks, criando divisões próprias para monetizar seus dados e canais.
  • Fadiga digital cobra seu preço: A sobrecarga de informação tem efeito direto nos resultados. Taxas de clique e abertura de e-mails de marketing caíram nos últimos anos em diversos segmentos, enquanto comunicações mais segmentadas e úteis mantêm engajamento alto. Ou seja, há um custo mensurável em continuar despejando comunicação genérica. Mitigar o cansaço digital dos clientes virou questão de sobrevivência de branding (quem insiste no spam perde relevância e, no fim, receita).

Implicações estratégicas para o ecossistema

Diante desse cenário, alguns recados estratégicos emergem para todos os players do ecossistema de e-commerce – de varejistas tradicionais a marcas D2C, plataformas martech, operadores logísticos, fintechs de pagamento e além:

  • Unificação total de dados e canais: Acabe de vez com silos. Quem ainda opera informação de cliente separada por canal está agindo no escuro. A vantagem competitiva agora é ter uma visão 360° do cliente e do negócio em tempo real, possibilitando decisões ágeis e personalização verdadeira em escala.
  • Experiência sem costura é o mínimo: Cada interação conta. Site, loja, WhatsApp, Instagram. Para o cliente tanto faz, é tudo a mesma marca. Fricção e inconsistência entre canais se traduzem diretamente em perda de vendas e desgaste de marca. Omnichannel não é mais iniciativa, é infraestrutura básica.
  • IA com ROI ou nada feito: Projetos de inteligência artificial precisam sair do laboratório de inovação e entrar no P&L. Automação inteligente, recomendação de produto, atendimento via bot, previsão de demanda – priorize IA onde houver impacto mensurável em receita, custos ou satisfação. E abandone sem dó qualquer “experimento de IA” que não prove valor tangível em poucos meses.
  • Diversifique o modelo de negócio: Pense além da venda unitária de produtos. Serviços financeiros, assinaturas, comunidades, monetização de audiência via anúncios (retail media). Todas essas frentes podem aumentar o LTV (valor vitalício do cliente) e a margem. Os cases líderes já mostram que o varejo do futuro é um híbrido de plataforma, mídia e serviço, não só um catálogo de produtos.
  • Logística e backoffice como diferencial: Frete rápido, cumprimento impecável de pedidos e pós-venda eficiente deixaram de ser apenas “operações” e viraram estratégia de CX (experiência do cliente). Empresas que investiram em supply chain ágil, entrega última milha e integrações logísticas colheram clientes mais fiéis e até novas receitas (vide modelos fulfillment by marketplace). Execução consistente vale mais para o cliente médio do que a campanha publicitária do ano.
  • Martech + HumanTech: Tecnologia de marketing sozinha não faz verão. A diferenciação vem de equipes capacitadas para tirar o máximo das ferramentas. Isso implica recrutar e treinar talentos em dados, UX e produto digital, ao mesmo tempo em que se cultiva uma cultura de experimentação orientada a métricas. Ferramenta similar + pessoas melhores sempre vence.

Princípios práticos para o executivo de 2026

  1. Pare de perseguir cada tendência do momento: Antes de embarcar no “tema do ano”, seja metaverso, NFT, ou o que vier, pergunte qual problema real isso resolve no meu negócio agora. Filtre hype daquilo que realmente traz valor e concentre energia no básico bem-feito. Estratégia é tão sobre escolher o que não fazer quanto sobre o que fazer.
  2. Comece pela integração, não pela vitrine: Muitos projetos fracassam porque priorizam a camada visível (site novo, app bonito) sem arrumar o fundamento (dados integrados, processos alinhados). Invista primeiro em estruturar a casa: integrar sistemas legados, limpar bases de dados, unificar indicadores. A experiência do cliente será tão boa quanto a saúde dos bastidores.
  3. Desafie seu time com metas de ROI para inovação: Toda iniciativa digital deve nascer com um indicador de sucesso ligado a valor de negócio, e esse indicador acompanhar de perto. Isso força foco em resultado. Se um projeto de IA ou omnichannel não consegue definir um KPI claro de sucesso, algo já está errado no ponto de partida.
  4. Reflita sobre a jornada do seu cliente (de verdade): Quando foi a última vez que você mesmo percorreu, como cliente oculto, todo o caminho de compra da sua marca? Faça isso regularmente. Identifique pontos de atrito, mensagens desencontradas, momentos “uau” desperdiçados. Use esses insights para guiar a priorização de melhorias. Empatia operacional é uma arma poderosa.
  5. Cultive parceiros e visão externa: O ecossistema de e-commerce é vasto e nenhum player vence sozinho. Esteja aberto a parcerias estratégicas com startups de logística, fintechs, plataformas de IA que potencializem suas capacidades. E traga gente de fora para desafiar o status quo nas reuniões de planejamento. Às vezes, uma perspectiva externa expõe pontos cegos que a cultura interna nem percebe.
  6. Mantenha o cliente no centro, de verdade: Pode soar clichê, mas em 2026 vale reforçar: todas as decisões devem começar do cliente. Antes de lançar qualquer novidade, pergunte “Isso melhora a vida do meu cliente em quê?”. Se a resposta não for clara, volte duas casas. O consumidor já mostrou que só engaja com o que lhe agrega valor ou emoção genuína. O resto ele ignora.

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