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saúde, telemedicina, hospitais privados, Federated Learning, Sírio-Libanês, Pesquisa

Nessa terça-feira (7) é comemorado o Dia Mundial da Saúde no Brasil. Em 2026, a saúde brasileira passa por um momento de digitalização e reestruturação, com a consolidação do que muitos chamam de “Open Finance da saúde”.

A promessa é tentadora e perfeita em teoria: um histórico clínico digital e unificado em que os dados seguem o cidadão, e não as instituições. O objetivo é eliminar obstáculos burocráticos para pacientes, médicos e instituições, além de facilitar o compilado de dados para pesquisas clínicas e políticas governamentais.

Contudo, a execução dessa ideia ainda é ofuscada pelo descompasso na maturidade digital do sistema brasileiro. Por trás da interface do aplicativo “Meu SUS digital”, que já soma mais de 50 milhões de downloads nas lojas de aplicativos, existe um ecossistema de interoperabilidade que testa os limites das instituições brasileiras.

A posse do dado clínico

A grande virada de chave desse novo modelo não é apenas técnica, mas jurídica e filosófica e gira em torno da confirmação de que o paciente é o verdadeiro proprietário da sua jornada de saúde. Para que o prontuário único funcione, as instituições precisam criar uma cadeia de proteção de dados que ficam mais centralizados do que nunca. Alex Vieira, CIO do HCOR, alerta que nesse cenário, o dado clínico é do paciente, não é da instituição. “O grande centralizador para que isso funcione é o próprio paciente”, assinala.

Leia mais: Saúde corporativa baseada em dados exige proteção

Entretanto, a gestão desses ativos esbarra em uma infraestrutura obsoleta. Segundo Vieira, não adianta ter dados em nuvem se o pensamento é analógico. “A tecnologia disponível no Brasil caminha em conflito com processos institucionais que ainda são da década de 90. De forma geral, o mercado informatizou processos antigos”, alerta. Ele destaca que, embora o País tenha ferramentas avançadas, falta capacidade organizacional para implementar de forma plena.

Complementando a visão técnica com a prática médica, o Dr. Pedro Batista Junior, médico cirurgião, fundador e presidente da PMJ Holding e da EB Capital ressalta que o dado isolado não cura. “Ferramentas e agentes para suporte a decisão clínica só conseguem ser altamente efetivas se o banco de dados for estruturado e confiável”, pontua o cirurgião.

Prontuário unificado como ferramenta de negócio

O conceito de saúde unificada propõe um compartilhamento transparente para estimular a eficiência e reduzir custos drásticos, evitando a duplicidade de exames que sobrecarrega tanto o SUS quanto os convênios. O desafio de negócio para 2026 é equilibrar essa transparência com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a vedação legal à seleção de risco, garantindo que os dados não discriminem perfis de pacientes.

No HCOR, a estratégia foca na inversão do modelo assistencial. “Não somos área da saúde, somos a área da doença. Para sermos área da saúde, é preciso cuidar da saúde das pessoas e não deixá-las ficar doentes; o avanço dessas informações ajuda nisso”, explica Vieira. O dado deixa de ser um registro do passado (retrovisor) para se tornar uma ferramenta de predição.

Para Rafael Figueroa, CEO do Portal Telemedicina e grande promotor da ideia do prontuário universal, o avanço do prontuário é um grande benefício geral para as organizações de saúde, na maneira como vão tratar o paciente.

“Vamos integrar todas essas camadas, inclusive o presencial e o digital, para garantir uma jornada de cuidado contínua. Com uma linha única de atendimento, essas pessoas poderão ser acompanhadas precocemente, antes que os sintomas evoluam para quadros agudos e exijam uma corrida ao pronto-socorro”, explica Figueroa.

O papel da inteligência artificial

Neste cenário, a inteligência artificial (IA) surge como a camada necessária para dar sentido ao volume massivo de informações da rede nacional de dados em saúde (RNDS). Ela permite que o histórico de milhões de pacientes seja transformado em padrões de cuidado personalizados. É consenso no mercado de que IA não substitui o médico, mas atua como o tradutor que viabiliza a saúde preditiva.

Segundo Viera, isso exige uma mudança no perfil do profissional de tecnologia. “Os técnicos precisam ser menos técnicos. O que precisamos agora é de pessoas que entendam da realidade digital e traduzam isso para quem não entende.”

Complementando a visão técnica de Viera, o Dr. Batista Junior reforça que a IA não é um suporte para os médicos. “Todo o  sistema, seja ele de prontuário ou mesmo um software de triagem para otimizar o trabalho do médico vai contribuir para a saúde mental do profissional, a cultura da medicina brasileira é massacrante, quanto mais otimizado os processos de atendimento por ferramentas de tecnologia, melhor será o trabalho”, afirma.

Democratização da saúde e o papel do SUS

No setor público, a tecnologia é a maior ferramenta de equidade já vista no Brasil. Com um investimento federal de R$ 464 milhões, o foco está em levar o especialista até onde o paciente está.

Figueroa enxerga o SUS como o motor dessa revolução. “Quando essa tecnologia fica restrita aos convênios, de certa forma, ela se elitiza. Já no SUS, uma estrutura única que temos no Brasil, o movimento acontece de baixo para cima, transformando os próprios usuários em protagonistas e principais promotores dessa mudança”, conta.

Ele defende que a integração entre as diferentes camadas do sistema viabiliza uma linha de cuidado contínua. “Ao conectar essas frentes, conseguimos construir uma jornada única, que começa ainda na infância ou no acompanhamento de idosos, e se estende ao longo do tempo, facilitando pesquisas e análises de dados”, afirma.

O executivo também destaca o impacto geográfico dessa lógica. “Crianças do sertão do Nordeste, por exemplo, passam a ter acesso a um plano nutricional, algo que antes ficava restrito ao setor privado, e que agora pode se tornar mais acessível”, projeta.

Entretanto, Figueroa alerta para a resistência cultural. “Ainda existe uma percepção de inferioridade em relação ao SUS. Até que a pessoa experimenta a saúde digital, em um domingo, às 2 da manhã, e percebe que o atendimento pode ser mais rápido do que no próprio convênio. Quando a qualidade se comprova na prática, ela muda a mentalidade de quem estava acostumado ao modelo tradicional.”

Mas Vieira pondera. Para ele, ainda falta maturidade digital no mercado. “Há pessoas sem acesso à internet ou mesmo a um celular. Como opção, funciona. Mas, como padrão, ainda é um desafio.” Em sua visão, fica a reflexão sobre a necessidade de priorizar o avanço da maturidade organizacional e tecnológica em um País que ainda não está plenamente conectado.

Para o Dr Batista Junior, a ideia pode ser mais simples do que parece. “O prontuário único precisa ser entendido como conceito e não como prática. O conceito é que a informação possa transitar de maneira segura e adequada por toda a cadeia de saúde de maneira a dar maior suporte ao cuidado dos pacientes”, finaliza.

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