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Doutora Carolina Horta Andrade. Imagem: Divulgação

Em Formosa, interior de Goiás, uma menina juntou o coração de um boi, uma bomba improvisada e muita curiosidade, e apresentou aquilo na feira de ciências da escola. Décadas depois, ela não parou de fazer perguntas. Só mudou a escala.

Hoje, a doutora Carolina Horta Andrade lidera um laboratório na Universidade Federal de Goiás (UFG) onde computadores simulam o comportamento de moléculas dentro do corpo humano, sistemas de inteligência artificial rastreiam candidatos a medicamentos em bibliotecas com milhões de compostos e uma plataforma inédita tenta levar o olfato para o mundo da realidade virtual.

Filha caçula de uma família de cinco mulheres, criada no interior por pais mineiros, Carolina se tornou uma das cientistas brasileiras que utilizam inteligência artificial para acelerar o desenvolvimento de novos fármacos. Também passou a defender com mais frequência a presença feminina na ciência.

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Carolina cresceu em uma casa onde estudar não era opção. Era destino. “A gente sempre foi muito incentivado pelos meus pais a estudar bastante, a ir atrás”, recorda. O Castelo Rá-Tim-Bum na TV Cultura, o Fantástico Mundo de Beakman e as feiras de ciências da escola alimentavam uma curiosidade que não cabia dentro da sala de aula. A menina que montou um circuito para bombear sangue com um coração de boi ainda não sabia que aquele impulso a levaria até Paris, aos Estados Unidos e a conversas frente a frente com ganhadores do Prêmio Nobel.

No terceiro ano do ensino médio, a ideia inicial era cursar medicina. A decisão mudou após uma conversa com a cunhada de uma das irmãs, que era farmacêutica. “Entendi que o curso de farmácia era muito amplo e envolvia química, saúde e biologia”, conta. A escolha estava feita. Carolina prestou vestibular para Farmácia na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia, e foi aprovada.

A prova que reprovou e o que veio depois

A graduação confirmou a vocação, mas também criou um dilema. Carolina não se identificou com nenhuma das habilitações tradicionais do curso, como análises clínicas, indústria ou alimentos.

O que a encantou foi a iniciação científica na área de Química Farmacêutica e Medicinal, um campo dedicado a entender como moléculas interagem com o organismo para, a partir disso, desenhar novos medicamentos.

Um professor a levou de carro até Ribeirão Preto para assistir à defesa de doutorado de uma pesquisadora na USP. Foi ali que Carolina tomou uma decisão. “Naquele momento eu pensei: é isso que eu quero. Quero ser cientista. Quero ser professora em universidade pública no Brasil”, conta.

O caminho, porém, não foi reto. Ao prestar a prova de mestrado na USP de São Paulo, Carolina levou um choque. “Tirei quatro de dez. Eu, que era a aluna número um da turma, cujo caderno os colegas pediam emprestado para xerocar.” Mesmo assim, decidiu se mudar para São Paulo. Arrumou emprego em uma farmácia para se sustentar e estudou durante seis meses até a próxima seleção. Na segunda tentativa, passou.

Dentro do programa, o desempenho chamou atenção. A orientadora sugeriu a conversão direta para o doutorado. Carolina pulou o mestrado e mergulhou no nível seguinte.

Uma das etapas foi um doutorado-sanduíche de seis meses na Universidade do Novo México, nos Estados Unidos, sob orientação do professor Anton Hopfinger, referência mundial em modelagem molecular e planejamento de fármacos auxiliado por computador. “Foi a área que mais me encantei. Trabalhei só com computador.” Ali nasceu a cientista que ela é hoje.

Volta para casa e um laboratório criado do zero

Carolina defendeu o doutorado em 2009 e voltou ao Brasil. No ano seguinte, abriu um concurso público na Universidade Federal de Goiás exatamente na área em que havia se especializado. Ela prestou, passou e nunca mais saiu. “Voltei para casa”, diz.

O LabMol, Laboratório de Planejamento de Fármacos e Modelagem Molecular, nasceu literalmente do zero. A linha de pesquisa inicial seguiu a trilha do doutorado, com foco em doenças tropicais negligenciadas, como tuberculose, leishmaniose, malária e doença de Chagas. Essas enfermidades afetam principalmente populações de baixa renda e atraem pouco investimento da indústria farmacêutica.

Mais tarde, viroses emergentes como dengue, Zika e Covid-19 também entraram no radar do grupo. A lógica do trabalho é sempre a mesma. Usar o computador como filtro inteligente antes de partir para testes em laboratório.

Modelos de inteligência artificial simulam como uma molécula se encaixa em proteínas de vírus ou parasitas, preveem se ela pode ser tóxica para o organismo humano e estimam como ela se comportaria dentro do corpo, incluindo absorção, distribuição, metabolismo e eliminação.

“Nós fazemos a triagem no computador, selecionamos as melhores candidatas e depois partimos para os testes in vitro e in vivo com um número muito menor de compostos. Reduz custo e ganha tempo”, explica.

Prêmios, Paris e visibilidade

Em 2014, uma pesquisa sobre leishmaniose rendeu a Carolina o prêmio Para Mulheres na Ciência, da L’Oréal em parceria com a UNESCO e a Academia Brasileira de Ciências. No ano seguinte, o mesmo projeto a levou a Paris para receber o prêmio International Rising Talents, reconhecimento concedido a jovens cientistas de vários países.

A experiência teve impacto além do currículo. “Tive uma mesa redonda em que eu estava conversando frente a frente com mulheres que ganharam o Prêmio Nobel. Elas davam dicas de como conseguir aprovação de grandes projetos internacionais. Foi um divisor de águas”, lembra.

Outros prêmios vieram nos anos seguintes, entre eles o Mulheres Brasileiras na Química da American Chemical Society, em 2022, e o Early Career Med Chemist Award da Sociedade Brasileira de Química, em 2023.

Ciência, maternidade e mudanças de prioridade

Em 2018 nasceu sua filha. Em 2021, seu filho. A maternidade trouxe uma nova perspectiva sobre o trabalho. “Eu era muito workaholic. Depois dos filhos, as prioridades mudaram. Aprendi a gerir melhor o tempo e a reconhecer meus limites.”

Em determinado momento, Carolina chegou a considerar reduzir o ritmo. Em seguida, vieram novos projetos e reconhecimentos. “Pensei que não era para eu desistir. Que deveria continuar.” E foi nessa mesma época que nasceu o projeto Sofia, sigla para Sensorial Olfactory Framework Immersive AI. A proposta é incorporar o sentido do olfato a ambientes de realidade virtual.

A ideia parece simples, mas envolve desafios científicos e tecnológicos. Um usuário poderia caminhar por um campo de lavanda em um ambiente virtual e sentir o aroma da planta, ou entrar em uma cafeteria digital e perceber o cheiro de café.

“Você está em um ambiente virtual, vê um campo de lavanda e vai sair o cheirinho de lavanda. A gente já tem um protótipo funcional”, afirma. O projeto reúne engenheiros eletrônicos e mecânicos responsáveis pelo hardware, além de químicos, farmacêuticos e especialistas em inteligência artificial e realidade virtual. “É o projeto pelo qual estou mais apaixonada no momento”, diz.

Para as meninas que ainda não sabem que querem ser cientistas

Quando fala com meninas interessadas em seguir carreira científica, Carolina costuma dar alguns conselhos. O primeiro é não desistir, mesmo diante das dificuldades. “A gente acha que cientistas estão muito distantes da nossa realidade. Não é assim.”

O segundo conselho é construir redes de colaboração e mentoria. “Meninas ajudam meninas. Busquem mentores. Na minha carreira, os divisores de águas foram bons orientadores que me direcionaram.”

O terceiro conselho é sobre humildade. “Não importa se alguém ganhou o Nobel. Somos todos seres humanos. A gente aprende com todo mundo.”

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