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Painel Investing for Legacy: The Family Office Perspective, no South Summit 2026 | Foto: Reprodução
Painel Investing for Legacy: The Family Office Perspective, no South Summit 2026 | Foto: Reprodução

Com a Selic a 14,75% ao ano, convencer famílias brasileiras a alocar em venture capital virou o argumento mais difícil do mercado. Mas para family offices globais, a pergunta não é por que entrar em venture. É por que alguém acharia que renda fixa basta.

“É um caso muito peculiar: vocês têm um país que paga quase 15% ao ano de juros, sem risco, risco zero”, disse José Tomás Daire, LP partner e membro da família na V0 – CF Inversiones, em entrevista ao Startups durante o South Summit. “Mas o tempo vai mostrar que isso provavelmente não vai durar para sempre.”

O LP participou de um painel com outros dois single family offices: o chileno Inversiones Odisea e o Asia Capital Advisor, de Singapura. O argumento central a favor do venture capital foi que family offices não gerenciam patrimônio para o próximo trimestre, mas para a próxima geração. Com esse horizonte, concentrar alocação em crédito deixa de ser prudência e passa a ser um risco diferente: o de perder a janela de valorização que o venture oferece.

Catherine Shiang, managing director da Asia Capital Advisor SFO, apontou a distorção de comparar as duas classes usando DPI (Distributions to Paid-In) como métrica. “O crédito não é protegido contra a inflação. Investir em venture é como investir em um imóvel: há valorização ao longo do tempo.” Ela também lembrou que o rendimento da renda fixa não chega inteiro, já que em boa parte dos casos existe cobrança de imposto de renda. “Não é de graça”, ressalta.

Os dados de Cristobal Piñera, principal da Inversiones Odisea e managing partner da Tantauco Ventures, ajudam a dimensionar o argumento. Há mais de 20 anos investindo em venture capital e private equity por meio de mais de 200 fundos, ele aponta que a classe entrega, em média, retorno líquido de 14% a 15% ao ano no longo prazo – não os 30% ou 40% dos vintages excepcionais, mas a média real.

“Se você comparar com o desempenho das bolsas de países desenvolvidos no mesmo período, que retornou aproximadamente 9%, estamos falando de um alfa de 4% a 5% ao longo de mais de 20 anos. É muito significativo para um family office.”

O retorno, porém, exige paciência durante os momentos mais desafiadores. “Você não pode tentar bater o sistema escolhendo o vintage certo e pulando o ruim. Precisa ser disciplinado. E se for, vai começar a ver esse alfa, mas só a partir do sétimo, oitavo ou nono ano”, observa Cristobal.

“Queremos investir em pessoas que gostamos”

O retorno financeiro, porém, é só parte da equação. Para os três LPs, o que diferencia um family office de um fundo institucional convencional está na natureza da relação, e nas vantagens que ela traz para o fundador e GP que souber aproveitá-la.

“Se você vai captar com um family office, aproveite o tempo que tem para conhecer a família por trás dele”, aponta José. “Investir o patrimônio de uma família é uma responsabilidade muito alta. Eles têm uma mentalidade de legado, de longo prazo. E sua responsabilidade como fundador é conhecê-los o quanto antes.”

Catherine foi mais direta sobre o que as famílias esperam em troca. Para ela, é importante haver um alinhamento, entender de onde vem o patrimônio da família, em quais setores ela opera, quais são suas exposições. Um family office não vai investir em um competidor de seus próprios negócios, ressalta ela. Mas se houver fit, o valor vai além do capital. “A vantagem de receber dinheiro de um family office alinhado é que você pode usar a experiência das empresas operacionais deles. Temos um horizonte de investimento mais longo. E podemos ser sua saída.”

Há também uma dimensão menos formal, e que os três mencionaram com naturalidade. Famílias investem em pessoas. “A gente passa de sete a oito anos junto antes de ver uma saída, talvez mais até um IPO. Então queremos investir em fundadores com quem queremos passar esse tempo”, disse Catherine. “Mostre quem você realmente é. Aproveite essa relação.”

Para Cristobal, no early stage, a análise começa e termina nas pessoas. “Não importa o que você tem. Quando você está investindo em estágio inicial, os fundadores são tudo”.

O post Renda fixa é armadilha para family offices, dizem LPs globais apareceu primeiro em Startups.