
Diariamente, mais de 3,5 milhões de caminhões circulam pelas estradas brasileiras. De acordo com a Secretaria Nacional de Trânsito, eles são responsáveis por transportar cerca de 75% de todas as mercadorias do País. Com tamanha demanda, o desafio vai além da agilidade. É preciso investir em inovação para sustentar esse ritmo. Mas como gerar eficiência e tecnologia para a quarta maior malha rodoviária do mundo? Este foi o tema debatido no painel “Logística inteligente, conectada e autônoma. Futuro ou sonho?”, realizado na Futurecom 2025 nesta terça-feira (30).
Durante a conversa, Paulo Humberto Gouvea, diretor de Soluções Corporativas da TIM Brasil, ressaltou que quanto maior a frequência de rede, menor seu alcance. Nesse sentido, para o executivo é vantajoso pensar em instalações de 4G em vez do 5G, por exemplo, garantido maior conectividade. Para defender seu argumento, o diretor apresentou o trabalho feito em conjunto com o Ministério dos Transportes, via edital, para conectar a Dutra.
Realizado em 2018, o projeto tinha como objetivo “conectar todos os usuários da rodovia via Wi-Fi” para que eles pudessem se comunicar com as concessionárias”. No entanto, a palavra “Wi-Fi” no edital, além de dificultar a operação, encareceria o trabalho. “Na época, nos unimos com as concessionárias para pedir ao governo que alterasse o edital, assim poderíamos instalar um Long Term Evolution (LTE) em vez do Wi-Fi, e garantir mais conectividade.”
Para Gouvea, o cenário prova ainda que é preciso um união maior do setor para realizar as mudanças estruturais necessárias, principalmente quando se fala em conectar o campo. “O Brasil é um país continental. E nele, nosso maior desafio não é a cidade, é como conectar o campo.”
Em fevereiro deste ano, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) questionou formalmente a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) sobre o status das obrigações de cobertura em estradas. Em carta, a agência destacou que a conectividade é essencial para “permitir a modernização das rodovias com a utilização de novas tecnologias como o sistema Free Flow (livre passagem nos pedágios) e o HS-WIM (pesagem dinâmica)”.
De acordo com Guillermo Lastra, diretor da Ford Pro America do Sul, este é um dos maiores entraves para o desenvolvimento de veículos autônomos. Na produção da empresa, todos os produtos têm funções semiautônomas para auxiliar os motoristas a diminuírem riscos de colisão, mas os testes com transportes autônomos só puderam ser executados nas cidades. “Até consigo colocar um veículo autônomo para rodar em São Paulo, mas quando falamos de logística, mesmo em percursos controlados, não conseguimos ir muito além de 100 quilômetros da capital”, afirma.
O caso reforçou o posicionamento de Jean Prisco, gerente-geral de Tecnologia da Informação da MRS. Para o executivo, os maiores desafios tecnológicos da logística atualmente não estão na tecnologia e, sim, nos dados. A maior questão não está em torno apenas da coleta e transmissão destes, mas também em sua estruturação e integração, que são permeados por uma questão cultural.
“No nosso setor, ainda soa quase como uma afronta chegar à área de negócios e falar sobre estruturar dados ou automatizar processos, já que, na visão deles, aquilo ‘funciona’ há muitos anos. Esse mindset acaba criando barreiras e dificulta a escalabilidade de qualquer operação.”
Com dados mal estruturados, a implementação de inteligência artificial (IA) nas operações torna-se ainda mais desafiadora, alerta o especialista. “Apenas 23% das empresas de logística possuem planos formais para adoção de IA. Nosso grande desafio hoje não é simplesmente comprar soluções de IA, mas sim preparar a organização para recebê-las.”
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