
A narrativa de que o modelo de software como serviço (SaaS) estaria chegando ao fim ganhou força após uma semana turbulenta no mercado financeiro. No início de fevereiro de 2026, empresas de software listadas em bolsa perderam mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado em apenas sete dias. O gatilho foi a aceleração da inovação em agentes de inteligência artificial (IA) e a percepção de que esses sistemas podem substituir fluxos tradicionais de trabalho baseados em aplicações SaaS.
Em análise publicada pela Forrester, um grupo de sete especialistas liderado por Kate Leggett afirma que o movimento reflete uma mudança estrutural, mas não a morte do SaaS.
Segundo o relatório, investidores passaram a temer quatro impactos principais: a possibilidade de que fornecedores SaaS deixem de ser a principal camada operacional para agentes de IA; a obsolescência do modelo de cobrança por usuário; a capacidade de startups replicarem funcionalidades complexas por meio de “vibe coding”; e a crescente dificuldade das empresas em administrar centenas de aplicações desconectadas.
Apesar do choque, os analistas destacam que o núcleo operacional das empresas continua dependente de plataformas SaaS. O gasto global com esse tipo de solução deve crescer de US$ 318 bilhões em 2025 para US$ 512 bilhões em 2028 e US$ 576 bilhões em 2029. A avaliação é que funções críticas de front, middle e back office não desaparecerão no curto prazo embora passem por reconfiguração.
Consolidação do SaaS no horizonte
A Forrester projeta um cenário de colapso seletivo e consolidação entre fornecedores. Empresas SaaS horizontais com soluções pontuais e baixo custo de troca tendem a enfrentar mais dificuldades, especialmente se não oferecerem retorno claro sobre investimento. Parte desses players pode ser absorvida por fornecedores maiores ou mais resilientes.
Já empresas SaaS verticais, focadas em setores específicos e com domínio de dados proprietários, teriam maior capacidade de adaptação. O mercado de software vertical deve crescer de aproximadamente US$ 133,5 bilhões em 2025 para US$ 194 bilhões em 2029, segundo a análise. Plataformas especializadas em saúde ou manufatura são citadas como exemplos de maior resistência.
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Grandes fornecedores como Oracle, Salesforce e ServiceNow estão migrando para uma abordagem “AI-first”, incorporando agentes inteligentes aos seus processos determinísticos. Ainda assim, o estudo alerta que até esses incumbentes podem enfrentar risco de desintermediação à medida que camadas de orquestração e controle agentivo passem a operar acima das suítes tradicionais.
Como empresas devem reagir
A recomendação da Forrester não é simplesmente “comprar mais IA”. O primeiro passo sugerido é reavaliar e reestruturar os investimentos existentes em SaaS. Sistemas essenciais como CRM, ERP, HCM e plataformas de supply chain continuam sendo a espinha dorsal operacional, mas precisam ser integrados a uma estratégia de IA mais ampla.
Entre as orientações estão reduzir a proliferação de fornecedores e concentrar contratos em parceiros estratégicos; trabalhar a maturidade digital para alcançar um “core limpo”, com governança e dados unificados; inventariar redundâncias e tratar dívida técnica antes de ampliar o portfólio; priorizar um roadmap claro para agentes de IA, definindo quais fluxos podem ser automatizados, e renegociar contratos baseados em licenças por usuário, antecipando modelos de precificação por consumo ou resultado.
A análise também sugere envolver parceiros de ecossistema desde o início, dado que a transição para operações baseadas em agentes ainda está em estágio inicial.
De “aplicação” a “orquestração”
O ponto central do estudo é que o SaaS não desaparece, ele muda de papel. O “cérebro” da empresa permanece, mas seu sistema nervoso passa a ser mais inteligente e automatizado. O foco desloca-se da simples aquisição de licenças para a gestão estratégica de arquiteturas híbridas, nas quais agentes de IA executam tarefas sobre plataformas existentes.
Para a Forrester, a chamada “SaaS-pocalypse” não representa o fim do modelo, mas uma redistribuição de valor e poder dentro do ecossistema tecnológico. Empresas que compreenderem essa transição e reestruturarem contratos, arquitetura e governança estarão mais preparadas para a próxima fase da transformação digital.
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