
Em mais um movimento de expansão do portfólio, a Sankhya lançou recentemente o Finance, plataforma que usa dados e IA para apoiar empresas em decisões de crédito e conectá-las a diferentes instituições financeiras. O produto é o desdobramento mais recente da estratégia que a Sankhya vem consolidando nos últimos anos, deixando de ser apenas um ERP para se tornar uma plataforma completa de soluções para gestão de negócios.
“Olhar para o processo financeiro deixou de ser questão de inovação para ser questão de sobrevivência”, afirma Douglas Faria, diretor de produto da Sankhya, em entrevista ao Startups. Segundo o executivo, o Finance foi criado para ampliar o papel do ERP junto às equipes financeiras, uma vez que os sistemas tradicionais costumam atuar mais como ferramentas de registro do que de apoio à tomada de decisão. “O Finance quis elevar o nível de atendimento para esse público, oferecendo serviços financeiros, como crédito e score, e redução da carga operacional via agentes de IA”, diz.
O produto foi construído do zero a partir da automação bancária, evoluindo uma operação que a empresa antes realizava por meio da troca manual de arquivos (EDI). Hoje, nove bancos já estão integrados à plataforma e, juntos, atendem 98% dos clientes da base, com fluxos de pagamento e conciliação automatizados.
Com essa integração, o Finance passou a cruzar os dados do ERP para identificar necessidades de crédito e conectar as empresas a fontes de financiamento por meio de um marketplace com instituições financeiras. Além dos bancos tradicionais, a plataforma conta atualmente com dois fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) e outros em negociação. A meta da companhia é chegar a 50 FIDCs parceiros nos próximos 12 meses.
“Nossa capacidade de originação de crédito é muito relevante. Quanto mais FIDCs trouxermos, mais barato e acessível será o crédito para o cliente, e essa democratização é um dos pilares do marketplace”, explica Douglas.
Inteligência no centro
Na camada de automação, a companhia aposta nos Digital Workers, agentes que atuam em contas a pagar, contas a receber, conciliação e cobrança — essa última integrada à régua automatizada da Neppo, empresa do grupo.
Para o CTO, Cláudio Gualberto, a vantagem da Sankhya na parte de arquitetura é ter processos de ERP já determinísticos, o que facilita a aplicação de IA sobre eles, e uma base de aquisições recentes já nativas em cloud, o que simplificou a integração das novas camadas de inteligência a uma jornada única, com login e interface homogêneos. “Já temos uma jornada unificada, em que o usuário não consegue perceber nenhuma costura entre as soluções”, afirma.
A métrica que a empresa mais acompanha hoje é o engajamento, e não apenas o volume transacionado. Dados da consultoria global RGP mostram que apenas 27% dos CFOs confiam plenamente nos dados da própria empresa, enquanto 19% afirmam confiar totalmente nos dados corporativos. Para a Sankhya, esse cenário adiciona uma barreira à adoção de uma camada de IA, já que a tecnologia precisa transformar dados em uso recorrente para gerar valor.
Construindo um ecossistema
Danilo Miranda, VP da BU de Gestão Empresarial da Sankhya, reconhece que a companhia deixou de focar apenas em ERP e hoje se posiciona como uma plataforma completa para atender às necessidades das empresas. O próprio executivo, porém, conta que algumas das novas iniciativas, como o Finance, inicialmente despertaram seu ceticismo.
“Quando me apresentaram a tese do Finance eu, como alguém cético, achei a proposta ousada e bastante diferente de tudo o que vínhamos fazendo até então”, conta. “À medida que conheci melhor o produto e entendi como ele se integrava à jornada de gestão que já oferecemos, fui surpreendido pelo potencial da iniciativa e pelo quanto ela fazia sentido para os nossos clientes.”
“Esse movimento também reflete a transformação da própria Sankhya, que hoje não é mais apenas uma empresa de ERP, mas uma plataforma completa de gestão que conecta diferentes soluções para apoiar as empresas em suas decisões”, afirma.
A expansão é sustentada por uma tese robusta de fusões e aquisições. Ao todo, já são 11 empresas incorporadas pela Sankhya, ampliando o portfólio para áreas como logística, gestão tributária, CRM e automação de marketing.
A aquisição mais recente foi anunciada em abril de 2026, com a compra da Magis5, plataforma de centralização da gestão de vendas em marketplaces e lojas virtuais. Na ocasião, a Sankhya adiantou que pretendia investir mais de R$ 200 milhões em novas aquisições até o fim do ano, como parte do plano de expansão por meio de M&As.
Para o CTO, Cláudio Gualberto, essa transformação tem se refletido também na percepção dos clientes. “Estamos reconstruindo e modernizando boa parte do nosso parque tecnológico, e os clientes estão percebendo essa movimentação. Isso nos coloca cada vez mais no espaço de cliente enterprise, competindo de igual para igual com as multinacionais”, diz.
Próximos passos
A prioridade da Sankhya nos próximos 12 meses é ampliar o volume transacionado (TPV) no Finance, chegar a 50 parceiros de crédito e lançar a conciliação financeira automática integrada ao fechamento contábil, além de funcionalidades ligadas à reforma tributária e ao Split Payment. No horizonte de dois anos, a ambição da companhia é se tornar subadquirente, capturando mais valor do próprio TPV transacionado dentro do ecossistema.
No negócio como um todo, a companhia quer ampliar sua presença nacional, hoje formada por mais de 30 unidades além da sede em Uberlândia (MG). Por enquanto, a estratégia permanece concentrada no Brasil, com o objetivo de levar o ecossistema a empresas de diferentes regiões do país e de diferentes segmentos da economia, sem planos de expansão internacional neste momento.
O IPO segue no radar, especialmente após a rodada de investimentos de 2020, quando a companhia recebeu um aporte de R$ 425 milhões do GIC, fundo soberano de Singapura. No início de 2026, a empresa afirmou que a estratégia de M&As também contribui para a preparação para uma eventual abertura de capital. A meta é alcançar R$ 1 bilhão em receita recorrente anual (ARR), patamar que aproximaria a Sankhya desse objetivo.
A possibilidade de IPO está em discussão desde 2024, quando os planos iniciais apontavam para uma estreia a partir de 2025. Hoje, a companhia afirma que a decisão depende da janela de mercado e cita 2028 como uma possibilidade, ainda sem caráter definitivo. Por ora, o foco está em ganhar maturidade para realizar uma abertura de capital bem executada.
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