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Muhammad Alam, membro do board da SAP SE e responsável por Produto e Engenharia da empresa. Foto: Déborah Oliveira

Durante a abertura do SAP Connect*, realizado nesta semana em Las Vegas, nos Estados Unidos, a SAP anunciou uma nova arquitetura de inteligência artificial (IA) baseada em agentes especializados, com o objetivo de reformular a maneira como empresas operam usando a suíte de aplicações da companhia. A mudança reposiciona o Joule, copiloto de IA da SAP, como um orquestrador de uma rede de assistentes e agentes desenhados por função de negócio.

O modelo aposta em integração nativa entre aplicações, dados e IA, em uma abordagem que, segundo Muhammad Alam, membro do board da SAP SE e responsável por Produto e Engenharia da empresa, busca evitar custos e limitações de arquiteturas fragmentadas. “Uma camada de IA separada das aplicações exige novas integrações, novos modelos de permissão e perde a riqueza semântica dos dados de negócio”, explicou. “Já uma arquitetura unificada garante maior precisão e adoção mais natural.”

Na prática, os novos Assistentes Joule são moldados por função, explicou, como finanças, RH, cadeia de suprimentos ou vendas, e trabalham ao lado de agentes especialistas. O Assistente para Gerentes de Pessoas, por exemplo, é apoiado por um Agente de Inteligência de Pessoas, que identifica distorções salariais e sugere ações corretivas. No caso de finanças, o Assistente de Planejamento atua com o Agente de Efeito de Caixa, capaz de otimizar liquidez usando dados em tempo real e modelos preditivos. Isso tudo conectado diretamente no sistema de gestão empresarial, facilitando as tomadas de decisão.

O diferencial, de acordo com a SAP, é que esses agentes não operam isoladamente. Eles se comunicam entre si, permitindo que decisões em RH se conectem com impactos financeiros ou operacionais.

A demonstração conduzida por Stephan de Barse, presidente da SAP Business Suite, ilustrou essa orquestração. Em um fluxo simulando a rotina de um CFO, foi possível ver o Joule detectando discrepâncias em pagamentos e propondo planos de correção que cruzam diferentes áreas, desde a renegociação com fornecedores até o alinhamento com a equipe de vendas. Quando um problema logístico surgiu, a rede de agentes acionou dados do SAP Business Network e sugeriu fornecedores alternativos, com apoio de pesquisas externas e análise de risco via integração com a ferramenta de IA, Perplexity.

Dados no centro

Para viabilizar essa lógica, a SAP lançou o Business Data Cloud Connect (BDC Connect), que permite interoperabilidade de dados entre sistemas SAP e parceiros como Databricks e Google Cloud, usando um modelo de compartilhamento “zero-copy”. A ideia é garantir que os agentes operem com os dados certos, no momento certo, sem necessidade de replicações.
“IA com o contexto mais amplo gera o maior valor”, afirmou Alam. “Se os dados estão isolados por função, o máximo que se pode alcançar são ótimos locais. Com contexto unificado, é possível buscar o ótimo global”, completou.

Além da rede de agentes, a SAP apresentou novos aplicativos nativos de IA, como o SAP Supply Chain Orchestration, que analisa sinais em tempo real na cadeia de suprimentos e propõe rotas alternativas frente a riscos como eventos climáticos ou aumento de tarifas, e a nova versão da suíte SAP Ariba, que promete abordagem autônoma de ponta a ponta para compras, sem necessidade de reimplementações.

“O objetivo é que os assistentes passem de copilotos para executores autônomos”, explicou Alam. “Quando há confiança suficiente, o próprio usuário pode autorizar o assistente a agir, delegando a execução.”

Agentes humanos e a lógica de trabalho

O avanço da autonomia, no entanto, não exclui o humano, alertou o executivo da SAP. Ian Beacraft, fundador da Signal and Cipher e especialista no impacto da IA sobre o trabalho, subiu ao palco do evento para reforçar essa máxima. Ele destacou que o movimento atual é de reestruturação do trabalho em torno da colaboração entre humanos e IA. “Não se trata de substituir empregos inteiros, mas de automatizar tarefas e permitir que os profissionais se expandam para áreas adjacentes”, afirmou. “A habilidade-chave será desaprender e reaprender rápido.”

Gina Vargiu-Breuer, Chief People Officer da SAP, afirmou que a empresa já trata IA como elemento central da rotina dos 110 mil funcionários. “A IA não é mais opcional para a SAP. É parte do nosso sistema operacional.” Ela defendeu que competências devem ser tratadas como a “nova cadeia de suprimentos”, exigindo planejamento dinâmico e aprendizado contínuo.

A lógica por trás dessa estrutura remete ao conceito de sistemas multiagente, em que diferentes IAs com papéis bem definidos interagem para resolver problemas complexos. Em um dos exemplos, quando um componente essencial para entrega de um pedido estava em falta, o Joule acionou automaticamente o agente de manutenção, que envolveu compras emergenciais, despacho técnico e comunicação com cliente.

“Esses fluxos complexos, que antes exigiam intervenção humana constante, agora podem ser coordenados por uma rede de assistentes”, resumiu Priyanka Khaitan, líder de produto de IA da SAP, demonstrando um caso de manutenção industrial automatizada de ponta a ponta.

IA em tempos incertos

Ainda na abertura, Muhammad Alam também abordou os desafios do cenário macroeconômico e geopolítico atual, defendendo que a integração entre IA, dados e aplicações é a base para transformar incertezas em vantagem competitiva.

O tema foi aprofundado em uma conversa entre o CFO da SAP, Dominik Asam, e a professora Ulrike Malmendier, da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. “Vivemos uma era de incerteza sem precedentes. O risco é cair na paralisia ou apostar tudo em um caminho só”, disse Ulrike. “Empresas e países precisam construir opções, não barreiras.” Ela aproveitou para reforçar que os desafios só serão solucionados a partir do ecossistema. “Não há melhor forma de vencer a incerteza econômica do que com a economia interconectada”, refletiu.

Para Hassan, a IA pode ajudar CFOs a atuarem como copilotos, com mais visibilidade sobre os riscos e mais liberdade para decisões estratégicas. “Se antes perseguíamos os dados, agora os dados vêm até nós.”

A SAP defende que a principal função dos agentes de IA não é apenas automatizar tarefas, mas desbloquear decisões mais informadas. Por isso, anunciou também o recurso de “deep research” no Joule, projetado para sintetizar grandes volumes de dados internos e externos, encurtando ciclos como planejamento de contas, análise de lucratividade e cenários orçamentários.

“Em vez de depender de pesquisas manuais e reuniões intermináveis, o assistente é capaz de propor planos completos em poucas horas”, disse Alam.

Alam lembra que a nova jornada também afeta o relacionamento com clientes. Para ele, a desconexão entre sistemas de vendas, finanças e atendimento mina a experiência. “Perder um cliente custa caro. E hoje, mais da metade desiste após uma única experiência ruim.”

E essa experiência, afirmou, afeta empresas de todos os portes. “Quando se conecta aplicações inteligentes em toda a empresa, o efeito é multiplicador”, concluiu.

*A jornalista viajou a convite da SAP

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