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Mão de uma pessoa interagindo com uma superfície sensível ao toque, iluminada em tons de azul, sobre uma mesa escura. Ao redor da área de toque, aparecem várias interfaces digitais translúcidas flutuantes, conectadas por linhas, com gráficos e painéis de dados. Entre os elementos visíveis há gráficos de linha, barras e áreas, além de números e indicadores, como a sequência ‘1,524,894,783,825’. As cores variam entre azul, rosa, laranja e verde, destacando as diferentes visualizações. A iluminação cria contraste entre o brilho da interface e o ambiente escuro ao fundo, sugerindo análise de dados, visualização interativa e tecnologia avançada. (software)

Uma análise sobre tecnologia e negócios publicada em março de 2026 pela Sequoia Capital (uma das mais influentes empresas de venture capital do mundo) em seu site trouxe uma nova afirmação que parou a minha leitura e também deveria parar a sua: a próxima empresa de 1 trilhão de dólares vai ser uma “service – as – a software”.

Essa mudança, que pode ser observada em tempo real, vai redefinir como fintechs, bancos e empresas de pagamento irão comprar tecnologia nos próximos anos.

A tese do estudo é simples e perturbadora ao mesmo tempo. Enquanto o mercado se acostumou com a ideia do copiloto (a IA como ferramenta nas mãos de um profissional) a virada que está chegando é a do autopiloto: ao invés de vender a ferramenta, a empresa vende o trabalho de ponta a ponta.

A Sequoia faz uma distinção que eu considero a mais importante do artigo: a diferença entre inteligência e julgamento. Inteligência é executar uma tarefa complexa seguindo regras, mesmo que essas regras sejam sofisticadas. Julgamento é saber qual regra aplicar, quando mudar o curso e o que priorizar, basicamente a “intuição” construída ao longo de anos de prática e muitas sinapses.

Na engenharia de software, a IA cruzou o limiar da inteligência. A maioria das tarefas de desenvolvimento como traduzir especificações em código, testar e debugar são trabalhos de inteligência. O julgamento ainda é humano: decidir o que construir, aceitar a dívida técnica, saber quando lançar antes de estar pronto e por aí vai.

O ponto da Sequoia é que esse padrão vai se repetir em toda profissão. E quando ele se repete, o autopiloto vence, porque para cada dólar gasto em software, seis são gastos em serviços e quem captura o orçamento de serviço, naturalmente alcança um mercado seis vezes maior.

Quando leio esse mapeamento com olhos de quem trabalha no mercado financeiro digital brasileiro, algumas verticais saltam imediatamente. Exemplifico.

Contabilidade e auditoria: o Brasil tem escassez de contadores, remuneração que não compete com tecnologia e finanças, e uma base de clientes (fintechs, gestoras e meios de pagamento) que cresceu muito mais rápido do que a oferta de profissionais especializados. O trabalho de fechamento contábil, conciliação e reporting é predominantemente inteligência.

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Aquisição e gestão de fornecedores: a Sequoia estima que empresas negociam ativamente com apenas os 20% mais relevantes de seus fornecedores. O restante é abandonado por falta de capacidade humana. No contexto de uma fintech em crescimento, isso se traduz em contratos mal acompanhados, renovações perdidas e condições não negociadas. Um autopiloto de aquisição poderá captar dinheiro que hoje simplesmente não existe no orçamento porque não é economicamente viável ter pessoas fazendo aquele trabalho.

O playbook do auto piloto, segundo o artigo, começa sempre pelo trabalho que já é terceirizado e por uma razão clara: quando algo já é feito por um fornecedor externo, três coisas são verdade.

1. O comprador aceitou que aquele trabalho pode ser feito fora de casa. 2. Existe uma linha orçamentária que pode ser substituída diretamente. 3. O comprador já está comprando um resultado, não um recurso.

Trocar um contrato de outsourcing por um provedor nativo de IA é uma troca de fornecedor. Eliminar uma posição interna é uma reorganização. A fricção é completamente diferente.

O que isso significa na prática para o mercado financeiro digital? Significa que a porta de entrada não é vender uma plataforma de IA para o CTO. É vender o trabalho feito para o CFO, o COO e o head de compliance. A tecnologia vira invisível. O que importa é o resultado entregue e quem vai assinar o contrato é quem tem o problema, não necessariamente quem tem o orçamento de tecnologia.

O que muda para quem está construindo tecnologia hoje? “A empresa que vende a ferramenta disputa com o modelo. A que vende o trabalho, melhora com ele”.

Essa frase do artigo da Sequoia é a que mais me perturbou. E perturbou porque é exatamente o que estou vendo acontecer. Cada nova versão dos modelos de linguagem e dos agentes de IA não é uma ameaça para quem construiu expertise no domínio, é um insumo mais barato e mais poderoso para entregar o mesmo resultado a um custo menor.

O risco é inverso para quem vende apenas a licença. Se o seu diferencial é o software em si, e o software vira commodity, você está em uma corrida que não pode vencer no longo prazo.

O segredo do trabalho está exatamente nessa interseção: tecnologia com execução e conformidade para o mercado financeiro digital. Não porque é o posicionamento mais sofisticado de se ter, mas porque o cliente que chega até nós não quer entender de arquitetura, quer o problema resolvido.

Para quem está construindo ou comprando tecnologia no mercado financeiro digital brasileiro, a pergunta a fazer não é mais: ‘qual software resolve meu problema?’ É: ‘quem entrega o resultado que eu preciso?’ A resposta pode vir de um lugar inesperado e vai custar menos do que o headcount atual.

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