
Empresas de porte médio enfrentam um desafio estrutural para ganhar escala no Brasil. O venture capital local tende a voltar suas atenções para o early stage, enquanto o private equity mira empresas mais maduras, deixando o lower middle market em um espaço difícil de atrair capital. É esse gap que a Solum Capital quer ocupar.
Fundada em 2019, a gestora do Grupo Solum tem entre R$ 75 milhões e R$ 100 milhões para investir em 2026, em três a quatro empresas, com faturamento entre R$ 20 milhões e R$ 300 milhões.
A Solum opera com um modelo diferente do private equity tradicional. Em vez de levantar um fundo com capital comprometido e prazo definido para desinvestir, a empresa estrutura veículos de propósito específico, os chamados club deals, em que cada investidor sabe exatamente em qual ativo está colocando dinheiro. O resultado é um portfólio que hoje soma 9 empresas, em 9 setores distintos, com participações que variam entre 10% e 35%.
Em cinco dessas companhias, a Solum é minoritária tradicional. Nas outras quatro, ocupa posição de minoritária dentro do bloco de controle, o que na prática lhe confere papel de acionista de referência, com assento no conselho.
“Nossa atuação vai muito além do capital”, diz Donato Ramos, CEO e sócio-fundador da holding. “Temos um papel muito ativo na governança e gestão da companhia”.
O horizonte de saída previsto é de 5 a 7 anos, podendo se estender a até 10, e o cotista é alinhado com essa visão desde o início. Das 9 empresas do portfólio, três já estão em processo de saída em estágio mediano a avançado, com conversas em andamento com estratégicos. Pelo menos duas devem concluir o processo ainda em 2025, mas Donato faz questão de sublinhar que não há pressa. “Somos um capital paciente. Nosso horizonte é o mesmo do empreendedor”, diz.
Os cheques variam conforme o setor e a oportunidade: a gestora está em fase final de conclusão do primeiro investimento do novo ciclo, uma empresa de serviços industriais B2B de eficiência energética, com aporte estimado em R$ 25 milhões a R$ 30 milhões. Um segundo negócio, voltado à locação de equipamentos para construção civil, está em estágio avançado de negociação, com cheque de R$ 20 milhões. E um terceiro, em serviços financeiros, deve receber entre R$ 40 milhões e R$ 50 milhões.
O critério de seleção combina tese setorial com perfil operacional. A Solum é agnóstica em termos de setor, mas tem alguns mercados favoritos. B2B e serviços para a indústria estão no topo da lista. “O parque industrial brasileiro é antigo e vai passar por renovação. Isso vai demandar automação industrial, refrigeração, climatização, locação de ativos”, afirma Donato.
Saúde também está no radar. “Gostamos muito de subsetores do segmento de saúde brasileira onde há fragmentação e serviços mal atendidos, como o setor de autismo”, diz o CEO. Beleza aparece como setor de interesse, mas com cautela. E há busca por serviços financeiros, especialmente subsegmentos ainda não ocupados.
A tecnologia como critério
Donato tem uma posição bem definida sobre tech. Para ele, o recorte de “empresa de tecnologia” perdeu sentido: toda empresa precisa ter tecnologia no modelo de negócio. A Solum não se posiciona como especialista no setor, mas aplica pressão constante sobre suas investidas para que usem dados e automação para ganhar produtividade.
Uma das empresas do portfólio já está em estágio avançado no uso de tecnologia para inteligência comercial, geração de leads e gestão de funil de vendas, embora o backoffice ainda não tenha acompanhado o mesmo ritmo. A gestora mantém uma área de “data creation” com parte relevante do time dedicada à agenda de IA, mapeando como as ferramentas podem ser aplicadas em cada uma das investidas.
O mantra interno, segundo Donato, é uma pergunta que o gestor precisa se fazer com frequência: a tecnologia melhora ou mata o negócio?
Captação num ambiente adverso
O otimismo com o portfólio convive com um diagnóstico duro sobre o ambiente de captação. “A taxa de juros coloca o CDI correndo contra a gente. E ainda tem a questão dos títulos incentivados, ou seja, com benefícios tributários. É uma luta dura para colocar capital produtivo no Brasil”, admite Donato.
A isso se soma o baixo nível de reciclagem de capital no mercado, reflexo de um ambiente de M&A menos aquecido e de um mercado de capitais com liquidez restrita. “A atividade de fusões e aquisições continua acontecendo, mas quando o mercado de capitais está líquido, os M&As acontecem com mais pujança.”
Para o executivo, o modelo de club deal tem se mostrado mais eficiente nesse cenário, atraindo investidores que se sentem menos confiantes no modelo tradicional, em que investem em um fundo, sem necessariamente saber quais empresas seu dinheiro está financiando. “A visão é que a estrutura de blind pool está muito difícil. Quando levo o deal com os dados da empresa e a expectativa de retorno, dou mais conforto ao investidor.”
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