
Vou ser honesto para vocês: a edição 2026 do South Summit Brazil foi um tanto estranha. Mas novamente sendo honesto, acho que seria ainda mais estranho se ela não fosse assim. Em meio a um ano de eleições, cenário internacional conturbado e empresas e investidores se perguntando sobre o futuro que a IA nos trará, o que se viu no Cais Mauá na última semana até pareceu o mesmo encontro animado e bem-sucedido dos anos anteriores, mas impactado pelas incertezas do momento.
Durante os três dias, com cerca de 23 mil pessoas circulando em meio a momentos de chuva, vento e extremo calor, deu para perceber que dos três principais assuntos do momento por ali, apenas um de fato subiu ao palco: como já era de se esperar, inteligência artificial deu o tom das conversas, em todas as verticais possíveis. Era executivo do Banco do Brasil, da RBS, da Panvel, todos eles comentando como ela impacta os seus negócios.
Tudo bem que, para dar um verniz mais profundo aos procedimentos, o evento trouxe o tema “Human By Design”, uma maneira de instigar o debate de como, no meio de todo esse “auê da IA”, o que sobraria para nós, os humanos. A discussão é válida, e segundo o presidente do South Summit Brazil José Roberto Hopf, “a inovação começa e termina em pessoas”.
O discurso é bonito, mas em tempos em que diversas empresas estão promovendo cortes em suas forças de trabalho, alegando que a inteligência artificial pode tornar seus negócios mais eficientes com menos gente, parece que a conversa precisa ser ainda mais aprofundada – e alguns dos palestrantes enfatizaram isso.
“A base de todo design é a empatia e, todo esse foco em IA pode ser uma completa distração do que é realmente importante, que é como as pessoas se sentem”, disparou Peter Skillman, líder global de design na Philips e um dos convidados internacionais do evento, durante o seu painel no palco principal.
Um evento político?
Apesar de ser um evento privado voltado ao ecossistema de negócios, é preciso deixar claro: o principal patrocinador do South Summit Brazil é público – no caso, o Governo do Rio Grande do Sul. Desde a sua primeira edição, lá em 2022, ele foi um grande palco para o governador Eduardo Leite se posicionar como um grande apoiador do ecossistema de inovação, participando de palestras e caminhando pelo cais fazendo o seu “networking”.
Como não poderia deixar de ser, em ano de eleições isso deixa de ser um detalhe para ser outro assunto central, especialmente em um momento em que Leite desponta como um possível nome da terceira via. Aliás, até convidados do evento aproveitaram o palco do South Summit para demonstrar seu apoio ao governador gaúcho – vide o caso do ex-ministro Armínio Fraga.
Pelo jeito, todo o esforço não rendeu dessa vez, já que o PSD anunciou esta segunda (30) que apoiará Ronaldo Caiado como candidato à corrida presidencial no segundo semestre. Enfim, como todo bom startupeiro, Eduardo Leite pode aproveitar o momento para recalcular sua rota e pivotar seus planos políticos, já que não pode concorrer mais uma vez à cadeira principal no Palácio Piratini.
Aliás, com o futuro do governo gaúcho ainda em aberto, a organização do South Summit Brazil afirma categoricamente que o evento já está maior do que qualquer administração – aliás, ele já está garantido até 2030, segundo um acordo formalizado por Eduardo Leite ainda no ano passado.
Entretanto, caso haja uma mudança de comando político no estado, a fundadora do South Summit Maria Benjumea tem convicção que ele seguirá como parte importante da agenda do governo. Segundo a executiva espanhola, o South Summit está de fato mobilizando e impulsionando o ecossistema de maneira significativa, e não apenas o candidato da situação está ciente disso.
Ela revelou que esteve presente com os diferentes candidatos e representantes e ficou muito feliz em saber que todos entendem a importância do evento. “Isso é, para mim, sempre o mais importante: ver como um tema tão relevante como esse ganha destaque. Se nós inovamos, o mundo cresce e nossas oportunidades crescem”, avalia.
E o fim do mundo?
Claro que falar do fim do mundo é um tanto exagerado, mas todo o medo desencadeado pela recente guerra dos Estados Unidos contra o Irã se tornou um ponto de conversa entre as pessoas presentes. Em coquetéis e conversas de corredor, os impactos do atual cenário geopolítico entraram na pauta.
Entretanto, talvez seja cedo para saber de fato como isso vai impactar tudo daqui para frente, mas segundo algumas fontes ouvidas pelo Startups, a ansiedade é real, e isso sem dúvidas tem seu peso nas decisões, seja de fundadores, investidores ou executivos de grandes empresas.
“A ansiedade já estava grande com as eleições, o que colocou muitas empresas em modo de espera”, afirmou um executivo ouvida pelo Startups durante o evento. Coloque em cima disso uma Copa do Mundo – um momento perfeito para se distrair – e temos aí uma receita perigosa de como se “cancela” um ano em termos de negócios.
Tá, eu admito, cancelar talvez seja uma palavra pesada, mas segundo o que ouvimos de alguns investidores, 2026 virou um grande ano para esperar e observar – aliás, o próprio head do SoftBank no Brasil, Alex Szapiro, disse isso em entrevista com a gente na semana passada.
Mesmo assim, os sinais desse “esfriamento” estavam visíveis no South Summit. Um exemplo disso foi o chamado marketplace, galpões onde ficam os estandes e ativações de grandes empresas. Se no ano passado, entidades governamentais e empresas privadas como Gerdau e Randon dividiam o espaço investindo em grandes estandes, este ano o que se viu foram apenas os representantes públicos.
Inclusive, alguns patrocinadores de edições anteriores, mais alinhados com a pauta de tecnologia e inovação, não voltaram este ano. Em seu lugar entraram marcas de varejo como Renner e Vivo.
O hype persiste
Apesar dos questionamentos e dores de momento, em termos de visitação e animação, o South Summit não perdeu seu apelo. Com mais de sua base de visitantes vinda de fora de Porto Alegre, ele segue firme como um dos eventos-chave da agenda do ecossistema nacional.
Os números corroboram isso: dentro dos mais de 23 mil participantes, foram cerca de mil fundos participando, isso sem contar as mais de 3 mil startups e 7 mil empresas presentes.
Segundo afirmaram alguns participantes em conversa com a reportagem do Startups, ele não serviu tanto para fechar negócio, mas é sempre importante para “encontrar o pessoal e trocar ideias”. “Tem gente que a gente passa o ano inteiro em São Paulo dizendo que vai marcar uma reunião, e encontra aqui e conversa na hora”, destacou um investidor.
No fim das contas, de acordo com o gerente do South Summit Brazil, Wagner Lopes, ser esse grande (e charmoso) ponto de encontro à beira de um cartão postal gaúcho se tornou o principal atrativo, em que os impactos positivos não acontecem imediatamente, mas gera as conexões para que eles apareçam.
“Os nossos indicadores de crescimento estão ligados a melhorar ainda mais esse ambiente de conexões. Espaços como o South Summit são importantes porque acabam sendo ambientes de relacionamento, de debate, de troca entre as pessoas que estão à frente das organizações, das empresas, dos fundos”, destaca o executivo.
Em meio à todas as dúvidas, pelo menos já está confirmado: o South Summit Brazil 2027 acontecerá de 14 a 16 de Abril. Agora resta saber quem serão os novos políticos comandando o país e o estado e se nós estaremos em meio à Terceira Guerra Mundial. Se o Brasil será hexa, isso não é muito uma dúvida: infelizmente, a gente sabe que não será.
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