Skip to main content

Fundo abstrato em tons suaves de azul e branco, com uma forma ondulada composta por pequenos pontos brancos que se expandem horizontalmente, criando a sensação de movimento e fluidez. Elementos geométricos sutis, como pequenos quadrados translúcidos, estão dispersos no espaço, evocando tecnologia, leveza e conectividade em um ambiente visual limpo e moderno. (Spatial UX)

Por Marina Bedeschi

Não é exagero dizer: vivemos a era das telas. Por onde se caminha ou se olha, há telas bidimensionais dentro de um mundo tridimensional nos passando informações sobre tudo: notícias e conversas pelo smartphone, cardápios nos totens de lanchonetes e painéis de LED anunciando a nova série de streaming.

Mas e se, em vez de estarem em telas, essas informações visuais fizerem parte do ambiente, de forma tridimensional? Mais ainda: informações personalizadas para cada pessoa.

Informações digitais sobrepostas, mistas e visualmente conectadas com a nova campanha de uma loja, ou com informações relevantes próximas a um ponto de ônibus. Nesse cenário, o ambiente físico deixa de ser estático para se tornar uma interface viva e responsiva, onde espaços e objetos ganham camadas informativas que interagem com o usuário em tempo real. Com profundidade, dimensão, cores e temas de interesse, as experiências passam a ser hiperpersonalizadas para cada indivíduo, tornando a percepção do mundo físico algo dinâmico e contextualizado.

A nova era da internet, chamada de Spatial Web, promete um mundo mais conectado, mais imersivo e mais inteligente, mas nada disso se torna realidade se não forem construídas boas experiências e boa usabilidade por trás das intenções.

A Spatial Web é a evolução da internet; ela age fazendo a conexão entre o mundo físico ao digital. É como uma camada de informação e conteúdo colocada em cima do ambiente ao redor.

Podemos pensar nela da seguinte forma: Ao olharmos para uma rua, vemos prédios e placas. Na Spatial Web, com o uso de óculos inteligentes parecidos com os de grau, essa mesma rua mostraria setas no chão indicando um caminho, o cardápio do restaurante flutuando na porta e o horário do ônibus aparecendo no ponto antes da chegada. Não é preciso buscar a informação; ela já está presente, ancorada no lugar onde é útil.

Com a Spatial Web vem também uma nova era da experiência do usuário, que os especialistas chamam de Spatial UX (do inglês user experience).

A evolução da UX e a Spatial Intelligence

Para que tudo isso seja possível, é necessário que a experiência do usuário também evolua e acompanhe esse processo, saindo de telas e ocupando o mundo físico. Alguns pontos devem ser tratados com mais atenção, pois se algumas das preocupações atuais se referem à coerência do fluxo com os botões e call-to-actions implementados em uma tela web para mobile, os novos dilemas girarão em torno do ambiente físico desse usuário.

Por exemplo, se uma interface foi projetada para óculos de realidade aumentada, o quanto ela irá obstruir a visão do usuário caso esteja sendo utilizada em um ambiente público? Ou o que fazer caso uma experiência esteja escondendo um extintor de incêndio? São inúmeras as possibilidades e cenários quando extrapolamos o conteúdo das telas para um ambiente tridimensional.

Leia mais: CEO da Anthropic critica venda de chips de IA à China e expõe tensão com a Nvidia em Davos

Adicionalmente, a ergonomia física e cognitiva se torna um pilar crítico no desenvolvimento da Spatial UX. Ao contrário das interfaces tradicionais, o design para o espaço tridimensional deve considerar o conforto postural e a fadiga visual, evitando interações que exijam movimentos amplos ou repetitivos que possam cansar ao longo do tempo. É necessário que os elementos digitais sejam posicionados dentro das zonas de alcance natural e de visão periférica do usuário, garantindo que a tecnologia se adapte à usabilidade e não o contrário, promovendo uma interação orgânica e menos exaustiva.

Nesse contexto, surge o papel da Spatial Intelligence, conceito que atua como o “cérebro”, conferindo à IA a capacidade de perceber, raciocinar e interagir com o mundo de forma similar aos seres humanos, compreendendo a localização, a natureza e o comportamento dos objetos.

Essa tecnologia permite analisar uma sala e não ver apenas uma imagem plana, mas entender que o chão é firme, que a mesa serve de apoio e que a parede é uma barreira sólida. É essa inteligência que permite ao sistema identificar a localização, o tamanho e o comportamento adequado dos elementos.

Do ponto de vista técnico, a Spatial Intelligence atua como uma camada de percepção computacional e inferência semântica, resultado de tecnologias como visão computacional, machine learning e sensores de escaneamento como LiDar ou similares, permitindo que o dispositivo construa uma malha do ambiente e entenda o contexto em tempo real, capturando a posição do usuário em um sistema de coordenadas.

Enquanto o espaço físico é processado, a Spatial UX utiliza essa informação para definir as affordances das interfaces. O termo affordance refere-se à característica que comunica como um objeto deve ser utilizado. Diferente do design para celulares, onde se define a posição fixa de um botão, na Spatial Web não é possível prever a localização do usuário, seja sentado, caminhando ou em um avião, o que exige a integração entre Spatial UX e Intelligence.

A necessidade da intenção

Para alcançar esse futuro, são necessárias mudanças estruturais, incluindo a questão da escalabilidade. A Spatial Web demanda uma quantidade absurda de dados transmitidos em tempo real.

Diferente da internet de hoje, onde se aguarda o carregamento de um vídeo, na Spatial Web, se a imagem de um objeto virtual atrasar meros milissegundos enquanto você vira a cabeça, a ilusão de realidade é interrompida, podendo causar mal-estar e até náuseas ao usuário. Uma rede tradicional, configurada manualmente, é lenta e estática demais para garantir essa velocidade constante para bilhões de dispositivos que se movem ao mesmo tempo.

É aqui que a Intent-Based Networking, ou Internet por Intenção, se torna a base obrigatória, permitindo que a Spatial Web comunique uma “intenção de negócio” em vez de apenas solicitar largura de banda. Por exemplo, imagine que um cirurgião inicia uma operação remota usando óculos de realidade virtual.

O sistema envia a intenção de que a conexão requer prioridade máxima. A rede recebe o pedido e, por meio de inteligência artificial, reconfigura automaticamente os roteadores, priorizando esse tráfego sobre atividades menos críticas, como alguém baixando um e-mail, e cria um caminho expresso para a cirurgia.

Sem essa automação e capacidade de adaptação, a Spatial Web permaneceria um conceito visual, mas impraticável devido à instabilidade das conexões atuais, pois a tecnologia traduz a necessidade virtual em configurações físicas instantâneas.

O espaço como interface

Para que essa evolução seja positiva, é necessária uma legislação coesa, que incentive e regule de forma justa. Isso implica em um ambiente regulatório que evite leis puramente restritivas à inovação, focando na criação de diretrizes que protejam a integridade do espaço físico e a privacidade dos dados coletados no ambiente.

Da mesma forma, a atuação de designers conscientes é indispensável para evitar o desenvolvimento de experiências prejudiciais, como interfaces saturadas de publicidades invasivas ou arquitetura de informações mal planejadas que possam causar sobrecarga ou danos ao bem-estar dos usuários.

A nova era da internet será repleta de informações personalizadas e únicas, cabendo aos usuários filtrar com o que pretendem interagir no futuro. Ao consolidar esse equilíbrio entre ética, responsabilidade e tecnologia, abre-se caminho para um futuro em que a Spatial Web não apenas amplia nossas capacidades, mas torna o mundo ao nosso redor um espaço mais intuitivo, conectado e repleto de novas possibilidades.

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!