
O ambiente regulatório dos países muda a todo instante, especialmente em regiões emergentes, como a América Latina. E entender esse contexto é fundamental para a operação das companhias de grande porte. Ex-diretor de Planejamento da Colômbia, Luis Alberto Rodríguez percebeu que o trabalho que consultorias fazem hoje nesse mercado, a inteligência artificial poderia fazer melhor, com mais agilidade e menor custo. Foi a partir daí que nasceu a Dapper, em 2024.
A startup colombiana desembarca no Brasil em junho com clientes como Coca-Cola, TikTok, Philip Morris International e General Motors já na carteira, e a ambição de se tornar o primeiro unicórnio de IA da Colômbia.
Com o título de vice-ministro técnico mais jovem da Colômbia, Luis Alberto Rodríguez assumiu o posto no Ministério da Fazenda e Crédito Público do país em 2018. Em 2019, assumiu a pasta de Planejamento, permanecendo até julho de 2021, durante a pandemia. Depois disso, atuou como consultor, quando percebeu que havia no mercado uma demanda por uma solução como a Dapper.
Além da experiência profissional, o fundador também acumula um histórico acadêmico de peso, com MBA em gestão de políticas públicas pela Columbia University e visiting fellow no MIT. Ao longo de sua trajetória, Luis Alberto fez parte do conselho de instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF).
“Nos mercados emergentes, o Estado produz diariamente informações críticas para as empresas, mas grande parte delas não chega de forma estruturada nem no momento adequado. A Dapper reduz esse problema com tecnologia”, aponta.
Com 52 clientes ativos e receita anual superior a US$ 1 milhão, a empresa começou a operar apoiada por uma rodada Seed de US$ 600 mil, liderada pelo fundo colombiano EWA Capital. A startup agora planeja levantar uma Série A até o final deste ano.
A previsão é encerrar 2026 com US$ 4 milhões de receita: quatro vezes o patamar atual e 15 vezes o volume registrado em 2024.
Três problemas
O modelo de negócios da Dapper parte de um diagnóstico sobre como grandes corporações globais lidam com o monitoramento regulatório. Segundo o CEO, o processo tradicional, feito normalmente por consultorias especializadas, tem três falhas estruturais.
A primeira é velocidade: a informação sempre chega tarde, porque depende de analistas humanos para processar um volume enorme de dados. A segunda é personalização: Coca-Cola e PepsiCo, por exemplo, chegam a incluir cláusulas de exclusividade nos contratos com consultores justamente porque sabem que estão recebendo análises genéricas. A terceira é custo: os profissionais capazes de entregar esse tipo de inteligência – ex-ministros como o próprio Luis Alberto, por exemplo – cobram caro.
“Com IA, conseguimos resolver os três problemas ao mesmo tempo”, aponta o fundador da Dapper. “Podemos rastrear todos os governos simultaneamente, em tempo real. Não só o que está sendo discutido no Congresso, por exemplo, mas até o que o presidente Lula está dizendo em Davos, em tempo real”.
A plataforma monitora mais de 500 fontes públicas, incluindo votações no Congresso, decretos do Executivo, decisões de agências reguladoras e discursos de autoridades. No onboarding, cada cliente define palavras-chave, temas e pessoas que quer acompanhar. O sistema vai aprendendo com o comportamento do usuário e afina as recomendações ao longo do tempo, numa lógica parecida com o algoritmo do TikTok.
A personalização também vai além da empresa: dentro de uma mesma organização, a área financeira pode receber alertas sobre temas fiscais, por exemplo, enquanto a equipe de relações institucionais acompanha outro conjunto de pautas.
O potencial brasileiro
A Dapper completou dois anos em março de 2026. No primeiro ano, a plataforma cobria apenas a Colômbia – mercado que, mesmo com o CEO sendo um especialista no país, levou 12 meses para ser estruturado. No segundo ano, Peru, México e República Dominicana foram adicionados em um quarto desse tempo. Hoje a startup opera em sete países e a meta é chegar a 16 até o final do ano.
O Brasil foi escolhido como próxima parada da expansão por uma combinação de fatores. Além do tamanho do mercado, o país é um dos mais regulados da América Latina, segundo a Dapper. Em 2025, foram apresentados 51.458 projetos de lei entre Câmara e Senado, quatro vezes mais do que o segundo colocado na região. Nos diários oficiais, são publicados cerca de 330 documentos por dia.
“Minhas expectativas estão altas para a operação no Brasil. Comparado a outros países, como a própria Colômbia, o Brasil é altamente regulado, tanto em mercados como energia e finanças, como até mesmo o segmento de alimentos e bebidas. Entendemos que a tecnologia vai chegar para resolver muitos problemas nesse sentido”, observa Luis Alberto.
Além do volume regulatório, a Dapper já tem clientes operando no Brasil, e poderá expandir o serviço para o país sem precisar conquistar novos contratos do zero. A plataforma, que até então operava em espanhol e inglês, agora também está disponível em português.
Para depois da Série A, o plano é expandir para o Oriente Médio e Norte da África, onde clientes como o DiDi – dona da 99 no Brasil – já sinalizaram interesse imediato.
Em 2026, a Dapper foi reconhecida pela Fast Company como uma das empresas mais inovadoras do mundo – lista que já incluiu nomes que se tornaram players de referência no mercado, como Nubank, Rappi e Mercado Livre.
“Queremos fazer pelo setor de assuntos públicos o que a Enter fez pelo jurídico”, diz o CEO. “Queremos ser o primeiro unicórnio colombiano de IA.”
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