
Num mundo em que cabos e fones de ouvido quebram rápido e viram lixo em poucos meses, uma startup de Curitiba decidiu seguir na contramão da lógica descartável. Com operações iniciadas em 2020, a Händz aposta na combinação entre tecnologia e responsabilidade ambiental para transformar acessórios do dia a dia em produtos pensados para durar — e para causar menos impacto no planeta.
No lugar de plásticos convencionais, entram em cena materiais como bambu, fibra de trigo, cortiça, cânhamo e plásticos reciclados — como PET reaproveitado e R-ABS (plástico reciclado de alta resistência obtido a partir da reutilização do ABS, sigla para acrilonitrila butadieno estireno, comum em eletrônicos). Esses insumos dão forma a cabos, power banks, carregadores sem fio, fones e caixas de som.
A proposta sustentável posiciona a Händz no segmento eco-friendly premium e contribuiu para um faturamento de R$ 5 milhões em 2025, com projeções de crescimento da empresa em 20% para 2026. Apesar de ser bootstrap, a companhia não descarta a possibilidade de abrir uma rodada no futuro.
“Começamos com um investimento inicial de R$ 50 mil em 2020, e desde então a Händz sempre foi bootstrap, sempre se autofinanciou. Nunca teve investimento externo. Mas estamos abertos a fazer uma rodada no futuro, fazer algum movimento com o mercado para a gente tentar alcançar novos números”, revela o fundador e CEO Rodrigo Lacerda ao Startups.
Hoje, a empresa foca no Brasil antes de abraçar uma oportunidade internacional, com 85% das vendas sendo B2B (para lojas de eletrônicos, de celulares e papelarias) e 15% do próprio e-commerce (site).
“Comprar menos, mas comprar melhor”
Para quem não é familiarizado com tecnologia ter um parâmetro, hoje, os acessórios/periféricos possuem uma produção em escala, ampla variação de preços e promessas semelhantes. Um exemplo disso seria um simples cabo: entre um de baixo custo e outro mais sofisticado, a função é a mesma (carregar um celular ou outro dispositivo USB-C/Lighting), mas o que muda está na composição interna, na qualidade dos componentes e na vida útil projetada.
A lógica que prevalece, ainda que raramente declarada, é a do ciclo curto: produtos que duram pouco, quebram com facilidade e rapidamente são substituídos. O resultado é um consumo acelerado, alimentado pela sensação de que é mais simples e barato comprar outro do que exigir durabilidade.
Nesse cenário, o fundador resume a proposta da marca de forma direta: a ideia é “comprar menos, mas comprar melhor”. Conforme ele, o esforço da empresa nos últimos anos tem sido menos sobre vender volume e mais sobre conscientizar o consumidor de que investir em um produto com maior vida útil (que pode durar três ou quatro anos) reduz desperdício, evita compras recorrentes e questiona a cultura do descarte automático.
“Nosso trabalho não é nem de vender o produto em si, mas de mostrar que existem opções com mais qualidade e responsabilidade. Quando a pessoa entende o que está por trás do produto, os materiais, a durabilidade, o impacto, ela passa a escolher melhor. A pessoa vai optar por um produto que seja sustentável, que tenha ACVs (Avaliações do Ciclo de Vida)”, apontou Rodrigo.

Ainda de acordo com o executivo, a Händz possui três pilares: o que tem de mais tecnológico, design diferenciado e, por fim, sustentabilidade. Para equilibrar esses três pontos, sem que um comprometa o outro, a empresa investe em testes intensos e validações antes de colocar qualquer item no mercado. A proposta é garantir que o apelo ecológico venha acompanhado de desempenho e resistência.
Durabilidade é uma das prioridades para a empresa. Segundo Rodrigo, a marca realizou milhares de testes apenas na extremidade do produto, região conhecida por ser vulnerável. “A gente testou essa ponta mais de 50 mil vezes para garantir que ela não quebre com facilidade. Por dentro, usamos materiais como Kevlar, o mesmo tipo de fibra aplicado em coletes à prova de bala, para dar mais resistência”, afirma.
Apesar dos testes rigorosos, um dos principais desafios enfrentados pela marca, conforme o fundador, é quebrar a percepção de que produto reciclado é sinônimo de baixa qualidade. “O primeiro obstáculo é tirar essa ideia de que material reciclado é produto vagabundo”, afirma.
A resistência, conta ele, aumenta quando entra em cena outro estigma: o fato de os produtos serem fabricados na China. Embora a produção ocorra no país, o fundador diz que há quem associe automaticamente a origem a itens descartáveis. Para contornar essa visão, a empresa investe em certificações e homologações, incluindo as exigidas por grandes fabricantes e selos internacionais de conformidade.
“Existe um paradigma quando se fala em fabricar na China, mas hoje quase tudo é produzido lá. A diferença está no processo. Eu visito pessoalmente os fornecedores e certifico que todos cumprem normas sanitárias, trabalhistas e ambientais. Trabalhamos apenas com fábricas que possuem certificações internacionais, como o Global Recycle Standard, que garante padrões globais de reciclagem e boas práticas. A gente fala de todo um contexto de reutilização de água, de utilizar energia renovável, de processos com pessoas que tornam o negócio mais humanizado”, explica.
O executivo também aponta que, no início, o preço foi uma barreira, já que matérias-primas sustentáveis tendem a encarecer a produção. A estratégia foi reduzir margem para se manter competitivo e provar que qualidade e sustentabilidade não são excludentes. Hoje, já tendo superado essa dificuldade, ele afirma que os produtos conseguem competir em pé de igualdade — ou até superar — modelos tradicionais em durabilidade e desempenho.

Além de buscar garantir ética ambiental nos processos de produção, a estratégia da empresa avança também para o pós-consumo. A Händz vem estruturando um modelo de logística reversa para fechar o ciclo dos produtos: após a venda e o uso, itens com defeito ou já inutilizados podem ser devolvidos à marca, que os recebe, testa e armazena até reunir volume suficiente para o descarte correto.
Em parceria com uma empresa especializada em Curitiba, os componentes eletrônicos são separados e destinados de forma adequada, com placas sendo revendidas e partes externas trituradas e reaproveitadas em novos materiais.
Ações com grandes marcas
Além das vendas diretas ao consumidor, a Händz também realiza projetos pontuais com grandes empresas interessadas em brindes corporativos com apelo sustentável. Segundo Rodrigo Lacerda, a marca já desenvolveu ações para companhias como Coca-Cola, iFood, Bunge, Stihl e Intel, normalmente em campanhas específicas voltadas a colaboradores ou clientes. Esses projetos, no entanto, não fazem parte de contratos recorrentes e costumam surgir de demandas pontuais.
De acordo com o fundador, a procura por esse tipo de parceria tem crescido à medida que empresas buscam fugir dos brindes corporativos tradicionais. “As empresas estão tentando sair um pouco da lógica de caneta, caneca e bloquinho e passaram a buscar presentes com propósito, que tenham valor percebido para quem recebe”, afirma. Como os produtos da Händz podem ser personalizados, o modelo acaba sendo atrativo para companhias que querem oferecer itens tecnológicos e sustentáveis.
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