
A Stenon, agtech alemã especializada em análise de solo em tempo real, anunciou uma captação de €18 milhões em Série B (aproximadamente R$ 106 milhões). Os recursos serão usados para acelerar o desenvolvimento de novos produtos e a expansão em mercados onde a empresa já atua, com foco em manejo de nitrogênio e monitoramento de carbono orgânico do solo.
A rodada foi liderada pela Pymwymic, gestora europeia voltada a investimentos de impacto em alimentos e agricultura. O aporte também contou com a entrada do DeepTech & Climate Fonds (DTCF), fundo alemão especializado em escalar empresas de deep tech. Participaram ainda investidores já presentes na base acionária da companhia, como Atlantic, Oyster Bay, Founders Fund, TIME Ventures — veículo de investimento de Marc Benioff — e Bernd Hoffmann, ex-executivo da AGCO e da Claas KGaA.
Em um cenário de custos elevados dos fertilizantes e maior pressão por eficiência no campo, a proposta da Stenon é aumentar a precisão das decisões de adubação. “Quando o nitrogênio está caro ou limitado, cada aplicação imprecisa vira custo, risco e perda de eficiência. Produtores e distribuidores brasileiros não controlam câmbio, preço internacional ou disponibilidade global de fertilizantes, mas podem controlar com muito mais precisão como cada quilo é usado”, afirma Niels Grabbert, fundador e CEO da empresa, em comunicado.
Para isso, a empresa mede, diretamente no campo, o nitrogênio disponível para a planta (Nmin) e cruza essa informação com o carbono orgânico do solo (SOC, na sigla em inglês) e outros indicadores. Os dados orientam a definição da dose, do momento e do local de aplicação dos fertilizantes, além de acompanhar a condição do solo ao longo do tempo — informação que pode influenciar a produtividade e apoiar iniciativas ligadas a créditos de carbono.
Segundo o executivo, a solução da Stenon melhora as decisões de fertilização e amplia a capacidade de monitorar a produtividade do solo. Com base em casos de clientes em diferentes países, a empresa afirma ter obtido redução de 20% a 40% no uso de fertilizantes nitrogenados e ganhos de produtividade entre 2% e 8% em culturas como milho, feijão, algodão, cana-de-açúcar, café, grãos e hortaliças.
A tecnologia é baseada no FarmLab, plataforma que combina sensores ópticos e elétricos próprios, inteligência artificial, modelos agronômicos e software em nuvem. Em vez de aguardar o resultado de uma análise laboratorial, o produtor obtém medições em tempo real, pode monitorar o solo com maior frequência e ajustar a fertilização conforme as variações observadas dentro da própria lavoura.
Segundo a Stenon, não há atualmente outra tecnologia disponível comercialmente capaz de medir o nitrogênio disponível para a planta diretamente no campo na mesma escala.
Para onde vai o investimento
Parte dos recursos será destinada à expansão das equipes comercial, agronômica e de suporte na América do Sul, com o Brasil como mercado prioritário, além da Ásia Central e de mercados europeus selecionados, onde a companhia já atua. A Stenon também pretende investir na calibração agronômica regional, na adaptação do produto a diferentes tipos de solo, culturas e sistemas de produção e na evolução do FarmLab nas frentes de nitrogênio e carbono orgânico do solo (SOC).
O plano mais ambicioso, no entanto, é tecnológico. A companhia deseja transformar um sistema portátil de sensoriamento, já validado em campo, em uma plataforma de inteligência de nutrientes integrada a máquinas agrícolas e capaz de fornecer dados em tempo real. Segundo a empresa, essa tecnologia vem sendo desenvolvida de forma confidencial há alguns anos sobre a base de sensores, dados e inteligência artificial do FarmLab. Por enquanto, a companhia não detalha como o produto irá funcionar.
“O FarmLab comprovou que dados de alta qualidade sobre nitrogênio e SOC podem ser gerados diretamente no campo. O próximo passo é tornar essa inteligência mais contínua, mais integrada e mais acionável para operações agrícolas de grande escala. Estamos construindo um sistema em que decisões de nutrientes sejam apoiadas por dados em tempo real exatamente no ponto em que essas decisões são tomadas”, diz Jens Meichsner, CTO da Stenon, em nota oficial.
A Stenon no Brasil
O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, segundo o Plano Nacional de Fertilizantes, e a relação entre produção e consumo nacional de fertilizantes nitrogenados era de apenas 8% em 2023, de acordo com análise do Insper. Nesse cenário de dependência externa e preços voláteis, aumentar a precisão no uso de nitrogênio deixou de ser apenas uma questão agronômica para produtores, cooperativas, revendas e consultorias. Tornou-se também uma forma de proteger as margens do setor.
É nesse contexto que a Stenon busca expandir sua atuação. Fundada em 2018, a empresa concentra as operações em Goiás, Mato Grosso, Paraná e São Paulo, estados onde o custo dos fertilizantes e a falta de dados atualizados sobre o solo afetam diretamente a rentabilidade das lavouras.
Fora do Brasil, a companhia também está presente na Ásia Central e em mercados europeus selecionados, adaptando seus modelos e recomendações às características dos solos e às práticas agrícolas de cada região.
Novos sócios europeus
A entrada da Pymwymic e do DTCF amplia a base de investidores da Stenon com dois perfis complementares. De um lado, uma gestora especializada em investimentos de impacto nos setores de alimentos e agricultura. De outro, um fundo voltado ao financiamento de longo prazo de empresas de deep tech.
A companhia é a 16ª do portfólio do Healthy Food Systems Impact Fund II, atualmente gerido pela Pymwymic. Já o DTCF administra um fundo de € 1 bilhão e realiza aportes de até € 50 milhões como investidor-âncora em startups de deep tech sediadas na Europa.
“Dados de solo em tempo real são infraestrutura para a agricultura moderna, e a Stenon construiu a base para entregá-los em escala”, afirma Achim Plum, managing director do DTCF. “Produtores hoje tomam decisões de fertilização de alto valor com base em dados de solo de semanas atrás. A Stenon fecha essa lacuna diretamente no campo, apoiada por um sistema de sensores genuinamente difícil de replicar e um modelo escalável de hardware e SaaS.”
Para Rogier Pieterse, managing partner da Pymwymic, a tese da startup reúne ganhos ambientais e econômicos. “A Stenon está em uma posição rara, onde melhorar a saúde do solo e fortalecer a economia da fazenda andam lado a lado. Sua tecnologia dá aos produtores dados melhores, permitindo uso mais eficiente de insumos e criando a base para solos mais produtivos e resilientes”, destaca.
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