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Manifest Vegas | Foto: Divulgação
Manifest Vegas | Foto: Divulgação

*Por Carlos Lopes, managing partner da BluStone

O Manifest Vegas consolidou-se como um dos principais fóruns globais de inovação em supply chain. Ao liderar a comitiva da BluStone, ao lado de Stefan Rehm, fundador da Intelipost, nossa agenda foi objetiva: observar tecnologias já operando em escala, entender sua viabilidade econômica e avaliar quais dessas soluções podem ser adaptadas à realidade brasileira.

Três vetores estruturais ficaram evidentes.

Não existe IA em supply chain sem dados limpos e padronizados

Na supply chain, a inteligência artificial dominou o debate, mas o foco não foi o algoritmo — foi a qualidade da base de dados.

Projetos de automação exigem padronização de processos, governança informacional e integração entre sistemas. Sem essa fundação, a tecnologia permanece restrita a pilotos com baixo impacto sistêmico.

Empresas que estruturam suas bases de dados e alavancam ferramentas digitais de logística registram melhorias operacionais de 10% a 20% no curto prazo, podendo alcançar 20% a 40% em dois a quatro anos, segundo estudo da McKinsey sobre digitalização logística.

Não se trata mais de decidir se a IA será adotada ou não, mas de organizar os dados para capturar ganhos reais de produtividade alavancando a IA. No Brasil, onde a digitalização da logística e da supply chain ainda é heterogênea, o desafio é estrutural antes de ser tecnológico.

Talentos e cultura são o novo gargalo da supply chain

Apesar da sofisticação tecnológica apresentada, os principais desafios relatados foram organizacionais.

Empresas  da supply chain relatam dificuldade em contratar profissionais com domínio técnico em IA, mas o problema é mais profundo. O valor da tecnologia só é capturado quando existe treinamento estruturado, alinhamento interno e gestão de mudança efetiva suportada pela liderança.

Além da atração e retenção de talentos, surge um desafio adicional: o redesenho de organogramas e fluxos operacionais para um ambiente em que humanos e sistemas autônomos operam de forma integrada. Isso implica revisar papéis, métricas de desempenho, responsabilidades e interfaces entre equipes e sistemas.

O impacto não se limita à estrutura interna. É necessário alinhar públicos estratégicos — fornecedores, parceiros tecnológicos, operadores e clientes — para capturar plenamente os benefícios da inovação. A IA em supply chain é interdependente por natureza; sua eficácia depende de integração ao longo de toda a cadeia.

A próxima fase da logística será definida menos pela tecnologia isolada e mais pela capacidade de atrair talentos e liderar uma transformação cultural interna e externa, com governança clara e coordenação entre os agentes envolvidos.

Automação em escala já redefine a supply chain

Um dos pontos mais relevantes para a supply chaim foi observar tecnologias já em uso comercial nos Estados Unidos, com viabilidade econômica comprovada.

Robôs autônomos operam centros de distribuição 24 horas por dia, com alta disponibilidade e baixa variabilidade operacional. Drones vêm sendo utilizados para entregas de curta distância, reduzindo tempo de deslocamento em trajetos específicos. Dentro dos armazéns, drones dedicados à contagem contínua de estoque elevam a acurácia para níveis próximos a 99%, reduzindo perdas e retrabalho.

Essas aplicações já fazem parte da rotina operacional de grandes operadores.

Os impactos são mensuráveis: melhoria de SLAs, maior previsibilidade nas entregas, redução de custos por unidade movimentada, melhor utilização de ativos logísticos e mitigação do risco associado à escassez de mão de obra qualificada.

Em um setor de margens comprimidas e crescente dificuldade de contratação, a automação deixa de ser apenas vetor de eficiência e passa a ser instrumento de resiliência operacional.

No Brasil, essas tecnologias ainda não estão amplamente disseminadas. Mas a lógica competitiva é clara: quem não iniciar essa transição agora tende a perder relevância ao longo do tempo.

O desafio da supply chain brasileira é execução

Se em mercados mais desenvolvidos muitas dessas soluções já operam em escala, no Brasil a adoção ainda é incipiente.

O debate central não é se a tecnologia chegará, mas com que velocidade e com que rigor será implementada.

Supply chain é um setor de eficiência cumulativa. Pequenas melhorias sustentadas ao longo do tempo geram impacto relevante em margem, nível de serviço e competitividade.

O Manifest deixou evidente que a próxima década da logística será definida por três fatores: base de dados estruturada, liderança capaz de atrair talentos e redesenhar organizações e capacidade de implementação consistente de novas tecnologias.

O diferencial competitivo virá de quem conseguir transformar inovação em eficiência operacional recorrente — com dados estruturados, pessoas preparadas e processos bem definidos.

O post Supply chain: tecnologia já chegou, mas o Brasil está pronto para a nova logística? apareceu primeiro em Startups.