
O South by Southwest (SXSW) chegou à sua 40ª edição de um jeito diferente. Com o Austin Convention Center em reforma, o SXSW 2026 se espalhou por hotéis, ruas e venues do centro da cidade entre os dias 12 e 18 de março. Mais compacto e descentralizado na forma, o evento não perdeu peso. Foram mais de 850 sessões, 4.400 músicos em mais de 300 showcases e cerca de 450 marcas ativando pela cidade.
O Brasil chegou como protagonista. Cerca de 1,5 mil brasileiros passaram por Austin, com ao menos 40 speakers nacionais nos palcos. A SP House retornou ampliada, com 2.200 m² na Congress Avenue, e o estado de Minas Gerais estreou com a Casa Minas, na Rainey Street. E, como pano de fundo permanente de toda a semana, a inteligência artificial não mais como promessa futurista, mas como realidade que cobra posicionamento.
IA e o cérebro: o painel que deu o tom de toda a edição
A abertura oficial foi conduzida por Greg Rosenbaum, vice-presidente de programação do festival. Mas foi o primeiro grande painel técnico que fixou o tema da semana. “AI & the Brain: As We Embrace AI, Let’s Not Forget Our Minds” reuniu Sanjay Sarma e Olivia Joseph, do MIT, Chris Gabrieli, do Massachusetts Board of Higher Education, e Izzat Jarudi, do Edifii. A questão central foi direta: à medida que sistemas de IA crescem em poder e presença, o que está acontecendo com a capacidade humana de explorar, aprender, raciocinar e criar?
“Estamos flertando com a atrofia do cérebro. Nosso sistema educacional foi desenhado para ensinar aquilo que pode ser escrito em um livro. Mas uma enorme parte do conhecimento humano é implícita.
Sarma estendeu a crítica ao modelo educacional tradicional, construído com foco em conhecimento explícito, exatamente o tipo de tarefa que a IA executa melhor. O paradoxo: o sistema escolar preparou estudantes para as funções mais automatizáveis. Chris Gabrieli foi ainda mais direto ao nomear o que vê: “É uma crise global da educação.” Para ele, universidades enfrentam três pressões simultâneas: ferramentas de IA que tornam avaliações tradicionais obsoletas, queda na confiança no retorno financeiro do ensino superior e mudanças aceleradas no mercado de trabalho.
A futurista sintética e a pergunta que ninguém quer responder
Uma das sessões mais comentadas do festival foi a estreia de Delph, apresentada como a “primeira futurista sintética do mundo”. O sistema foi construído a partir da inteligência coletiva de centenas de futuristas mulheres e colocado no palco ao lado de Sarah DaVanzo e Faith Popcorn, CEO da Faith Popcorn Brainreserve. A questão de fundo era incômoda: se a IA já consegue condensar repertórios, simular públicos e responder em tempo real, qual é o papel do humano no exercício de imaginar o futuro?
Quando instigada a provar que não era uma câmera de eco, Delph respondeu com cautela que busca analisar impactos socioeconômicos e vozes historicamente excluídas. O momento mais simbólico: provocada sobre se poderia substituir uma mãe no cuidado de duas filhas, a IA recuou. Disse que poderia oferecer suporte, mas que a conexão humana e as nuances emocionais da maternidade são únicas. A resposta importa porque revela o tipo de limite que o próprio discurso em torno dessas tecnologias começa a demarcar.
Scott Galloway e a economia da dopamina
Numa gravação ao vivo do podcast Pivot, o professor de marketing da NYU Scott Galloway apresentou uma leitura incômoda sobre o momento atual. Para ele, plataformas digitais, IA e novos modelos de monetização on-line estão cruzando uma nova fronteira de comportamentos sociais e saúde mental.
Galloway apontou que boa parte das empresas digitais mais valiosas do mundo opera em modelos que maximizam engajamento e dependência em redes sociais, apostas on-line, criptomoedas. Ele também levantou a concentração de poder político em mãos de bilionários do setor tech, citando que esses responderam por cerca de 19% das doações nas eleições federais americanas de 2024.
Amy Webb mata o Trends Report e anuncia a “era da convergência”
A palestra mais aguardada do festival foi também a mais surpreendente. Amy Webb, CEO do Future Today Strategy Group e referência anual no SXSW por seu relatório de tendências tecnológicas, subiu ao palco e anunciou o “fim” do Trends Report que apresentava há quase duas décadas. O salão estava decorado com flores. Todos vestiam preto.
A mensagem por trás do “funeral” foi um alerta: o mundo está mudando rápido demais para que um PDF estático de tendências isoladas continue sendo útil. Webb declarou que vivemos agora a Era da Convergência, em que mudanças tecnológicas, econômicas, geopolíticas e sociais colidem e se amplificam. No lugar do relatório tradicional, lançou o Convergence Outlook 2026, um guia desenhado para ajudar líderes a decidirem o que fazer, não apenas o que esperar. Identificou três grandes convergências: o corpo humano se tornando plataforma (com amplificação cognitiva e wearables), a chegada do trabalho ilimitado via automação e IA, e o que chamou de “emotional outsourcing” — a transferência crescente de funções emocionais humanas para máquinas.
IA precisa ser mais humana (e menos hype)
O evento também contou com o painel com Rana el Kaliouby, cientista egípcio-americana que estuda computação afetiva. Para ela, a indústria está obcecada com o QI das máquinas e ignora emoções.
El Kaliouby alertou para a concentração de poder na indústria de IA, amplamente dominada por homens tanto na fundação de startups quanto no financiamento. Ela também apontou sinais clássicos de euforia de mercado: startups captando centenas de milhões sem produto ou receita, e estruturas circulares de investimento.
Steven Spielberg: o melhor amigo de qualquer cineasta é a intuição
A sexta-feira reservou o keynote mais aguardado em termos de celebridades. Steven Spielberg foi entrevistado por Sean Fennessey, do podcast The Big Picture, numa conversa sobre o futuro do cinema e o papel da criatividade em um mundo cada vez mais pautado pela IA. O diretor lotou a sala e falou sobre como o ambiente digital está mudando o ritmo da narrativa audiovisual.
“O melhor amigo de qualquer cineasta é a intuição. Quando se chega ao set de manhã, existe um dia inteiro de possibilidades ainda não descobertas”, afirma Steven Spielberg, diretor, no SXSW 2026.
Para Spielberg, muitos momentos criativos surgem justamente quando o processo não está totalmente planejado. Essa abertura ao inesperado, segundo ele, é uma das principais diferenças entre a criatividade humana e processos automatizados. A declaração ecoou pelo festival como síntese do que vinha sendo discutido nos dias anteriores.
Brasil leva startups e aposta na internacionalização da inovação
O Governo do Estado de São Paulo levou ao SXSW dez startups paulistas pelo programa SP Global Tech, em parceria com a InvestSP. As empresas atuam em áreas como biotecnologia aplicada ao agronegócio, IA para análise de dados, gestão de emissões de carbono, sensoriamento para prevenção de desastres e saúde digital.
Produtivos, conectados — mas cada vez mais sozinhos
Na sexta-feira, Ian Beacraft e Kasley Killam, numa conversa organizada pela White Rabbit e o WhatsApp, colocaram o dedo numa ferida que a semana toda havia evitado nomear diretamente: a automação não está gerando tempo livre. Está apenas preenchendo espaço com mais trabalho.
“Durante décadas ouvimos que máquinas e tecnologia nos dariam mais tempo para lazer e para viver melhor. Mas isso nunca aconteceu. Na prática, continuamos apenas preenchendo o tempo com mais trabalho”, disse Kasley Killam, especialista em saúde social e autora de “A arte e a ciência da conexão”
Beacraft e Killam defenderam que o avanço da IA pode amplificar um problema já evidente nas organizações: a desconexão entre as pessoas. Quando empresas aceleram a adoção de agentes de IA capazes de executar tarefas de forma autônoma, o tema se torna urgente.
O que ficou do SXSW 2026
Ao longo dos seis dias, o festival reforçou uma mudança importante no entendimento de inovação. A tecnologia, tratada nos primeiros dias como principal vetor de transformação, foi se firmando como infraestrutura já estabelecida. O diferencial deixou de estar nas ferramentas e passou a se concentrar na forma como elas são utilizadas, especialmente para potencializar o fator humano.
Se há um aprendizado que atravessa toda a 40ª edição, ele pode ser resumido assim: não se trata mais de descobrir o que a IA pode fazer. Trata-se de entender como conviver com ela sem abrir mão daquilo que só humanos fazem: criar com surpresa, decidir com contexto, construir confiança com tempo.
Confira a cobertura completa do IT Forum no link.
Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!


