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Grace Libanio, CRO da Sofist. Foto: Divulgação

Por muitos anos, Grace Libanio não tinha um plano para trabalhar com tecnologia. Tinha, isso sim, urgência. Urgência de mudar de vida, de ampliar horizontes, de não repetir limites. Filha mais velha de quatro irmãs, criada em Itu, no interior de São Paulo, estudante de escola pública, bolsista na PUC Campinas, ela aprendeu cedo que ter iniciativa não é opção, é chave.

Antes mesmo da universidade, trabalhou com vendas porta a porta. “Era minha iniciativa de mudar de vida”, diz. A experiência ensinou algo que mais tarde se revelaria decisivo, a capacidade de conversar, de ouvir, de insistir. Não era tecnologia. Era sobre pessoas.

Em 2012, ainda estagiária de Relações Públicas na Universidade de Campinas (Unicamp), viu uma vaga focada em geração de leads. A descrição pedia o envio de um texto, não de um currículo. Aquilo chamou sua atenção. “Era diferente. Era mais ágil. Tinha impacto.” Para se preparar, pediu ajuda a um vizinho engenheiro para entender o que eram testes de software.

Não imaginava que aquele gesto marcaria o início de uma carreira que a levaria, mais de uma década depois, ao cargo de Chief Revenue Officer (CRO) e sociedade da Sofist, empresa de qualidade de software.

Entrou como estagiária de geração de leads na Sofist. Prospectava clientes por telefone, muitas vezes falando com agências de comunicação. Foi responsável por abrir portas para o serviço One Day Testing, ainda quando qualidade de software era vista como um custo.

“Como venho de Relações Públicas, sempre vi a tecnologia de outro jeito”, conta. “Quem não trabalha com código trata a tecnologia como se fosse algo escondido em uma caixa. Mas tecnologia tem muito mais a ver com colaboração.” Para ela, o desenvolvimento de software não é uma abstração técnica, mas um exercício coletivo. É sobre entender contexto, dialogar, criar valor para alguém. “Isso me fez continuar.”

Da colaboração à inteligência artificial

Hoje, como CRO da Sofist, Grace acompanha uma nova virada, a chegada massiva da inteligência artificial (IA) às empresas. E ela observa o fenômeno com pragmatismo.

Segundo projeções do Gartner, até 2030 cerca de 70% das equipes serão menores e trabalharão com sistemas multiagentes. “Precisamos aprender a lidar com agentes de IA. E não é só um. São vários, interagindo”, diz. Mas há um detalhe incômodo. Segundo ela, muitas empresas ainda enfrentam problemas básicos de documentação e organização de processos.

“É o clássico ‘lixo entra, lixo sai’.” A IA, afirma, só amplia aquilo que já existe. Em empresas maduras, com processos bem definidos, a produtividade dispara. Em ambientes desorganizados, a tecnologia apenas acelera o caos.

Ela descreve uma disparidade crescente. De um lado, organizações operando com agentes autônomos e testes automatizados avançados. De outro, companhias que ainda realizam testes manuais e sequer adotaram o conceito de shift left, qualidade desde o início do desenvolvimento. “A IA está muito associada aos níveis 4 e 5 de maturidade. Mas isso não significa que as empresas nos níveis iniciais possam ignorá-la. Quem ignorar, vai ficar para trás.” A disrupção, diz, lembra a era .com. Não é uma onda que se pode esperar passar.

Mentores, confiança e sociedade

Se a trajetória profissional foi construída com esforço, ela também foi orientada por mentoria. Na Sofist, encontrou apoio nos fundadores Bruno Abreu e Júlio Viégas. “O Júlio me mentorou. Me dava feedback. Confiava em mim.” Com Bruno, as viagens se tornaram aulas improvisadas. “Quando voltámos de reuniões, ia perguntando tudo o que eu não sabia no caminho de volta. Aproveitava cada momento.”

Sem formação técnica tradicional, precisou sustentar reuniões em ambientes predominantemente masculinos. Preparava-se mais, estudava mais, revisava argumentos. “Nos preparamos mais”, assinal, referindo-se às mulheres que ocupam espaços em tecnologia. “Os homens, muitas vezes, já são aceitos. A mulher precisa provar, completa.

Em 2025, tornou-se sócia da Sofist. O reconhecimento, no entanto, não alterou sua percepção de responsabilidade. Hoje, lidera a área comercial de uma empresa cujo diferencial competitivo é atuar como trust advisor, conselheira de confiança, em qualidade de software. Não são generalistas. São especialistas. “Ajudamos o cliente a tomar decisão baseada em fatos.”
Convencer boards a investir em qualidade continua sendo um desafio. Muitas vezes, testes são vistos como etapa opcional. “Precisamos mostrar que qualidade é negócio”, reforça.

Não se encolher

Há uma frase que Grace repete e que, para ela, resume mais que uma postura profissional. “Tento sempre não me encolher. Comecei a fazer isso de forma até inconsciente.”

Não se encolher significa aceitar convites para palestrar, participar de eventos, entrar em salas onde a presença feminina ainda é minoria. Significa falar mesmo quando o ambiente não é inicialmente acolhedor. Significa sustentar uma posição técnica em uma mesa dominada por homens.

Como filha mais velha de quatro irmãs, sente-se responsável por abrir caminho para elas e outras. “Sempre procuro incentivar minhas irmãs.” No trabalho, faz o mesmo com mulheres do time. Acredita que apoio externo, terapia, grupos de mentoria, é ferramenta estratégica, não fragilidade. “A insegurança é comum. Estudamos, nos preparamos, mas ainda assim hesitamos”, reflete. “Precisamos nos arriscar aparecer mais”, aconselha.

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