
A disputa global por capacidade computacional, intensificada pela consolidação dos grandes modelos de inteligência artificial (IA), posiciona a América Latina no centro das intenções das empresas que buscam energia estável, terrenos amplos e velocidade na implantação de infraestrutura digital. É nesse cenário que surge a Terranova, nova plataforma de data centers hyperscale criada pela Actis e pela General Atlantic, que anuncia um plano de investimento de US$ 1,5 bilhão para os próximos três anos na região e estreia com um caso considerado raro na região: a entrega de um data center greenfield em apenas 12 meses.
O primeiro espaço da empresa, localizado em San Miguel de Allende, no México, entrará em operação no início de 2026. A execução foi acelerada por uma demanda urgente de um hyperscaler, cujo nome a empresa não revela por cláusulas de confidencialidade. “Um data center greenfield leva entre 18 e 24 meses para ficar pronto. Esse prazo foi considerado impossível, até ser entregue”, afirma Mauricio Giusti, managing director de Digital Infrastructure da Actis.
Segundo ele, o projeto começou oficialmente em 1º de janeiro, um dia após a assinatura do contrato, realizada em 31 de dezembro. “Tivemos de mobilizar a engenharia, fornecedores e processos em um nível incomum para a região. Só foi possível porque usamos toda a experiência acumulada da Actis no mundo e o suporte direto do ecossistema da General Atlantic”, diz Giusti. A primeira fase terá 2 MW ocupados integralmente pelo cliente; o campus completo terá 8 MW.
A escolha do México como primeiro reflete uma resposta direta a uma necessidade. “Somos completamente guiados pela demanda do cliente. Começamos pelo México porque houve uma demanda concreta e urgente”, explica o executivo.
O movimento mais estruturante, porém, ocorre no Brasil. A Terranova adquiriu, em Campinas, um terreno de 1 milhão de metros quadrados com acesso direto à rede básica de alta tensão, condição necessária para garantir 300 MW de energia, um patamar que posiciona o país para atrair workloads de inteligência artificial, conhecidos pelo consumo intensivo de energia. “Campinas reúne conectividade, espaço e energia. É um dos poucos locais do País onde conseguimos oferecer ao hyperscaler um produto integral, capaz de suportar cloud e IA no mesmo campus”, afirma José Eduardo Quintella, CEO da Terranova.
O executivo explica que a conexão elétrica deve ser confirmada até 23 de dezembro de 2025. A previsão é de que a primeira capacidade seja entregue em 2027, após licenciamento, obras e implantação da infraestrutura básica de fornecimento.
Quintella reforça que o projeto está alinhado à mudança estrutural que redefine a expansão de data centers no mundo. “A geografia da IA é guiada pela energia. Latência continua importante, mas apenas para parte das aplicações. À medida que a IA avança, energia estável e renovável se torna o fator decisivo”, diz.
Esse fenômeno altera a lógica que, por décadas, conduziu projetos de data center a centros urbanos. Agora, a variável predominante é energética. Para cargas de trabalho de IA, sobretudo treinamentos de modelos, a proximidade com o usuário é menos relevante que a disponibilidade de energia renovável a custos competitivos. “A corrida pela IA é, antes de tudo, uma corrida energética. A América Latina tem condições reais de competir porque reúne espaço, energia disponível e uma matriz mais limpa que outras regiões”, resume Giusti.
Para colocar as estruturas de pé, a Terranova, garante Quintella, se apoia em um time com ampla experiência internacional, reunindo profissionais que já lideraram operações de data center de empresas como Microsoft, além de especialistas do mercado norte-americano com duas décadas de atuação no setor hyperscale.
Quintella afirma que o conhecimento do grupo foi determinante para garantir que o México se tornasse “o data center mais rápido já entregue” para aquele cliente. “Esse projeto mostrou que é possível fazer na América Latina o que, até então, se acreditava restrito a mercados mais maduros”, diz ele.
Mercado de data center em expansão
A empresa não revela os hyperscalers com os quais negocia, mas confirma que todos os grandes players globais são potenciais clientes. A disputa, porém, vai além da captação comercial. Trata-se de conseguir aprovar licenças, conectar energia, garantir fornecimento de longo prazo e erguer, em paralelo, estruturas de grande porte em países com marcos regulatórios distintos.
“Cada país tem seu conjunto de exigências, licenças, prazos e limitações. Por isso, estruturamos a plataforma como uma companhia latino-americana, com sede em São Paulo, mas com visão regional e capacidade de adaptar projetos país a país”, explica Quintella.
O avanço da Terranova coincide com o debate crescente sobre soberania digital, proteção de dados e atração de infraestrutura crítica. No Brasil, a combinação entre demanda por cloud computing, expansão do setor de fintechs, projetos públicos de digitalização e uso crescente de IA cria pressão por novos campi. Ao mesmo tempo, os gargalos regulatórios seguem como desafio central. Licenças ambientais, conexão elétrica em alta tensão e disponibilidade de terras avançam em ritmos diferentes nas esferas federal, estadual e municipal.
A empresa afirma que acompanha de perto essas discussões e vê no Redata, novo regime especial de tributação para serviços de data center no Brasil, criado por Medida Provisória em setembro de 2025, um instrumento capaz de destravar projetos e reduzir assimetrias entre países latino-americanos. Quintella reconhece, porém, que o desafio permanece significativo. “É uma corrida que envolve não só tecnologia, mas geopolítica, energia e estabilidade institucional. A região tem potencial, mas precisa acelerar processos para acompanhar a demanda”, afirma.
Com a inauguração no México e o mega-campus previsto para Campinas, a Terranova se diz preparada para disputar uma parcela relevante da infraestrutura digital latino-americana quando a demanda por IA cresce de forma acelerada.
O desafio será converter capital em execução rápida, atravessando entraves estruturais que historicamente atrasaram projetos de grande porte na região. A empresa aposta que sua combinação de engenharia, escala financeira e articulação internacional permitirá superar esses obstáculos. “A América Latina pode não apenas consumir tecnologia global, mas também ser protagonista na infraestrutura que sustenta essa tecnologia”, encerra Quintella.
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