
Se você pudesse voltar no tempo e conversar com a versão de si mesmo no dia em que assumiu sua primeira posição de liderança, provavelmente falaria sobre pessoas: alinhar expectativas, lidar com conflitos, tomar decisões difíceis. O que você não diria, porque simplesmente não existia, é que, alguns anos depois, liderar também significaria tomar decisões mediadas por sistemas de inteligência artificial.
Hoje, praticamente todo gestor já usa dados automatizados, relatórios inteligentes ou recomendações geradas por algoritmos para decidir quem contratar, promover, desenvolver ou desligar. O problema é que quase ninguém foi preparado para assumir essa nova responsabilidade.
Um estudo da Microsoft mostra que um terço dos executivos planeja contratar gestores dedicados a liderar equipes híbridas, formadas por pessoas e agentes de IA. O termo “agent boss” já começou a circular. Mas a formação das lideranças não acompanhou essa mudança.
A liderança que ninguém ensinou
Durante muito tempo, liderar significava gerir pessoas, processos e resultados. A tecnologia era apoio. Hoje, ela participa ativamente das decisões — e dos riscos.
Uma pesquisa da Impulso revela que 66,7% dos CTOs brasileiros já atuam em funções híbridas, equilibrando domínio técnico com visão estratégica de negócio. São profissionais que precisam traduzir código em impacto financeiro, muitas vezes sem estrutura adequada e sob forte pressão por resultados.
O problema é que essa transição aconteceu rápido demais. A função evoluiu, a complexidade aumentou, mas os modelos de formação e desenvolvimento de lideranças permaneceram presos a uma lógica analógica, desconectada da realidade híbrida que já se impôs nas organizações.
Mais tecnologia versus menos maturidade decisória
A inteligência artificial entrou rápido demais na rotina das empresas. Relatórios automáticos, recomendações prontas, sistemas que “sugerem” caminhos. O problema é que a forma de decidir não evoluiu na mesma velocidade. A tecnologia acelera processos e ganha escala com facilidade. Mas o erro também ganha escala. Quando algo dá errado, não é o algoritmo que precisa explicar — é o líder.
Pesquisas mostram que, embora muitas empresas já usem IA em alguma etapa do negócio, poucas conseguem transformar isso em resultado concreto. Na maioria das vezes, a dificuldade não está na ferramenta, mas em saber quando confiar nela, quando questionar e quem responde pela decisão final. As evidências do relatório anual da McKinsey sobre o estado da IA em 2025 mostram que, embora 88% das organizações usem essa tecnologia em pelo menos uma função, apenas um terço a escala de forma ampla e menos de 40% veem retornos reais em resultados financeiros, revelando uma lacuna crítica em governança estratégica.
Portanto, liderar na era da IA exige equilibrar três dimensões que raramente caminham juntas: pessoas, dados e confiança. A Deloitte aponta que 79% dos colaboradores dizem confiar mais em líderes que sabem explicar como a tecnologia é usada nas decisões que afetam suas carreiras. Ou seja, a transparência tornou-se um requisito operacional.
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O desafio se repete, agora em outra escala
Durante muito tempo, a liderança já demonstrava dificuldades para conduzir conversas difíceis, lidar com conflitos e oferecer feedbacks consistentes. Esse desafio nunca foi plenamente resolvido. Agora, ele se amplia.
Além de conversar com pessoas, o líder contemporâneo precisa questionar sistemas. Quem programou esse algoritmo? Com base em quais dados ele foi treinado? Que vieses carrega? Quais decisões ele não deveria tomar sozinho?
Importante desmistificar uma coisa: há um equívoco comum que diz que liderar em ambientes de IA exige conhecimento técnico profundo. Não exige. Exige maturidade decisória. O papel do líder não é escrever código, mas definir limites, critérios e responsabilidades. É garantir que sistemas inteligentes estejam alinhados com valores, estratégia e propósito organizacional.
Isso implica dizer “não” para automações mal pensadas, questionar recomendações automáticas e assumir a responsabilidade final pelas decisões, mesmo quando elas foram sugeridas por uma máquina.
A maturidade que o futuro cobra
Adotar novas tecnologias virou quase uma obrigação, e disso não há como fugir. O desafio real começa depois: saber usá-las com critério, entender seus limites e assumir as consequências das decisões que elas ajudam a moldar.
Durante muito tempo, dar feedback honesto já foi um dos grandes testes da liderança — e, para muita gente, continua sendo. Agora, somou-se a isso a tarefa de conduzir sistemas de IA que influenciam decisões sobre pessoas, desempenho e futuro profissional, muitas vezes sem que o líder tenha clareza total de como essas decisões são construídas.
Vale a reflexão: você sabe explicar como as decisões são tomadas no seu time, inclusive aquelas mediadas por IA?
Tecnologia não substitui liderança. Assumir responsabilidade continua sendo parte central do trabalho — e isso nenhuma máquina faz por você.
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