
Quando criança, Isabella Piratininga passava mais tempo na rua do que dentro de casa. Corria, brincava com amigos do bairro e frequentemente acabava de castigo por aprontar mais do que os adultos consideravam aceitável. Em uma tentativa de mantê-la ocupada dentro de casa, a mãe decidiu comprar um videogame, um Mega Drive. Naquele momento, a tecnologia ainda não aparecia como possibilidade de carreira. Era apenas parte da rotina.
Filha de uma bancária e de um empreendedor, Isabella cresceu entre diferentes referências de trabalho. Como os pais passavam boa parte do dia fora, ela ficava frequentemente sob os cuidados da avó. “Eu dava tanto trabalho que minha avó chegou a dizer que não conseguia mais correr atrás de mim”, lembra.
Na escola, ela não se via como uma estudante particularmente dedicada. Ainda assim, mantinha boas notas por uma razão prática: não queria comprometer as férias. “Eu nunca fiquei de recuperação. Não porque eu gostava muito de estudar, mas porque não queria perder as férias”, diz.
O método era direto. Se não conseguia acompanhar bem as aulas, estudava em casa até entender o conteúdo. Às vezes, virava a madrugada tentando resolver exercícios. “Eu falava para mim mesma que só ia dormir quando aprendesse.”
Esse processo de aprendizado autodidata acabaria aparecendo também na vida profissional. Isabella diz que sempre aprendeu muito observando e experimentando. “Eu gosto de chegar, ver como as coisas funcionam e tentar fazer.”
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A escolha da faculdade também seguiu um caminho pouco linear. Durante a juventude, Isabella demonstrava interesse por atividades criativas. Desenhava bem, fazia pintura e chegou a frequentar cursos nessa área. Quando chegou a hora de escolher uma profissão, considerou engenharia, mas os testes vocacionais apontavam repetidamente para campos ligados à criação. Foi assim que decidiu cursar design.
Do design à tecnologia
O contato com ferramentas digitais já fazia parte da rotina. “Eu sempre mexi em Photoshop”, conta. Naquela época, muitas tarefas exigiam trabalho manual detalhado. “Se você queria recortar cabelo em uma imagem, fazia fio por fio.”
O design acabou funcionando como porta de entrada para um universo que, naquele momento, ainda estava em formação no Brasil. Com a expansão da internet e dos serviços digitais, surgiram novas funções ligadas à experiência do usuário e à criação de produtos digitais. “Eu fui descobrindo o que eram produtos digitais quando isso começou a aparecer por aqui”, diz.
Antes disso, Isabella chegou a trabalhar no mercado editorial, em uma editora de revistas. Mesmo ali, o processo já dependia de ferramentas digitais. “O offline saía, mas todo o processo era digital.” Ao longo dos anos, design, tecnologia e produto passaram a definir sua trajetória profissional. Hoje, no iFood, ela é diretora de tecnologia e inovação.
No mundo da TI, convive com uma realidade comum ao setor: a presença masculina ainda é predominante nas áreas técnicas. A executiva avalia que essa diferença começa muito antes do ingresso no mercado de trabalho. “É um problema de formação de base”, afirma.
Ela lembra da época em que cursou o ensino médio técnico em informática. Em uma turma majoritariamente masculina, havia apenas duas ou três meninas. “Na mesma escola tinha farmácia, biologia e informática. A maioria das meninas escolheu biologia ou farmácia.”
Anos depois, o mesmo cenário aparece nas empresas de tecnologia. No iFood, cerca de 31% da equipe de tecnologia é composta por mulheres, enquanto 45% das posições de liderança da companhia são ocupadas por profissionais do gênero feminino. Para Isabella, programas corporativos ajudam, mas não resolvem o problema sozinhos.“Quando você quer mudar a realidade, precisa fazer isso em conjunto”, afirma. “Não é um problema de uma empresa específica. É um problema social.”
Ao longo da carreira, ela também percebeu a falta de referências femininas em cargos de liderança técnica. A maior parte de seus gestores eram homens. Ainda assim, diz que encontrou apoio em momentos importantes da trajetória. “Eu sempre tive pessoas que me impulsionaram”, lembra.
Hoje, em posição de liderança, ela procura usar esse espaço para ampliar a presença feminina no debate sobre tecnologia. Quando recebe convites para eventos e não pode participar, costuma indicar outras profissionais. “Costumo, conscientemente, sugerir mulheres antes de indicar um homem”, diz. “É importante ter uma mulher ali na mesa falando de igual para igual.”
Diversidade e inteligência artificial
A diversidade também entra nas discussões sobre inteligência artificial (IA). Para Isabella, sistemas baseados em dados podem reproduzir distorções presentes na sociedade. Isso acontece porque os algoritmos são treinados com dados produzidos em contextos que já carregam desigualdades. “Esses sistemas refletem os dados que existem”, explica.
A executiva acompanha essas discussões em um momento em que a inteligência artificial ganha protagonismo nas empresas. No iFood, ferramentas baseadas em dados e machine learning já fazem parte da operação há alguns anos. A companhia utiliza esses recursos desde 2018 para aprimorar processos e produtos.
Mais recentemente, a empresa passou a explorar aplicações baseadas em agentes de IA, sistemas capazes de executar tarefas de forma mais autônoma e interagir com usuários de maneira conversacional. A iniciativa faz parte de uma nova etapa da estratégia tecnológica da companhia.
“Alguma coisa vai acontecer. A gente está testando, tentando tirar o melhor desse ferramental”, afirma.
Nesse cenário, Isabella diz que o desafio não está apenas na evolução das tecnologias, mas na forma como elas passam a fazer parte da rotina das equipes e dos produtos digitais. “Como essa tecnologia pode facilitar a nossa dinâmica de trabalho?”, questiona.
Para ela, responder a essa pergunta será uma das tarefas centrais das equipes de tecnologia nos próximos anos.
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