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Luana Lopes, fundadora da Kalshi, e Luciano Huck, durante painel na Brazil at Sillicon Valley 2026
Luana Lopes, fundadora da Kalshi, e Luciano Huck, durante painel na Brazil at Sillicon Valley 2026 (crédito: monking.br)

Quando perguntado qual a dica daria para a plateia presente no primeiro dia da conferência Brazil at Silicon Valley (BSV), na Califórnia, o apresentador e empresário Luciano Huck foi direto: “Voltem”.

O chamado arrancou risadas e encerrou uma conversa que colocou lado a lado o “Brasil com Z” e o “Brasil com S”. De um lado, Luana Lopes, brasileira que fez carreira fora do Brasil e cofundou a Kalshi, plataforma de mercados de previsão, que vale US$ 22 bilhões. Do outro, Huck, apresentador de TV conhecido por apresentar histórias de vida e de superação de pessoas do Brasil real.    

De bailarina a fundadora

Ex-bailarina profissional, Luana fez carreira no mercado financeiro nos EUA, onde conheceu seu sócio, Tarek Mansour. Quando decidiram montar a Kalshi, eles passaram os primeiros quatro anos não apenas desenvolvendo o produto, como a maior parte das startups faz. O esforço inicial envolveu resolver o vácuo regulatório sobre o mercado de previsões. “É uma ótima ideia, mas como a gente transforma isso em algo legal? Porque parece ilegal”, contou. Ela lembra que ela e Tarek ligaram para mais de 60 advogados e todos disseram não. Até que uma brasileira os conectou com uma pessoa que já tinha trabalhado no governo e conseguiu uma reunião. Daí tudo começou a andar.  

O esforço levou a dupla a processar o próprio regulador federal americano para viabilizar mercados de previsão eleitoral, um movimento que se provou decisivo para o crescimento exponencial da empresa. “Esse é o Santo Graal dos mercados de previsão. A gente sabia que precisávamos dele para ser muito grande e acabamos processando o regulador. Nós não íamos desistir até que tivéssemos tentado tudo. Inclusive isso. E nós vencemos. E isso realmente mudou a trajetória da companhia”, explicou.

Segundo Luana, essa persistência e disciplina foram heranças dos tempos de bailarina. “No ballet você treina por um ano para ficar uma hora no palco”, ponderou.

Uber, bolo de pote e cosméticos

Huck se conectou com a história de Luana ao mencionar a filha Eva, que também é bailarina. Ele trouxe à tona, no entanto, uma outra realidade: a do “empreendedorismo por exaustão”. Com dados que apontam que 84% dos brasileiros precisam de mais de um emprego para fechar as contas do mês, ele argumentou que, para a maioria, abrir um negócio não é a busca por um sonho bilionário, mas a única saída para “parar de lutar”. “O tripé macroeconômico do Brasil é Uber, bolo de pote e venda de cosméticos”, brincou Luciano arrancando risadas da plateia ao misturar português e inglês para se referir ao que ele classifica como a verdadeira espinha dorsal da economia, movidos não por rodadas de investimento, mas pela necessidade.

Ele contou a história de Roberto, um ex-madeireiro ilegal no Rio Negro que se reinventou no ecoturismo. Depois de cortar mais de milhares de árvores, ele passou a fazer, em um dia, mais dinheiro do que ganhava em um mês. O que criou um movimento que mudou toda a realidade da região. Segundo Huck, foi uma mudança de visão de preço (da madeira) para enxergar um valor (floresta em pé). “Nesse ecossistema [de startups], especialmente no Vale do Silício, você pode acabar dando mais importância ao preço do que ao valor. E isso nos traz ao caso da Luana. Todo mundo sabe o valuation da empresa dela. Mas o valor da jornada que ela construiu para chegar até aqui, e que é só o começo, realmente não tem preço”, disse.

Huck também abordou o papel do Estado. Para ele, o topo da pirâmide, onde se encontram Luana e a audiência do BSV, a melhor contribuição é “simplesmente não atrapalhar”, garantindo segurança jurídica e flexibilidade. Já para a base, são necessárias políticas públicas ativas, como acesso a crédito e incentivos fiscais, para apoiar os pequenos empreendedores.

Ao final, o apelo de Huck para que os talentos retornem ao Brasil sintetiza o desafio: conectar esses dois mundos. A própria Luana parece responder, em parte, ao chamado, ao citar que o Brasil será o primeiro país onde a Kalshi vai desembarcar em seu processo de expansão internacional.

A questão que fica é se a genialidade que constrói unicórnios em Silicon Valley pode, de fato, voltar para casa e ajudar a resolver os desafios do “Brasil com S”.

A cobertura do BSV 2026, diretamente da Califórnia, é um oferecimento da Oracle.

O post “Voltem”, diz Luciano Huck a empreendedores no Vale apareceu primeiro em Startups.