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Mulher sorridente, identificada como Walkiria Marchetti, executiva de tecnologia ex-Bradesco, em foto ao ar livre com árvores ao fundo. Ela usa camisa listrada clara e casaco escuro com detalhes geométricos na gola.

Quando escolheu cursar Matemática, Walkiria Marchetti não tinha uma profissão definida em mente. Era excelente com números e, como a primeira da família a ingressar na universidade, seguiu o caminho da afinidade. Começou cedo: com cerca de 17 anos já havia concluído o ensino médio e, aos 20, lecionava no mesmo colégio em que estudara. Mas a sala de aula não a seduziu como carreira. “Não sei se foi destino, intuição ou oportunidade, mas acabei caindo na tecnologia. E não tinha referência alguma.”

Foi por acaso que conheceu um curso de programação Cobol voltado à resolução de problemas. Era o início dos anos 1980, e a computação ainda parecia uma promessa distante para a maioria das pessoas, especialmente para mulheres. “Fui gostando. Mas não tinha ideia de como construir uma carreira com aquilo.” Até que surgiu um processo seletivo no Bradesco. Fez a prova, achou que não tinha ido bem, mas dois meses depois veio a notícia: foi aprovada. Ali começava uma jornada de mais de quatro décadas – perto de 15 mil dias – em que nunca houve um igual ao outro.

Tecnologia e a mulher que cresceu com ela

Walkiria entrou no Bradesco em 1981 como auxiliar de programação. “O setor financeiro investia muito em tecnologia. Tivemos uma inflação de 80% ao mês nos anos 1980, as pessoas aplicavam dinheiro diariamente, era tudo muito dinâmico.” Foi nesse ambiente, marcado por constantes transformações, que ela construiu sua resiliência. “A tecnologia se transformava todos os dias. A busca por produtividade, inovação, enfrentar a inflação… ali aprendi a aguentar o tranco e mudar rápido.”

Na década seguinte, migrou da carreira técnica para a gerencial, um movimento que, a princípio, não a agradou, confessa. “Aprendi a delegar, a liderar, a confiar. Foi uma década de amadurecimento pessoal e profissional.” Casou-se, teve dois filhos e assumiu a liderança de um dos marcos mais importantes da virada do século: a preparação para o bug do milênio. “Meu líder saiu e eu assumi o projeto. Era um desafio enorme, mas fui.”

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Na transição dos anos 1990 para 2000, assumiu a primeira posição como diretora estatutária de tecnologia do banco. “Foi ali que caiu minha ficha sobre a representatividade.” Até então, Walkiria não havia se dado conta de que era a primeira mulher na tecnologia da empresa e uma das poucas no mercado. “Para mim, sempre foi natural: resultado vem de esforço. Nunca ouvi em casa que algo não era para menina. Mas as mulheres começaram a me procurar e dizer: ‘você nos representa’. Eu achava forte demais aquilo.”

A partir dali, passou a atuar ativamente em ações voltadas à equidade de gênero. E o reconhecimento de sua liderança só aumentava. “Em 2005, lideramos um dos projetos mais estratégicos da história do banco: a revisão da arquitetura de aplicações e a adoção de uma arquitetura orientada a serviços. Eram cerca de 3 mil pessoas envolvidas. Um trabalho de uma década que preparou o Bradesco para os avanços em experiência do cliente e inteligência artificial.”

Protagonismo, sucessão e legado

Com a chegada da pandemia, a tecnologia saiu momentaneamente do centro para dar lugar às pessoas. “O ano de 2020 foi intenso. Os benefícios aconteceram, mas foi o momento de olhar para o humano”, conta. Em 2023, Walkiria fez seu balanço. Os filhos estavam formados, a sucessão bem encaminhada. “Decidi reduzir o ritmo. Saí em novembro de 2023, depois de 42 anos e meio no Bradesco. Nunca imaginei ficar tanto tempo em um só lugar. Mas era tudo novo o tempo todo.”

Sobre seu legado, ela é humilde. “Não sou apegada a cargos. Tenho orgulho do projeto de arquitetura de sistemas, mas não fui eu sozinha. Foram 3 mil pessoas. O que mais me emociona hoje são as conexões que ficaram. Relações baseadas em lealdade, em valores. O dia em que você não tem mais o sobrenome da empresa, o que fica são as pessoas.”

Agora, vive um novo capítulo como professora da Escola de CIOs do Instituto Itaqui e presidente da MCIO Brasil, movimento com mais de 80 voluntárias e foco em empregabilidade e networking.

Walkiria observa um padrão recorrente: mulheres que recusam oportunidades por acharem que “não estão prontas”. E rebate com firmeza: “Você nunca estará pronta. Vai esperar o quê? Um diploma de ‘pronta para o desafio’? Isso não existe. O que você precisa perguntar é: estou disposta a pagar o preço do aprendizado? Se a resposta for sim, vá. Só se cresce enfrentando desafios maiores.”

Com sua presença na TI, Walkiria pavimentou a estrada para muitas que vieram depois. Hoje, seu olhar está na formação de líderes mais diversos, mais humanos e mais preparados para um mundo em constante transformação. “É preciso senso crítico para fazer escolhas, humildade para perguntar, coragem para se jogar no desconhecido. E, sobretudo, construir alianças verdadeiras, na vida e no trabalho.” Ela encerra com serenidade e potência: “Foram mais de quatro décadas bem vividas no mercado corporativo. E ainda há muito a viver.”

*Texto originalmente publicado na Revista IT Forum.

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