
A distância de oito dias de barco até algumas comarcas do interior do Amazonas não é um detalhe geográfico: é a razão pela qual o Tribunal de Justiça do estado nunca apostou em nuvem pública para sustentar o sistema judicial. A escolha moldou a arquitetura de tecnologia do tribunal por mais de uma década e hoje se traduz em 32 nós de infraestrutura hiperconvergente, 90 terabytes de documentos judiciais armazenados localmente e um modelo de expansão baseado em satélite de baixa órbita que começa a resolver um dos maiores gargalos da região: a conectividade.
Três casos foram apresentados durante o .NEXT 2026, evento anual da Nutanix realizado em Chicago*, como exemplos de como governos estaduais e municipais da região constroem infraestrutura digital a partir de restrições muito específicas, distantes das condições que guiam decisões tecnológicas no Sul e Sudeste do País.
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Manaus: 12 anos e R$ 70 milhões em novos investimentos
A Prefeitura de Manaus é cliente da Nutanix desde 2014, quando uma prova de conceito triplicou a capacidade de processamento do data center municipal. Processos que levavam 24 horas passaram a rodar em seis a oito horas, antes de qualquer otimização. Da época para cá, o parque cresceu de três para mais de 80 nós e as máquinas virtuais saltaram de 250 para 1.500.
“A tecnologia precisa estar alinhada aos movimentos políticos. Apresentamos o que pensamos, como queremos fazer, e a gestão tem entendido e apostado na equipe”, disse Sergio Augusto Magalhães de Souza, subsecretário de tecnologia da informação da prefeitura.
O modelo adotado é de nuvem privada. A nuvem pública não é descartada, mas fica reservada para cargas esporádicas, nas quais o consumo não justifica o custo. O secretário municipal de finanças e tecnologia, Clécio Freire, citou estudo recente do IDC que aponta crescimento no movimento de repatriação de cargas como dado que reforça essa leitura.
Para o segundo semestre de 2026, a prefeitura planeja investir entre R$ 60 milhões e R$ 70 milhões em 16 novos nós, sendo seis destinados à formação de um cluster de inteligência artificial (IA), três deles exclusivos para a área de finanças.
A infraestrutura sustenta também projetos de cidade inteligente: 200 câmeras, nove estações meteorológicas, semáforos inteligentes e um sistema de geoprocessamento com 800 camadas de dados alimentadas por todas as secretarias. Por meio do cruzamento dessas camadas, a Secretaria de Saúde monitora gestantes e faz busca ativa para garantir a continuidade do pré-natal. A Secretaria de Educação usa o mesmo recurso para reduzir a evasão escolar, resultado que levou Manaus a figurar entre as capitais com menor índice no País.
Toda essa estrutura é conectada por três anéis de fibra óptica próprios, com caminhos distintos que garantem comunicação mesmo em caso de rompimento. Para 2027, a prefeitura planeja o projeto de “última milha”, que vai interligar cerca de 1,3 mil pontos aos anéis por fibra própria, substituindo os links atualmente alugados de terceiros.
Tribunal de Justiça do Amazonas: quando a infraestrutura é questão de justiça
Paulo Gazineu, coordenador de data center do Tribunal de Justiça do Amazonas, descreveu o cenário que motivou a migração para hiperconvergência em 2015 com uma frase direta: “Imagina o quão injusto é manter alguém preso sem a possibilidade de ser julgado porque o sistema está fora.”
O tribunal operava em arquitetura de três camadas, com paradas semanais que chegaram a um ponto insustentável. Uma prova de conceito abriu caminho para a mudança, mas o verdadeiro desafio estava na dispersão geográfica: 60 comarcas no interior, várias acessíveis apenas por barco.
A solução foi manter a infraestrutura 100% local, com data center principal na capital e replicação simétrica em ambiente de DR. A chegada dos satélites de baixa órbita transformou a lógica de conectividade com o interior: as pequenas infraestruturas locais em cada município foram substituídas por uma antena e acesso remoto ao data center central.
O tribunal opera com três pilares dentro da infraestrutura hiperconvergente: sistemas judiciais, bancos de dados e armazenamento de objetos. Os 90 TB de documentos ficam em clusters S3 com replicação imutável via tecnologia WORM (Write Once Read Many), que impede qualquer alteração ou exclusão pelo período de retenção definido, podendo chegar a 15 anos.
Sobre essa base opera o Arandu, sistema de inteligência artificial cujo nome vem do tupi e significa sabedoria. A ferramenta identifica demandas predatórias: pedidos idênticos inseridos no sistema com pequenas variações no nome do requerente para tentar obter decisões favoráveis. O Arandu reconhece os padrões, descarta as duplicatas e reduz o volume de processos, acelerando os julgamentos.
Durante o evento, o tribunal publicou o edital para aquisição de uma sala cofre no padrão ABNT NBR 15247, adequando o invólucro físico ao nível tecnológico já instalado.
Sefaz-AC: cinco pessoas, 400 máquinas virtuais e o primeiro licenciamento NKP Fullstack da América Latina
A Secretaria da Fazenda do Acre completou um ano de operação com Nutanix em 2025, após migrar de uma solução de outro fornecedor que acumulava vulnerabilidades publicadas com frequência. A transição reduziu o parque de nove para sete nós, mas com hardware mais eficiente e maior densidade por nó, resultando em ganho de 30% na performance.
Uma equipe de cinco pessoas administra mais de 300 máquinas virtuais e todos os serviços sobre elas. A restrição de pessoal moldou diretamente a escolha tecnológica. “É preciso ter uma solução que traga facilidade de administração e permita identificar qualquer problema com uma olhada rápida na tela”, disse Rafael Castro, engenheiro de cibersegurança da secretaria.
A visibilidade de movimentação lateral na rede, por meio do recurso Flow da Nutanix, foi um dos pontos decisivos para a segurança. Dados tributários não podem ser armazenados fora da secretaria por determinações regulatórias federais. A infraestrutura é totalmente on premise, com interoperabilidade com outras secretarias estaduais por meio de APIs, incluindo a integração com o Detran para o recolhimento do IPVA.
A secretaria é a primeira da América Latina com licenciamento NKP Fullstack, o pacote completo de soluções de IA da Nutanix. Um MVP já funcional usa um agente que analisa acordos do Tribunal Administrativo Tributário e sugere novas decisões com base no histórico. O desenvolvimento foi feito internamente, com um modelo de linguagem de código aberto rodando localmente, o que evita o consumo imprevisível de tokens em nuvem pública, problema que, segundo Castro, já comprometeu projetos similares em outros órgãos.
“A secretaria não precisa mais se concentrar em resolver problemas de infraestrutura. O foco agora está no negócio”, resumiu Sócrates Paiva, chefe de infraestrutura e segurança da secretaria.
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