
Fundado em plena pandemia, em maio de 2020, o Estímulo, projeto criado para emprestar recursos a juros baixos para quem precisava, está completando seis anos. Nesse período, mais de R$ 400 milhões já foram emprestados a 6.100 empreendedores e a iniciativa chegou a virar estudo de caso da Harvard Business School sobre blended finance e impacto social na América Latina. Agora, o Estímulo está estruturando o seu terceiro fundo, com foco no território amazônico.
O projeto surgiu como uma iniciativa de ajuda a pequenos empresários que tiveram seus negócios prejudicados com a pandemia, recebendo apoio, na época, de nomes como Abílio Diniz, Luciano Huck, Eduardo Mufarej e Ticiana Rolim Queiroz. Depois disso, apoiou empreendedores também em outras tragédias, como as enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024, e, mais recentemente, nos atingidos pelas chuvas da Zona da Mata mineira, em março deste ano – ambos por meio do fundo Retomada.
“A ideia era criar uma linha de empréstimos emergencial durante a pandemia. Mas, quando o dinheiro voltou, vimos que tínhamos criado algo”, afirma Lucas Conrado, diretor do Fundo Estímulo. Segundo ele, a expectativa inicial era de que houvesse algo em torno de 60% de inadimplência, o que não ocorreu. “O dinheiro voltou com uma inadimplência muito baixa”.
Foi nesse momento que o projeto decidiu estruturar, de fato, um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) para alavancar a filantropia e ajudar os empreendedores a levantar recursos, atrelados a uma capacitação financeira.
O modelo funciona com dois tipos de cotas. A primeira é a cota subordinada, que remunera o investidor com base em uma meta de inflação. “Essa cota vem para ser o colchão de garantias, para atrair capital para um público que normalmente não teria acesso”, explica Lucas. Entre os investidores estão grandes empresas, como Banco Inter e Energisa, por exemplo.
Já a segunda cota, chamada de cota sênior, oferece retornos alinhados ao mercado, e tem entre os investidores family offices, multi-family offices, fundos de previdência, entre outros.
Com o tempo, o fundo começou a perceber que era preciso ter um olhar diferenciado para segmentos específicos, como o de mulheres empreendedoras, além de regiões como Norte e Nordeste – em que havia pouco crédito e, quando existia, chegava caro. Hoje, o projeto atua em quatro lentes de impacto: Estímulo Verde, Estímulo Mulheres, Amazônia Legal e Fundo Estímulo Retomada para emergências climáticas e desastres.
“Percebemos que tem alguns empreendedores que precisam mais. Por exemplo, as mulheres. Estudos mostram que elas geram um impacto maior na sociedade, empregam mais mulheres, mas possuem uma dificuldade de acesso a crédito maior que homens, o que não reflete a performance real dos negócios. Com cinco anos de Estímulo, vimos que a inadimplência para mulheres é 30% menor que para homens”, observa Lucas.
Com a linha Retomada, que faz parte do Fundo 2, criado para apoiar os atingidos pelas enchentes do RS, o Estímulo percebeu que um dos seus diferenciais era fazer o dinheiro chegar na ponta, entre aqueles que muitas vezes não atingiam os critérios necessários para receber linhas do governo ou instituições de fomento.
“No caso de Porto Alegre, por exemplo, um dos critérios de alocação exigia que o negócio estivesse na mancha de inundação, ou seja, que a água tivesse entrado no empreendimento. O Mercado Municipal estava na mancha, mas o segundo andar, não. Só que os empreendedores do segundo andar também não podiam abrir seus negócios. Muitos empreendedores ficavam de fora e não conseguiam acessar nenhuma linha de crédito. Tinha uma empreendedora que mudou o local da operação para uma área seca dias antes das enchentes e também ficou sem acesso. Com o Estímulo, eles conseguiram recursos”, explica Lucas.
Crédito humanizado
O processo de concessão de crédito do Estímulo passa por três etapas. A primeira é tecnológica, com filtros automatizados que fazem uma triagem inicial dos pedidos. Em seguida, uma mesa de crédito analisa os casos que passaram pela primeira fase. Quando o candidato chega à terceira etapa – a entrevista –, já chegou bem delimitado: os filtros anteriores são eficientes o suficiente para que apenas uma parcela pequena dos pedidos seja negada nesse último estágio.
É na entrevista que mora o grande diferencial. Um time de relacionamento liga diretamente para o empreendedor – não para bater um checklist, mas para entender a história dele, saber para que vai usar o recurso e avaliar se o plano faz sentido. O Estímulo só concede crédito produtivo, e esse contato humanizado é o momento de aproximar e, ao mesmo tempo, reduzir o risco da operação.
No total, são cerca de 100 contratos desembolsados por mês. A combinação entre tecnologia nos primeiros filtros e escuta ativa na etapa final é o que permite ao Estímulo ter flexibilidade para ajustar sua política de crédito à realidade de cada empreendedor – e esse equilíbrio é, na visão da organização, seu principal diferencial.
Quase 40% dos tomadores atendidos pelo Estímulo estão acessando crédito formal pela primeira vez. É um dado que revela tanto o perfil do público quanto a proposta da organização: alcançar empreendedores bons que o sistema tradicional deixou de fora – não por falta de capacidade de pagamento, mas por falta de garantias ou histórico financeiro.
O processo é diligente justamente para viabilizar isso. Sem exigir garantias, o Estímulo olha com cuidado para a capacidade de pagamento e o nível de endividamento de cada negócio – uma análise que substitui o colateral pelo entendimento real da operação.
Esse rigor também se reflete nas condições oferecidas. A taxa média nos dois fundos gira em torno de 2% ao mês – entre 40% e 50% abaixo da média de mercado para linhas sem garantia, que chegam a 4,3% ao mês, segundo Lucas. Para um empreendedor que muitas vezes nunca tinha acessado crédito formal, a diferença é significativa.
Do lado dos investidores, o perfil também é distinto. Quem aporta no Estímulo não busca apenas retorno financeiro – atribui valor ao impacto e quer saber para onde o dinheiro está indo. Para atender a essa expectativa, a organização entrega relatórios que combinam indicadores objetivos, como número de empreendedores apoiados e taxa média praticada, com histórias reais de tomadores. É uma forma de tangibilizar o impacto e mostrar, concretamente, o que cada real investido está nutrindo.
Amazônia e capacitação
O próximo horizonte de expansão do Estímulo é a Amazônia. Em estruturação com parceiros como Vale e Sebrae, o Fundo Amazônia nasce de uma escuta direta ao território: em visita recente com a Endeavor, a equipe ouviu de empreendedores locais que, apesar do volume de recursos direcionados à floresta, quem toca um negócio tradicional, como uma padaria, ou até mesmo startups de bioeconomia e biocosméticos, ainda encontra pouco suporte para crescer.
“As linhas de governo funcionam para alguns perfis, mas deixam nichos relevantes de fora”, afirma Lucas. O Estímulo quer ocupar esse espaço. “Já tem muita gente olhando para fintechs, queremos olhar para onde ninguém está olhando. O Norte e Nordeste, regiões menos desenvolvidas, com menor IDHM, são as que performam melhor, muito por conta de uma escassez de crédito. Quando chega uma linha acessível, com suporte, capacitação, o empreendedor valoriza muito. Esse tipo de descoberta são os nossos oceanos azuis”.
A capacitação, que sempre foi parte da proposta do Estímulo, ganhou uma nova dimensão nos últimos anos. Os dados internos mostram que empreendedores que passam por capacitação têm inadimplência 49% menor, impacto observado ao longo de cinco anos e visível em todos os scores de crédito, com efeito ainda mais pronunciado entre aqueles com histórico financeiro mais frágil.
O formato que funcionou foi o micro learning pelo WhatsApp: trilhas rápidas de marketing, finanças e outros temas entregues onde o empreendedor já está, sem exigir que ele pare para acessar uma plataforma. A metodologia provou tanto resultado que passou a ser comercializada – iFood, Ambev e Energisa já contrataram o serviço para capacitar seus pontos de venda.
O próximo passo é integrar crédito e capacitação de forma personalizada, com uso de inteligência artificial para entender o momento de cada empreendedor, identificar suas dores e conectá-lo ao conteúdo certo – com o objetivo simultâneo de desenvolver o negócio e reduzir a inadimplência. Para quem teve o crédito negado, a capacitação é gratuita e passa a funcionar como um caminho de desbloqueio: o empreendedor recebe um playbook com o que precisa fazer para acessar o recurso.
Para liderar esse novo ciclo, o Estímulo anunciou em abril a contratação de Vanessa Soki como head de educação e capacitação. Economista pela UFMG, ela traz uma trajetória que passa pelo BTG Pactual, pelas mobilidades 99 e Yellow e pela edtech Passei Direto.
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