
*Por Bruno Gama, CEO da FlowCredi
Quando fundei minha primeira startup, em 2017, captar investimento fazia parte da estratégia desde o início. O mercado vivia um período de forte expansão, investidores buscavam empresas para acelerar e levantar uma rodada era visto como um dos principais marcos de crescimento de uma startup.
Hoje, empreendendo novamente, percebo uma mudança clara nessa conversa. Os empresários continuam buscando capital para crescer, mas as perguntas passaram a ser outras. Em vez de pensar apenas em quem pode investir no negócio, muitos querem entender qual é a forma mais eficiente de financiar sua expansão.
Essa mudança não aconteceu por acaso. O ciclo de juros baixos ficou para trás, os investidores se tornaram mais seletivos e as empresas passaram a conviver com um ambiente em que eficiência financeira pesa tanto quanto crescimento.
Então, uma discussão que havia perdido espaço voltou à tona: qual é a melhor estrutura de capital para cada empresa?
A resposta depende muito mais do estágio do negócio do que necessariamente da modalidade escolhida.
Empresas intensivas em tecnologia, com alto potencial de crescimento e necessidade de acelerar a operação, seguem encontrando no venture capital um parceiro importante. Por outro lado, negócios que já geram caixa, possuem receita previsível e enxergam oportunidades concretas de expansão cada vez mais avaliam alternativas capazes de preservar a participação societária dos fundadores.
Tenho percebido esse cenário nas conversas com outros empreendedores desse segundo grupo. Eles, geralmente, querem entender quanto custa o capital que estão captando, quais compromissos assumirão nos próximos anos e qual será o impacto dessa decisão sobre o controle da empresa. São perguntas que, até pouco tempo atrás, ficavam em segundo plano diante da facilidade de acessar recursos via venture capital.
Até por conta disso, modalidades de crédito voltaram a ganhar relevância. O crédito com garantia de imóvel (CGI), por exemplo, hoje é um produto eficiente para quem tem patrimônio imobiliário e não quer abrir mão da participação societária. O capital, via home equity, pode ser direcionado para financiar projetos de expansão, aquisição de equipamentos, abertura de novas unidades ou reforço de capital de giro.
Captar sem perder autonomia, porém, exige criatividade dos founders. Não se trata de rejeitar recursos externos, mas de desenhar estruturas que financiem o crescimento sem comprometer o controle sobre as decisões do negócio. Essa engenharia, que combina garantias, prazos e fontes distintas de recursos, tornou-se uma competência tão importante quanto a própria capacidade de vender ou operar.
Isso porque as empresas passam por ciclos diferentes ao longo da sua trajetória e, naturalmente, precisam de estruturas de capital alinhadas ao seu momento. Há situações em que faz sentido captar investimento. Em outros, o crédito pode oferecer uma solução mais eficiente. Também existem casos em que combinar diferentes fontes de recursos é a decisão mais inteligente.
Talvez a principal mudança esteja na relação do empreendedor com o próprio capital. Hoje, a discussão incorpora custo financeiro, governança, diluição societária e retorno esperado sobre cada investimento.
Esse é um movimento saudável para o ecossistema. Quanto mais desenvolvidas forem as alternativas de financiamento, maiores serão as possibilidades de cada empresa construir uma estratégia compatível com sua realidade. O mercado brasileiro evoluiu muito nesse aspecto. Hoje há investidores, bancos, fundos especializados e operações de crédito estruturadas capazes de atender perfis bastante distintos de empresas.
Nos próximos anos, acredito que veremos empreendedores tomando decisões cada vez mais alinhadas à estratégia do negócio e menos guiadas por tendências de mercado. Afinal, crescer continua sendo uma ambição comum a praticamente toda empresa. A diferença é que, daqui para frente, as mais eficientes serão aquelas que sabem escolher o capital certo para cada etapa da sua trajetória.
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