
A Databricks decidiu que ser um fornecedor de tecnologia para startups no Brasil é apenas uma parte do trabalho. Em linha com iniciativas já tocadas pela companhia em outros países, a multinacional estruturou uma frente inteiramente dedicada ao ecossistema de nativos digitais no país.
A nova estratégia saiu do papel no começo do ano, com equipe própria, programa global de incentivos e um funil que vai desde companhias em estágio seed até parcerias de co-criação com clientes maduros. À frente da estratégia está Gustavo Amici, executivo com passagens por Microsoft e Google for Startups, que assumiu em novembro o cargo de diretor de Startups e Nativos Digitais no país.
“Esse trabalho sempre fez parte do plano de investimentos que a gente tinha para o Brasil, estruturando a Databricks de forma a ficar muito mais próximo das necessidades de cada indústria. E com toda certeza, uma das mais importantes são as nativas digitais”, afirmou Ricardo Buffon, Country Manager da Databricks no Brasil, em conversa com o Startups.
Conforme explica Gustavo Amici, a estrutura é organizada como um funil. Na porta de entrada estão as startups em rodada seed e série A, que podem se inscrever em um programa global recém-lançado pela Databricks. Uma vez aprovadas, recebem até US$ 200 mil em créditos na plataforma, acesso a mentorias, comunidade, webinars e eventos exclusivos.
À medida que essas companhias evoluem, passam a integrar um segundo estágio — um grupo mais exclusivo de nativos digitais, formado hoje por 40 empresas brasileiras que operam em parceria mais próxima com os times comercial e técnico da Databricks.
Como funciona?
Segundo o diretor, a atuação com esse grupo se desdobra em três vertentes de complexidade crescente. A primeira é de eficiência interna, e um exemplo dado por ele foi o do iFood, que usa a plataforma da Databricks para otimizar custos de entrega.
A segunda envolve a criação de produtos de dados que a empresa leva ao mercado, caso da CRMBonus, que construiu suas soluções de giftback e cashback sobre a plataforma de dados da multinacional. A terceira, no ponto mais avançado da esteira, é a co-criação de produtos em conjunto com a Databricks.
O exemplo mais recente dessa parte de co-criação é o da fintech Dock, com quem a companhia desenvolveu, do zero, uma solução que será apresentada na Febraban de agosto e que, segundo Buffon, “tem potencial de impactar o mercado financeiro no Brasil”.
“É mais do que um time comercial. Porque é realmente um time que, quando a gente chega nessa ponta da estratégia, está co-criando junto com o cliente. E isso possibilita depois esse cliente entrar no nosso marketplace e, em alguns casos, ter até uma internacionalização”, explica Ricardo.
A tese que sustenta o movimento é específica, e mostra o interesse da Databricks em “agitar” o mercado a partir de inovações das startups para pautar também os grandes clientes.
“A grande revolução vai vindo das startups porque os players mais tradicionais estão vivendo agora um momento de transformação. Diferente do ecossistema de startups e nativos digitais, que já nascem pautados por essas novas tendências”, disse o diretor. Ele reforça que a diferença aparece até no ritmo: enquanto um banco pode levar até dois anos para decidir sobre uma tecnologia, uma startup absorve, testa e adapta em questão de dias.
Para os próximos meses, a projeção do time é ampliar o cohort de nativos digitais na medida em que as startups em early stage forem se qualificando pela esteira do funil. “Vai ser natural. A gente começa a abastecer de early stage e, à medida que essas empresas amadurecem, colocamos no cohort”, explicou Amici.
Parcerias com VCs e ecossistema
O braço brasileiro da Databricks também tem intensificado o relacionamento com investidores e hubs de inovação. Entre as ações dos últimos meses estão eventos com a Monashees, que levou startups investidas para conversar com o time no escritório da Databricks, e com a Norte Ventures, durante a edição de 2026 do Brasil at Silicon Valley.
A companhia também estruturou um relacionamento com a Endeavor, onde Gustavo Amici é mentor da rede. Em paralelo, se conecta com clusters de inovação em diversas capitais — estão em conversa iniciativas com hubs como o Instituto Caldeira, em Porto Alegre, e o Cubo, em São Paulo. “A ideia é que a gente leve a inovação da Databricks aonde a inovação no Brasil está nascendo”, resume Ricardo Buffon.
Investimentos globais e o momento de colheita
A movimentação no Brasil acontece em paralelo com o momento mais intenso da história recente da Databricks. Há duas semanas, a companhia anunciou uma rodada de US$ 3 bilhões que avalia a empresa em US$ 188 bilhões — o terceiro salto de valuation em pouco mais de um ano (a companhia valia US$ 62 bi no fim de 2024 e US$ 134 bi em fevereiro de 2026).
A Databricks também tem um braço próprio de investimentos, o Databricks Ventures, que já fez um investimento no Brasil. A primeira investida local foi a Indicium, empresa catarinense de engenharia de dados. “O Brasil e a América Latina em geral são um mercado super interessante, e a Databricks, através dessa estrutura global, está sempre olhando”, afirma Ricardo, sem dar detalhes sobre possíveis novos aportes.
Perguntado sobre como está sendo o ano no Brasil, Ricardo Buffon não abriu números, mas destacou que a operação local vem crescendo em número de clientes, receita e headcount, em um ritmo que acompanha o bom momento que a companhia vive lá fora. “Agora é começar a colher os frutos de toda a construção de estrutura que fizemos nos últimos anos, e já estamos vendo os primeiros resultados”.
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